Por que a Venezuela importa?
Mas a Venezuela importa? Na coluna de hoje, a FGV Global argumenta que o caso venezuelano vai além de disputas geopolíticas pelo controle sobre a maior reserva de petróleo do mundo

Ao passo que os ativos financeiros de todo um país e a maior reserva de petróleo do mundo chegam às mãos dos Estados Unidos por meio da força, a economia e as negociações mundiais podem vir a experienciar efeitos mistos advindos da nova administração e da mudança de atitude da maior superpotência global. Ainda que o principal valor estratégico da Venezuela resida em seus recursos energéticos, a intervenção estadunidense gera inseguranças frente à possibilidade de novas intervenções unilaterais e às expectativas de estabilização decorrentes da consolidação da influência dos EUA nas Américas. Esse cenário afeta diretamente as negociações regionais e globais ao introduzir incertezas sobre os limites da atuação das grandes potências. Ademais, a transferência do controle das reservas petrolíferas e dos ativos financeiros venezuelanos altera as condições de mercado e influencia diretamente os acordos comerciais e energéticos associados a esses recursos. Ao impactar tanto a segurança internacional quanto à oferta de uma commodity central para a economia mundial, as ações dos Estados Unidos na Venezuela contribuem para a volatilidade dos preços do petróleo, cujos efeitos se propagam para os outros setores produtivos. Dessa forma, a possível estabilidade regional pode estimular o comércio, mas também reforça temores de novas intervenções, o que amplia a instabilidade estrutural do sistema internacional.
A questão da invasão à Venezuela pelos EUA não se trata apenas de valores morais ou financeiros, visto que a obtenção da hegemonia nas Américas também atrai o país. A noção de hegemonia refere-se à capacidade de um Estado de exercer liderança estrutural sobre um sistema regional ou global, seja por meio de superioridade militar ou pela concentração de recursos econômicos, institucionais e normativos que lhe permitem moldar regras, expectativas e comportamentos dos demais Estados. Dada a existência de um aspecto comportamental, a influência não se limita à coerção direta, mas envolve a capacidade de orientar decisões de outros por meio de incentivos, pressões diplomáticas, controle de fluxos financeiros e definição de agendas. Uma potência pode ser entendida como um Estado que concentra capacidades materiais, econômicas e diplomáticas suficientes para projetar poder de forma consistente para além de suas fronteiras e influenciar a organização regional ou internacional. Ao passo que uma potência exerce influência de maneira sistemática sobre uma determinada região, ela estabelece sua esfera de influência, isto é, um espaço geopolítico no qual consegue restringir a atuação de outras potências e condicionar a autonomia dos Estados periféricos. A hegemonia estadunidense nas Américas manifesta-se não apenas pela exclusão de rivais externos, mas pela capacidade de definir os limites das escolhas políticas, econômicas e diplomáticas dos países da região, o que os permite construir relações de dependência e coordenação que moldam os efeitos analisados neste artigo.
Os efeitos do evento américo-venezuelano são divididos em duas categorias centrais, que, por sua vez, podem assumir caráter positivo, negativo ou misto. Os efeitos diretos referem-se às alterações imediatas nos preços de ativos e commodities, decorrentes de mudanças intencionais na oferta, na produção ou no controle desses bens estratégicos. Já os efeitos indiretos manifestam-se por meio das percepções, expectativas e receios globais que influenciam os mercados, podendo afetar a disponibilidade de recursos em função de conflitos, sanções ou rearranjos geopolíticos. Ambos os tipos de efeito variam conforme o ator observado, uma vez que determinadas transformações podem beneficiar alguns países enquanto prejudicam outros, a depender de suas posições nas redes de comércio, investimento e poder. Além disso, tais impactos diferenciam-se temporalmente: no curto prazo, refletem-se em reações imediatas dos mercados e ajustes conjunturais; no médio prazo, consolidam-se em padrões de investimento, comércio e dependência; e, no longo prazo, influenciam a estrutura das relações regionais e a distribuição de poder. Assim, as ações dos Estados Unidos em relação à Venezuela podem produzir consequências opostas às inicialmente pretendidas, seja ao promover maior estabilidade, seja ao aprofundar dinâmicas de instabilidade estrutural.
