Maternidade como produto: por que as mães são a principal peça do sistema capitalista?
Em “Maternidade como produto”, o artigo analisa consumo, divisão sexual do trabalho e a instrumentalização do cuidado como parte estrutural do capitalismo.

O capitalismo transformou a maternidade em parte intrínseca ao seu sistema. Estimulou o american dream, a visão da mulher como mantenedora do lar e o sonho da maternidade. Nada de maneira impensada. A verdade é que as mães são a principal peça do sistema capitalista: são as únicas capazes de colocar no mundo, gratuitamente, os futuros trabalhadores, que permitem a perpetuação do ciclo de exploração trabalhista. Além disso, são as ditas responsáveis por fornecer os recursos necessários para que seus maridos, companheiros, pais e irmãos, também explorados pelo sistema, mantenham seu padrão de rendimento na escala 6x1. Afinal, a comida posta à mesa, a roupa passada pontualmente e o cuidado integral com as crianças são os elementos que garantem a maior produtividade masculina no trabalho. Desse modo, não é difícil entender que a criação de papéis sociais de gênero não nasceu por abiogênese, mas foi condicionada em prol de altos níveis de produtividade. O raciocínio é simples: enquanto a única função social masculina seria a do trabalho, a principal função social feminina seria tornar as condições para o trabalho possíveis e gerar novos trabalhadores.
Por óbvio, a divisão de tarefas entre os sexos é muito mais antiga do que a solidificação do capitalismo industrial, tendo suas bases no Neolítico, com o desenvolvimento da agricultura. No entanto, seria errado admitir que o sistema atual não se baseia nas raízes da maternidade e que não aprofundou o papel social feminino no intuito de promover a manutenção da lógica do capital. Seria errado presumir que os corpos não fazem parte do conjunto de mercadorias disponíveis quando se há, dentro do capitalismo, a necessidade de um sistema privado – a família – para garantir o pleno funcionamento do mercado.
Mas, se por um lado, o sistema econômico historicamente se valeu do trabalho feminino, por outro, também baseou-se na figura da mulher como sujeito de consumo. Um dos artifícios utilizados com tamanha maestria para esse fim é a indústria da publicidade e propaganda. A construção do ideário de “mãe perfeita” dos comerciais da Margarina não é uma ironia. Na indústria cinematográfica, por exemplo, a típica narrativa de “o amor verdadeiro tudo suporta” é sucesso de bilheteria até os tempos atuais, como se observa na franquia “Minha Mãe é uma Peça”, na novela “Três Graças” e em tantas outras obras. Essas histórias, promulgadas pela indústria cultural, ensinam às mulheres que abdicar de si para servir ao outro é a maior prova de amor que existe.
A indústria cinematográfica não foi a única a perceber a segunda função principal das mulheres na lógica mercantil, ou seja, o seu papel como consumidoras. Essa linha de pensamento está enraizada em praticamente todas as linhas de produtos de consumo diário. Afinal, a mãe é a principal gestora das atividades domésticas: é responsável pelas compras de alimentos, roupas, produtos de higiene, material escolar, medicamentos e todos os demais itens que decorrem das atribuições familiares. Para tanto, faz sentido que a publicidade mobilize, mesmo que de maneira sutil, sentimentos como culpa, responsabilidade e amor incondicional, sugerindo que o bom desempenho da maternidade está diretamente relacionado à capacidade de consumir adequadamente. Afinal, que mãe de classe média-baixa nunca questionou suas habilidades de cuidado por conta de sua incapacidade financeira?
Além disso, é importante considerar que o mercado cria necessidades de maneira constante, de modo que produtos que antes eram considerados supérfluos tornam-se “indispensáveis” à boa criação dos filhos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a nova tendência de cuidado infantil é a Owlet Dream Sock: uma “meia” que é, simultaneamente, um monitor inteligente para bebês, que oferece leituras de saúde ao vivo. A meia rastreia a frequência cardíaca, o oxigênio, os despertares e a frequência de sono do bebê. O preço? Aqui no Brasil, está entre ordinários R$2000 e R$3000 reais. Além de, claro, a assinatura mensal para obter “relatórios detalhados” acerca da saúde da criança. Esse produto, que é basicamente uma reformulação de produtos de saúde já existentes em um formato gourmet, é apenas uma exemplificação de como cada fase da infância é uma oportunidade de consumo específico. É apenas mais um produto supervalorizado que segue a lógica do capital, aprisionando a mãe, ainda mais, dentro de padrões de desempenho que só podem ser alcançados por meio do consumo.
