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Relato Pessoal

Minha experiência com voluntariado na África do Sul

A autora narra sua experiência com o voluntariado e reflete sobre a ambivalência moral da experiência.

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Julia Santos

9 min de leitura

17 de fevereiro de 2026

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A culpa incomoda quando tomo mais um gole do cosmopolitan. Somando o valor de 125 rand, mais os 10% que eu deixei na esperança de que o bartender caprichasse um pouco mais na vodka, paguei 137,50 Rand por uma taça quase cheia, com uma casca de laranja flutuando na superfície. 


Isso é 37,50 rand a mais do que uma pessoa no abrigo em que voluntariei por duas semanas tem acesso mensalmente, caso esta não esteja com um emprego fixo. Dada a taxa cambial atual, 100 rand correspondem a 32,17 reais. O que dá para fazer com trinta e poucos reais por mês? Tanto no Brasil quanto na África do Sul, a resposta é: nada, nem o básico.


O valor de 100 rand por mês é provido pela organização social, Sisters Incorporated, que acolhe mulheres e crianças que sofreram violência doméstica, abuso ou qualquer estigma, como o vício. Enquanto fornece lazer para as crianças e profissionalização para as mulheres, trabalha de modo holístico os traumas das vítimas, buscando a superação em conjunto com a comunidade ali construída. 


No nosso primeiro dia de voluntariado, fizeram um tour pela casa e contaram brevemente a história da propriedade. A casa foi construída nos anos 60 por esposas de médicos, com o objetivo de oferecer um abrigo para as mulheres que engravidavam antes do casamento e, por isso, sofriam com o estigma e a exclusão imposta pela sua comunidade. As mulheres passavam todo o período da gravidez na casa, pariam lá e normalmente colocavam o bebê para adoção. Depois disso, se despediam da casa e eram reintegradas nas suas respectivas comunidades como se nada tivesse acontecido. 


Tudo mudou em 1996, quando o aborto foi legalizado na África do Sul. A democracia tinha sido instaurada em 1994 com a vitória histórica de Nelson Mandela para a presidência do país. A partir daí, o direito constitucional à saúde reprodutiva foi efetivado com a Lei de Escolha sobre Interrupção da Gravidez (CTOP), vigente até hoje no país. A propriedade se transformou, então, em um refúgio para mulheres que sofreram violência doméstica e abuso.


Agora, depois de passar parte da manhã e da tarde com as crianças da reserva, dou risada com minha amiga de São Paulo e as duas goianas que conhecemos aqui. Somos meras turistas, bronzeadas e meio bêbadas. Sentadas em uma bancada no Mojo Market, um mercado com karaokê às segundas feiras, vista para o Oceano Atlântico ou Índico (ou os dois), bebidas, pizzas, pokes, sorvetes, gringos, sul-africanos, bugigangas… a terceira taça de vinho rosé deixou o ambiente com um brilho lilás e hilário. Lá em cima, no palco, outro grupo de brasileiros canta “Show das Poderosas”. Fomos dançar lá na frente. 


A ideia de fazer voluntariado foi da minha amiga de São Paulo, que, depois de passar por uma desilusão amorosa, queria mudar de ares. Conforme pesquisamos, descobrimos o projeto da Good Hope Volunteers, o Women's Refuge, um programa de voluntariado exclusivo para mulheres. 


O que realmente nós iríamos fazer só ficou claro no segundo dia,  quando começamos a trabalhar efetivamente. Não tínhamos conhecimento do que aquelas mulheres tinham passado. Na verdade, no Brasil nos disseram que essas mulheres eram “refugiadas” – eu e minha amiga, ambas estudantes de Relações Internacionais, interpretamos a palavra pelo seu sentido geopolítico. Nos enganamos, elas não eram estrangeiras, mas estavam sim, de certa forma, refugiadas – assim como suas crianças. 