Efeitos diretos aparecem como resultados da reconfiguração administrativa repentina na Venezuela. Ao assumir o controle da produção e venda de petróleo venezuelano, os Estados Unidos alteram a oferta global dessa commodity estratégica em prol aos seus interesses próprios, o que pode provocar oscilações nos preços do barril de petróleo no curto e médio prazo, seja por expectativas de aumento de produção e exportação, seja por ajustes no comportamento dos mercados frente à nova configuração de poder. Ademais, a própria desconfiança decorrente da mudança administrativa também gera oscilações, visto que ainda não se sabe a performance que o novo administrador terá (AllianzGI, 2026). Como o petróleo continua sendo uma referência central para necessidades energéticas, mudanças em seu preço têm efeitos imediatos sobre os custos de produção, a inflação e os balanços comerciais da economia dos países. Quando o preço do petróleo cai, conforme indicam projeções de oferta global elevada e potencial superávit nos mercados, consumidores e importadores podem experimentar alívio nos custos de energia e derivados da commodity. Essa queda reduz a arrecadação de Estados dependentes da exportação de petróleo e compromete a rentabilidade das empresas do setor energético, ao diminuir o valor obtido por barril comercializado. Em termos globais, o fenômeno de queda do petróleo traduz-se em efeitos positivos quando a redução do preço do petróleo contribui para a contenção da inflação e melhora nas condições de produção e consumo em economias dependentes de energia importada. Ao mesmo tempo que os efeitos diretos da queda do petróleo beneficiam países, eles também trazem prejuízos ao corroer os resultados fiscais dos exportadores da commodity. Ao que a queda de preço aumenta o risco de desinvestimento na indústria dos combustíveis fósseis devido à insegurança dos investidores, oscilações no mercado financeiro alteram expectativas de retorno e afetam valuations de empresas e países vinculados ao setor. Para o Brasil, em especial, os efeitos são completamente ambíguos: mesmo que a redução no preço do petróleo possa aliviar a pressão inflacionária e reduzir custos de combustíveis, a indústria petrolífera brasileira sofre com a queda dos preços.
Efeitos indiretos surgem à economia à medida que os EUA atingem hegemonia nas Américas. Devido à ausência de outras potências com influência quaisquer das Américas, menos conflitos tendem a aparecer, o que poderia trazer mais confiança para as negociações regionais. a presença de uma potência hegemônica tende a reduzir a incidência de conflitos ao impor uma estrutura hierárquica ao sistema internacional, diminuindo a competição direta entre Estados. A hegemonia concentra capacidades materiais suficientes para dissuadir desafios ao status quo que a Venezuela, aliada a outras potências, representa; o que torna os custos de confrontação mais elevados. A ausência de rivais capazes de contestar a ordem estabelecida reduz os incentivos à guerra, uma vez que disputas de poder se tornam pouco viáveis. O hegemon assume a responsabilidade pela manutenção da ordem enquanto fornece bens públicos como segurança e previsibilidade, o que contribui para a estabilidade regional. Enquanto a hegemonia permanece intacta, o sistema tende a apresentar menor propensão a conflitos abertos, sobretudo de caráter regional ou sistêmico (Gilpin, 1981). Com o fim dos países que desafiam os Estados Unidos na América, conflitos como os que Maduro e Washington travavam ficam mais raros, o que traz mais previsibilidade aos investimentos na Venezuela. Em termos globais, esse cenário gera efeitos positivos ao reduzir riscos sistêmicos, diminui a volatilidade dos mercados e favorece fluxos comerciais. A maior previsibilidade tende a beneficiar investidores e Estados dependentes do petróleo venezuelano, já que mitiga possíveis incertezas associadas a sanções, conflitos ou quaisquer rupturas institucionais decorrentes dos desentendimentos de Maduro para com o resto do mundo. Ainda que possa haver benefícios, essa mesma hegemonia produz efeitos negativos ao reforçar a concentração de poder decisório, ela limita a autonomia de países periféricos e os mantém dependentes a Washington. Para o Brasil, os efeitos indiretos manifestam-se também de forma mista. Por um lado, a redução das tensões regionais e a maior previsibilidade nas relações com a Venezuela podem favorecer o comércio fronteiriço, a cooperação energética e a estabilidade política sul-americana, o que significa um ambiente mais seguro para investimentos e projetos de integração. Por outro lado, a consolidação da hegemonia estadunidense limita o espaço de autonomia da política externa brasileira, o que restringe a capacidade do Brasil de atuar como mediador regional ou de construir arranjos independentes de governança. Ao que o Brasil tem que competir por influência na América do Sul com os Estados Unidos, o Brasil enfrenta assimetrias materiais, diplomáticas e institucionais que reduzem sua capacidade de liderar iniciativas regionais, o que torna seus projetos de integração mais vulneráveis à interferência externa e subordina sua atuação às prioridades estratégicas de Washington.