Em meio a suplementos hiper inflacionados, produtos tecnológicos falsamente inovadores e produtos de higiene hipersegmentados, a mãe típica se vê, então, frustrada com a impossibilidade de prover o visto pelo mercado como “melhor para o seu filho”. Sentimento, vale dizer, potencializado pela já existente insegurança que mães usualmente enfrentam durante a criação de seus filhos por conta da propagação de papéis sociais inacessíveis. Mas, para o sistema, esse cenário de angústia é positivo. Afinal, essas frustrações são responsáveis pelo aumento das vendas ano após ano.
Há ainda um terceiro papel que as mulheres assumem nessa lógica de exploração: a sua própria presença no mercado de trabalho. Há muito se discute dentro do movimento feminista se o “direito ao trabalho” foi, de fato, uma conquista que abrangeu grande parte das mulheres, ou apenas o setor privilegiado que era responsável por ditar as pautas do movimento. Afinal de contas, as mulheres de classes mais baixas também trabalhavam fora de casa, oferecendo sua mão de obra exausta a troco de alguns trocados por serviços informais prestados. No fim, analisando as interseccionalidades dentro do movimento, uma conclusão possível é a de que as mulheres que eram consideradas donas de casa por tempo integral (sendo a sua estrondosa maioria mulheres brancas das classe sociais mais altas) estavam, simplesmente, lutando para serem exploradas dentro do mercado de trabalho.
Não dizendo que as feministas liberais devessem ficar em estado de estagnação perante a lógica do patriarcado e, consequentemente, do sistema capitalista. Mas dizendo que a “solução” encontrada não abrangia a comunidade de mães como um todo, nem sequer a das mulheres em sua totalidade. Se, por um lado, agora todas estariam sujeitas ao trabalho externo, por outro, não haviam sido feitas resoluções acerca da repartição do trabalho doméstico ou de demais problemas enfrentados por outras mulheres, como a racialização e o trabalho escravo – matérias de estudo da corrente do feminismo negro, como estudado por Angela Davis e bell hooks.
É justamente dessa insuficiência resolutiva que se desdobra uma compreensão mais ampla do problema. Soluções rasas, como a inserção massiva das mulheres no trabalho externo, não conseguiram resolver a problemática exploratória que perdura há séculos. Afinal de contas, se são as bases materiais que organizam a vida social e a lógica que as coloca em um papel submisso, não há possibilidade de mudança real de cenário que não envolva a decadência total e absoluta desse sistema.
Nesse sentido, a única conclusão legítima para a libertação social das mulheres é a compreensão de que o capitalismo é o sujeito que prospera mediante a exploração feminina, seja forçando uma lógica social que as obriga a gerar novos trabalhadores, por meio da sua fragilidade quanto consumidoras ou mesmo por meio da desvalorização da sua força de trabalho. Muitas vezes, porém, a culpabilidade da condição submissa e indigna a qual as mulheres são submetidas recai sobre sujeitos particulares. Mas não se engane: é impossível escapar da conjuntura. O trabalho doméstico e os homens não são a fonte de opressão das mulheres, mas sim o sistema capitalista em sua totalidade unitária. É o sistema capitalista que se deita sob o suor do trabalho feminino. O simplismo por trás da culpabilização dos homens pela exploração feminina desconsidera que as diferenciações de gênero são elementos estruturantes do próprio capitalismo, que subverte os corpos e a vida cotidiana para manter a engrenagem de produção sempre funcionando.
Assim, tentar escapar da conjuntura e enxergar essa dinâmica como um problema individualizado leva, inevitavelmente, a soluções superficiais. Quando a opressão é reduzida a falhas morais de sujeitos isolados, sejam homens específicos, escolhas pessoais ou arranjos domésticos particulares, perde-se de vista o caráter estrutural que organiza essas desigualdades. Reformas pontuais, discursos meritocráticos ou rearranjos privados não alteram a engrenagem que produz e reproduz tais assimetrias; apenas deslocam seus efeitos. Enquanto não se questionar a lógica sistêmica que articula produção, reprodução e diferenciações de gênero como partes de um mesmo mecanismo, qualquer “solução” tenderá a administrar sintomas, e não a enfrentar as causas materiais que sustentam a exploração.
REFERÊNCIAS:
HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução de Ana Luiza Libânio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. [S.l.: s.n.], 1884.
ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi. Teoria da Reprodução Social: elementos fundamentais para um feminismo marxista. Tradução de Camila Carduz Rocha e Clara Saraiva. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v. 13, n. 2, p. 619-651, maio/ago. 2023.
CAMPOS, Nayara Rúbio; CARNUT, Leonardo. Saúde, reprodução social no capitalismo e o trabalho feminino em Lise Vogel: uma revisão integrativa. Journal of Management & Primary Health Care (JMPHC), v. 17, n. esp., e004, 2025.
ELIAS, Ivi Vasconcelos. Feminismo e marxismo: teoria da reprodução social em Lise Vogel. 2024. (Artigo aprovado em 05 set. 2024).
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira
