O espetáculo como anestesia: Wicked e a política de pão e circo
Existe algo particularmente perturbador em perceber que o espetáculo raramente existe apenas para ser visto...

Existe algo particularmente perturbador em perceber que o espetáculo raramente existe apenas para ser visto. Ele existe, sobretudo, para ser sentido – e, no sentir, substituir, preencher, infestar mentes com o inexplicável. Substituir a fome por fascínio que a humanidade sempre teve, preencher a sociedade com uma revolta por encantamento e infestar a consciência coletiva com entretenimento.
Poucas obras recentes exemplificam isso com tanta precisão quanto Wicked, e entendo, “política” não é bem a palavra associada a um musical spin-off de O Mágico de Oz. Mesmo assim, ao assistir a parte final do filme, lançado em novembro de 2025, foi justamente o teor político que mais se destacou nas minhas considerações. Tanto no musical quanto em sua adaptação cinematográfica, o que se apresenta como uma narrativa sobre amizade, preconceito e construção de identidade, sob análise mais atenta, revela também uma estrutura profundamente política: um regime que depende do espetáculo para sobreviver e que instrumentaliza a imagem, a narrativa e o entretenimento como mecanismos de controle social. Não se trata apenas de uma história sobre uma bruxa incompreendida, trata-se de uma história sobre poder – e, principalmente, sobre como esse poder se sustenta.
Instintivamente lembrei do interessante conceito de “pão e circo” que permanece atemporal. Na Roma Antiga, a expressão panem et circenses designava a estratégia utilizada pelas elites governantes para conter a insatisfação popular. Ao fornecer alimento gratuito e entretenimento massivo (corridas, lutas de gladiadores, festivais) o Estado reduzia o potencial de revolta. A população, alimentada e entretida, tornava-se menos propensa a questionar as estruturas que a exploravam. Claramente não era apenas sobre mera distração, mas sobre substituir a política pelo próprio espetáculo.
E é exatamente isso que Oz faz. O Mágico não governa por força física direta, ele governa por narrativa. Sua autoridade não deriva de legitimidade real, mas da percepção transmitida às massas. Ele é, literalmente, um homem comum escondido atrás de uma máquina. Sua figura é mantida não pela verdade, mas pela manutenção constante de uma imagem. E ele faz do espetáculo o seu instrumento de poder.
A Cidade das Esmeraldas, tanto no musical quanto no filme, é justamente a materialização desse princípio. Tudo nela é excessivo: as cores, as coreografias, a arquitetura, o entusiasmo coletivo. A estética não é acidental, ela é funcional para além da mera contextualização cinematográfica, é por meio dela que as primeiras distrações são feitas. O brilho permanente impede que se veja a estrutura, os erros, a violência. A grandiosidade impede que se questione o fundamento, o que no filme representa também uma exclusão de minorias.
É particularmente revelador que o momento de maior deslumbramento coletivo coincida com o aprofundamento da opressão. Enquanto a população canta, celebra e se encanta com o Mágico, políticas de exclusão estão sendo implementadas silenciosamente – especialmente contra os animais falantes, que em certa perspectiva representam minorias progressivamente desumanizadas. Aqui, Wicked abandona qualquer sutileza. A perseguição aos animais é a metáfora mais explicita do filme, tão bem aplicada e lógica que atua com uma estratégia gradual. Primeiro, são deslegitimados. Depois, ridicularizados. Em seguida, silenciados. Por fim, removidos.
O processo não ocorre com resistência significativa porque o espetáculo permanece intacto, a população continua entretida e justificativas são feitas a nível governamental e intragovernamental. O medo dos animais a instituído na população, junto às políticas de exclusão, com semelhança comparável ao período pré-nazista do início do século 20. Em cerca, a estratégia é a mesma, mas dessa vez com um tema obviamente mais lúdico. E isso não muda, de maneira alguma, o teor político por trás dessa representação. E esse é o ponto central: regimes que dominam a narrativa não precisam eliminar a verdade – apenas precisam torná-la menos interessante que a ficção que oferecem.
Glinda é talvez o exemplo mais sofisticado desse mecanismo. Sua ascensão à popularidade não ocorre por mérito moral, mas por sua capacidade performática. Ela compreende, intuitivamente, que o poder não está em ser correta, mas em ser querida. É melhor ser amada do que temida, em uma sutil irreverência a Maquiavel. Sua imagem pública é cuidadosamente construída, e ela se torna não apenas uma figura política, mas propositadamente um símbolo.