Em um cenário em que os EUA mantenham sua presença política na Venezuela, os efeitos futuros tendem a combinar estabilidade relativa com aprofundamento de assimetrias estruturais. Como efeitos diretos, a continuidade do controle sobre a produção de petróleo venezuelano por um país com economia relativamente mais confiável que a própria economia venezuelana permitiria maior previsibilidade na oferta global da commodity, o que pode reduzir oscilações abruptas de preços e favorecer o planejamento energético de países que fazem comércio de petróleo com os EUA. Ademais, a permanência estadunidense também tende a atrair investimentos estrangeiros para o setor, já que poderia representar um compromisso com a segurança jurídica e com a integração da Venezuela aos mercados ocidentais, algo de difícil previsibilidade durante a gestão de Maduro. Como efeito indireto, a permanência dos EUA na América do Sul desenha um padrão político, econômico e institucional advindo da contínua hegemonia na região. Paralelamente aos benefícios associados à estabilidade, esse cenário também impõe custos reputacionais a Washington, uma vez que a manutenção de sua influência sobre a Venezuela exige investimentos diplomáticos, financeiros e de segurança contínuos, além de esforços constantes para mitigar a percepção internacional de intervencionismo e imperialismo. A longo prazo, essa dependência de mecanismos de coerção e tutela pode gerar resistência doméstica e internacional, limitar a legitimidade da liderança estadunidense e tornar a estabilidade regional excessivamente dependente da presença ativa dos EUA.
Para outro cenário onde acontece um processo de retirada ou, ao menos, uma redução significativa da presença estadunidense na Venezuela, os efeitos futuros se concentrariam em mais incerteza estrutural. Em termos diretos, a volta dos ativos petrolíferos e financeiros às mãos incertas de Maduro faz com que a instabilidade do status quo prévio à invasão retorne. Ao que o comportamento que o governo venezuelano adota se mostra menos previsível, a economia do país afugenta maiores investimentos e volatiliza o preço do petróleo. Com a inconstância nas atitudes do governo, investidores e importadores voltam a ver a parceria comercial com a Venezuela como um negócio arriscado. Indiretamente, a saída dos EUA do território venezuelano permite que outras potências como a Rússia ou a China tentem ampliar sua influência para a América do Sul. A ausência de um hegemon claro pode intensificar rivalidades, estimular alianças alternativas e reduzir a previsibilidade institucional das relações hemisféricas. Mesmo que a saída reduza os custos políticos e financeiros que os EUA teriam para manter o controle administrativo do país, a perda dos instrumentos de coordenação e controle que a hegemonia oferece os emplacaria. Assim, a retirada estadunidense tenderia a substituição de uma ordem hierárquica para uma ordem baseada na autonomia dos Estados, algo mais instável economicamente.
Em suma, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela representa simultaneamente efeitos estabilizadores e desestabilizadores que irradiam para além das relações bilaterais américo-venezuelanas. Ao reorganizar o controle sobre um recurso estratégico e redefinir padrões de influência regional, os Estados Unidos afetam o mercado e as expectativas de longo prazo internacionais, o que gera benefícios seletivos e custos distribuídos de maneira desigual para importadores e exportadores e subordinadores e subordinados. Tanto a permanência quanto a retirada da presença estadunidense envolvem trade-offs entre previsibilidade, autonomia e legitimidade, o que mostra uma ausência de soluções isentas de riscos sistêmicos. Para o Brasil, esse cenário desafia a formulação da política externa autônoma e a consolidação de projetos regionais próprios. O caso venezuelano importa tanto para as decisões econômicas quanto para a previsão de padrões de atuação dos atores do sistema internacional. A mudança em uma indústria tão importante para o mundo como o petróleo importa pela possibilidade de um desmantelamento do status quo. Ademais, a situação não se limita aos efeitos financeiros, ela se extende para possibilidades de alteração no comportamento das potências em relação aos demais Estados.
Referências:
Allianz Global Investors. Venezuela instability: market implications. 2025. Disponível em: Venezuela instability: market implications | Allianz Global Investors
Gilpin, Robert. War and Change in World Politics. Princeton: Princeton University Press, 1981.
Autoria: FGV Global
magem de Capa: The Economist
Revisado por Pedro Anelli Bastos
