Mamonas Assassinas: O legado da banda mais divertida do Brasil
30 anos após o acidente fatal que levou todos os membros dos Mamonas Assassinas, o texto traz uma review do único álbum lançado pela banda.
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Há exatos 30 anos, em 2 de março de 1996, o Brasil entrava em luto com a notícia de que o avião Learjet 25D, que levava a banda Mamonas Assassinas de Brasília de volta a Guarulhos, colidira contra a Serra da Cantareira, resultando na perda de nove vidas, incluindo todos os membros da banda.
Os Mamonas iniciaram sua trajetória artística ainda em 1992 com o nome de Utopia. O grupo foi fundado pelos office boys guarulhenses Bento Hinoto (guitarra) e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli (baixo e bateria, respectivamente), que idolatravam os ídolos do rock nacional dos anos 80 e sonhavam em ser os próximos grandes rockstars. A banda fazia diversos shows em bares e festas de amigos, tocando os maiores sucessos dos Titãs, Ultraje a Rigor, Ira! e outros nomes do rock nacional e internacional, como Rush e Red Hot Chili Peppers. Durante um show no Parque Cecap, bairro em Guarulhos, a plateia pediu que tocassem “Sweet Child O’Mine”, do Guns N’ Roses, e, ao chamarem alguém da multidão para cantar, quem subiu foi Dinho, que, com seu inglês improvisado e jeito divertido, cativou a banda e se tornou o seu vocalista oficial. Mais tarde, o tecladista Júlio Rasec se juntou ao conjunto.
Enquanto Utopia, lançaram um álbum homônimo em 1992, que foi um fracasso total. Foi por influência do produtor paulistano Rick Bonadio que o conjunto decidiu, a duras custas, abandonar a pegada séria que tentavam emplacar e se dedicar àquilo que sabiam fazer de melhor: a comédia.
Em 1995, mudaram de nome para Os Mamonas Assassinas e gravaram uma fita demo com três músicas. Mais tarde, esta chegou às mãos de João Augusto Soares, vice-presidente da gravadora EMI Odeon, que, convencido por seu filho, contratou os rapazes. O problema era que a gravadora queria 10 músicas para fechar um álbum, porém a banda só tinha aquelas três que enviaram à gravadora. Mentiram dizendo que tinham mais, e que podiam trabalhar no resto em breve. Na semana seguinte, a banda compôs 12 canções, totalizando 5 a mais do que o exigido.
Em 23 de junho de 1995 chegava às lojas brasileiras o primeiro (e único) álbum lançado pela banda. Com 14 faixas – “Não Peide Aqui, Baby”, paródia de “Twist and Shout”, dos Beatles, ficou de fora porque tinha palavrões demais –, o álbum vendeu mais de três milhões de cópias e segue sendo um dos maiores sucessos do rock nacional, ocupando o 9º lugar na lista de álbuns brasileiros mais vendidos da história. De estilo completamente eclético, o álbum, produzido por Rick Bonadio (o famoso Creuzebeck, como é chamado pela banda), mistura inúmeros estilos musicais, do brega ao heavy metal, passando pelo sertanejo e pelo vira português, e parodia diversos artistas nacionais e internacionais.
A primeira faixa, “1406”, recebe seu título do número de telefone de um canal de televendas de São Paulo que funcionou durante a primeira metade dos anos 1990. A letra fala do consumismo que já tomava conta da população mundial, além de retratar a dura situação econômica vivida pelo povo brasileiro como consequência do governo Collor (1990-1992). O refrão “Money que é good nóis num have” tira sarro dos estrangeirismos presentes nas músicas do Utopia, e logo se transformou em jargão popular para tratar de forma cômica e leve sobre as dificuldades financeiras sempre cotidianas no país.
Seguindo o disco, há “Vira-Vira”, faixa que parodia um gênero musical tradicional de Portugal. Musicalmente, a faixa se inspira muito no sucesso “O Vira”, lançado pelo Secos & Molhados em 1973. A letra brinca com o estereótipo de piada da “Maria e o Português”, extremamente comum nos anos 1990, na qual os dois personagens principais sempre se veem em situações inusitadas que servem de punchline. Aqui, o português Manoel recebe um convite para uma festa um tanto quanto inusitada (quem já ouviu a música sabe do que estou falando), mas envia sua esposa no lugar, pois tem um compromisso no horário da festa. A faixa foi o primeiro grande sucesso dos Mamonas após ser reproduzida na 89 FM - A Rádio Rock, ajudando a impulsionar as vendas do disco.
“Pelados Em Santos” é, com certeza, a música mais famosa da banda. Inicialmente, a faixa era chamada de “Mina” e foi gravada num estilo que imitava o brega de Reginaldo Rossi. Por influência de Bonadio, adicionaram os toques de rock presentes e finalizaram a faixa. A letra dispensa apresentações: um verdadeiro clássico das rodas de violão em qualquer praça, esquina, festa ou bar.
Em sequência, “Chopis Centis” (trocadilho com Shopping Center) apresenta o passeio de um peão de obras com sua namorada em um shopping, brincando com estrangeirismos e estereótipos. A canção também conta com uma forte influência da música americana, fazendo justamente uma metalinguagem com a questão estrangeira colocada. O mais notável é, claro, o riff de “Should I Stay Or Should I Go”, sucesso da banda The Clash.