Passamos nossas manhãs e tardes em uma casinha nos fundos da propriedade, estilo creche, com paredes coloridas e brinquedos por todos os lados. Atrás tinha um parquinho de areia com um “brinquedão” – como eu chamava, quando criança, aquelas estruturas de shopping/parques com escorregadores, túneis, pontes, etc. Ao lado, uma área com grama sintética, mesinhas e cadeiras de plástico. Ao centro, tinha uma árvore gorda, com as raízes pulando para fora, onde as crianças nos deixavam loucas ao tentarem escalar. Eram muitas emoções ao mesmo tempo, um caos cotidiano. Risadas, abraços e, de repente, lágrimas, gritos, xingamentos. Os ódios e amores se confundiam. De certa forma, eram todos irmãos ali. 


À noite, no Mojo Market ou em um clube de Cape Town, eu estava mais próxima da pessoa que sou em São Paulo. Essa pessoa era privilegiada, estudava em faculdade particular, já viajou para a Disney e para a Itália. Porém, durante o dia eu era a “teacher” daquelas crianças, eu era a pessoa que pegava as bebês no colo quando elas choramingavam, fazia carinho, empurrava no balanço, separava brigas, fazia caretas, dançava junto ao som de Tyla (que, curiosamente, todas adoram). Seria possível voltar a mesma após essa experiência? Seria possível dissolver esse contraste e voltar para o Brasil como uma pessoa inteira? 


Em um final de semana, fui ao safári. Vi dois elefantes tão perto que pude perceber as marcas da lama seca sobre a pele cinzenta dos animais. Eu, mais cinco brasileiras e um alemão careca bebemos cerveja quente na pausa do tour. Nos penduramos no Jeep, tiramos fotos, e, mesmo a poucos quilômetros de distância dos animais selvagens que viviam ali, nos sentimos seguros. 


As crianças do abrigo nunca tinham visto um elefante, mesmo que estes habitassem o seu país. Não sabiam o que eram triângulos, algumas nunca tinham ido para a escola. Uma delas, uma menina branca de seis anos, usou uma palavra racista contra outra criança, tipo a n-word da África do Sul, por causa de um pão de forma com Nutella. Um dia, dois irmãos não apareceram. Um amigo disse que a mãe deles tinha desaparecido fazia dois dias, foi trabalhar e não voltou, então o orfanato levou os dois irmãos. No dia seguinte a mãe reapareceu, e as crianças retornaram para a reserva com novos brinquedos.


Compreender quem sou eu depois dessas duas semanas tem sido complicado. O incômodo é latente, porque, sinceramente, sinto que essa experiência foi mais benéfica para mim do que para as crianças que tentei ajudar. Ainda é, para mim, uma incógnita. Não sei o que vou fazer com ele ou com a minha vida daqui para frente. Sei que não preciso decidir agora, mas pelo menos eu posso escolher. 


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Eu me lembro de um momento que me tocou em particular. Estava com uma menina de seis anos nas costas. Quando ajoelhei para colocá-la de volta no chão, ela pôs minha trança de lado e viu minha cicatriz. Em choque, ela passou o dedo com delicadeza pelo topo, abaixo da nuca até o meio das escápulas, sublinhando a cobra impressa na minha coluna. “Dói?”, ela perguntou preocupada, os olhos bem abertos como duas jabuticabas. Eu respondo que não, até porque tenho pouquíssima sensibilidade sobre a cicatriz. Alima, fascinada por aquela parte do meu corpo que eu considero uma queimadura, sorriu como se minha particularidade fosse quase engraçada de tão inesperada, e voltou a brincar. Eu fui impedir que a bebê de um ano colocasse giz na boca. 


A laranja da taça secou, contorcida no fundo junto ao último gole. No último dia de voluntariado, nos despedimos das crianças com abraços e levamos alguns desenhos que elas fizeram para nós com palitos de picolé, pompons, cola, glitter. Nossos nomes e os seus. 



Imagem de capa: Acervo pessoal 

Segue o link para doações ao abrigo onde me voluntariei: https://sisters.org.za/


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Sarah Costa

Escrito por

Julia Santos

Há 9 meses na Gazeta

Graduanda em Relações Internacionais pela FGV. Na Gazeta, sou Redatora e Diretora de Reportagem.

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