Seguindo, “Jumento Celestino” faz uma sátira da mistura de baião nordestino com rock característica dos Raimundos. A letra é inspirada em histórias dos pais de Dinho, que, quando o vocalista tinha dois meses de idade, se mudaram de Irecê, na Bahia, para Guarulhos em busca de melhores condições de vida, e narra, de forma divertida e humorística, dificuldades vividas pela população migrante nas grandes cidades do eixo Rio-São Paulo.
Depois, entra “Sabão Cra-Cra”, canção cultural muito comum entre adolescentes nas escolas do início da década de 1990, e, em seguida, “Uma Arlinda Mulher” fecha o lado A. A faixa é uma clara paródia das baladas acústicas românticas, cheias de declarações líricas e rebuscadas, características de artistas como Beatles e Belchior (que, inclusive, é imitado por Júlio Rasec em dado momento da música). Musicalmente, a banda pega, além dos exemplos já citados, muitas referências do Radiohead, em especial as guitarras distorcidas contrastantes com o violão, presentes aqui e em “Creep”. Ao final, fazem mais uma piada com o clássico efeito de fade-out, comum nas músicas pop dos anos 1980.
Virando o disco, começamos com “Cabeça de Bagre II”, paródia clara das letras dos Titãs. A canção, por mais cômica que seja, não perde a linha de crítica social característica da banda de inspiração, falando sobre “fome, miséria e incompreensão”, classificando o Brasil como “tretacampeão”.
Em sequência, temos “Mundo Animal”, faixa que imita o brega de Falcão e, no final, faz alusão a “Toda Forma de Amor”, de Lulu Santos. A letra, aqui certamente focada num humor meio “quinta série”, traz piadas envolvendo animais em situações cômicas, principalmente de teor sexual.
Agora, um dos maiores – e mais polêmicos! – sucessos da banda. “Robocop Gay” era, inicialmente, “Demerval, o machão”, canção feita para propaganda de um político guarulhense, mas foi modificada para entrar na fita demo gravada pela banda. Nos anos 1990, a homossexualidade ainda era um grande tabu. Falar qualquer coisa sobre o assunto não era tão bem aceito, imagina lançar uma canção com os versos “abra sua mente/gay também é gente” e retratando um dos maiores símbolos de masculinidade da cultura pop como sendo, na verdade, um homem gay. Por mais que, atualmente, percebamos que há sim versos problemáticos e que reforçam estereótipos não condizentes com a realidade, a faixa se popularizou por possuir, nas entrelinhas, um caráter transgressor, que buscava se utilizar da comédia para provocar uma reflexão na juventude.
A faixa seguinte, “Bois Don’t Cry”, parodia The Cure no título e o sertanejo brega na letra, contando a história de um homem que sabe que é traído, mas gosta de ficar no sofrimento, trazendo uma versão caricata do cantor sertanejo médio. No instrumental, a mistura de brega com rock funciona impressionantemente bem, com ênfase especial para a referência a “Tom Sawyer”, do Rush, no final da faixa.
Em sequência, “Debil Metal” traz uma paródia das bandas de heavy metal brasileiras, em especial o Sepultura, que fazia enorme sucesso na época. A faixa traz um instrumental pesado e um vocal gutural de Dinho, cantando uma letra completamente sem sentido em inglês. Em sequência, a clássica “Sábado de Sol” trás uma brincadeira divertida ao contar a história do rapaz que foi com seus amigos comer feijão, mas só encontrou maconha. Nonsense total. Fechando o disco, “Lá Vem o Alemão” é um pagode suave que narra a história de um rapaz que é abandonado por sua mulher, que foi atrás de um alemão na praia, novamente brincando com o clássico tema da traição, muito presente nas músicas brasileiras.
Como já dito, o disco foi um sucesso tremendo. Foram shows, entrevistas e prêmios a rodo, além da preparação para um segundo álbum. Tudo indicava que os cinco garotos de Guarulhos tinham, finalmente, alcançado seus sonhos de se tornarem estrelas.
O sonho foi por água abaixo quando, no dia 2 de março de 1996, menos de um ano após o lançamento do disco, a banda sofreu um acidente aéreo fatal que levou todos os músicos, além de membros da equipe de apoio.
O acidente foi documentado por todos os canais de notícias na época, e hoje, 30 anos depois, a banda continua ganhando fãs e sendo homenageada por todo o Brasil como um dos acontecimentos mais importantes da música brasileira. Por mais que alguns versos de suas músicas tenham envelhecido como leite, sendo completamente inaceitáveis na sociedade atual, é inegável que os Mamonas Assassinas tiveram um papel essencial para trazer alegria à população brasileira em meio a tantos escândalos políticos e instabilidades econômicas presentes na época, utilizando o humor não só para divertir, mas também para jogar luz sobre temas importantes que ainda permeiam a sociedade brasileira.
Ainda hoje, o legado da banda pode ser visto em regravações das músicas do grupo, como a versão de “Pelados em Santos” feita pelo Titãs, ou as diversas interpretações de “Renato, o Gaúcho”, letra encontrada nos diários de Júlio Rasec e que não chegou a ser gravada pela banda. Também, em 2023, foi lançada uma cinebiografia da banda, mas que, infelizmente, não agradou aos críticos, e muito menos aos fãs. Agora, em 2026, será inaugurado, em Guarulhos, um memorial em homenagem aos músicos, mostrando que o amor, carinho e saudade pela banda mais divertida do Brasil continua a crescer cada dia mais.
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Sarah Costa