Sua função é estabilizar o sistema. Sua bondade performática serve como prova de que o regime é benigno, mesmo quando suas estruturas são fundadas em violência.
Elphaba, por outro lado, representa o oposto absoluto. Ela não é apenas marginalizada – ela é incompatível com o espetáculo. Sua existência é uma ruptura estética e política, e ao não poder ser absorvida pela narrativa dominante, ela precisa ser transformada em antagonista. Todo regime ditatorial precisa de um inimigo para se sustentar. A transformação de Elphaba em “Bruxa Má” não é resultado de suas ações, mas de sua recusa em participar da mentira coletiva. E ao contrário do que o próprio filme constrói, a sua maior ameaça não é seu poder, mas sua percepção. Ela vê o que os outros não veem e tenta, ativamente, romper a ilusão tecida pelo Estado. Ela reconhece que o Mágico é apenas mais um homem.
Esse momento é fundamental. Não porque revela a verdade ao público, mas porque revela o mecanismo central da história: o poder não reside na capacidade de governar, mas na capacidade de convencer os outros de que o governo é legítimo. O espetáculo é o governo.
Cinematograficamente, isso é reforçado pela própria estrutura visual da obra. O contraste entre os ambientes é deliberado, a Cidade das Esmeraldas é saturada, vibrante, viva. Os espaços associados à exclusão são mais escuros, mais silenciosos, mais vazios. O espectador é condicionado a desejar o espetáculo, assim como os cidadãos de Oz são, e nesse ponto a direção de arte e ilusão fazem um trabalho sublime implicando no público o mesmo mecanismo.
E é aqui que Wicked deixa de ser apenas uma alegoria distante e se torna perigosamente próximo. O Brasil contemporâneo opera sob lógica semelhante. O espetáculo político é, nas atuais circunstâncias, característica permanente da cultura eleitoral brasileira e, ouso dizer, da cultura governamental do país. Escândalos são substituídos por novos escândalos antes que possam ser plenamente compreendidos e medidas populistas tomadas como remédios imediatos. A indignação é reciclada em ciclos rápidos demais para permitir ação efetiva, e com o efeito das redes sociais, fake news e deepfakes, o entretenimento é constante, e sua constância não é acidental. Não é necessário fornecer pão quando se fornece distração suficiente, então mesmo com o país em fome conseguimos uma massa alienada o bastante para eleger outro governo autoritário. Ou quase.
O futebol, os reality shows, as controvérsias cuidadosamente fabricadas e inflacionadas, políticos como Nikolas Ferreira, os conflitos superficiais amplificados nas redes (havaianas no pé esquerdo ou direito?) – todos operam como formas modernas de circo. Não são problemáticos apenas em si, mas tornam-se instrumentos quando coexistem com estruturas que dependem da desatenção coletiva para persistir. O espetáculo não elimina a opressão. Ele a obscurece o bastante para garantir que o povo não se organize.
A própria estética política contemporânea é profundamente performática. Líderes são avaliados não apenas por suas ações, mas por sua capacidade de produzir imagem, em especial nas redes. Assim, a política torna-se mais narrativa do que nunca, e a narrativa torna-se mais relevante que a realidade material. Assim como o Mágico, muitos governam não por substância, mas por uma projeção cuidadosa. E talvez o aspecto mais perturbador seja que o sistema não depende apenas do governante, depende da pura participação coletiva. O público precisa acreditar, precisa querer acreditar, precisa preferir o conforto do espetáculo ao desconforto da realidade. Porque ver exige responsabilidade e, uma vez que essa escolha é feita, damos o poder não mão de quem nos governa.
Elphaba paga o preço por ver. Assim como Glinda, ela se torna símbolo ao se tornar sua némesis. Ela precisa ser transformada em vilã para que o sistema preserve sua coerência interna, já que a existência de dissidentes ameaça não apenas o poder, mas a narrativa que o sustenta. Há ainda um instrumento mais sofisticado – e talvez até mais eficaz – que complementa o próprio espetáculo: a mediação da realidade. O poder raramente precisa mentir explicitamente; basta decidir o que será mostrado, como será mostrado e com que frequência será repetido. A mídia, quando alinhada (por interesse, pressão ou conveniência) torna-se uma extensão invisível desse mecanismo. Em Wicked, Elphaba não se torna a Bruxa Má por um ato isolado, mas por uma sucessão de enquadramentos que a transformam, aos olhos do público, em ameaça, e uma vez que a narrativa se consolida, ela deixa de ser percebida como narrativa e passa a ser percebida como fato.
Esse é o aspecto mais perigoso: a violência nunca se anuncia primariamente como violência – ela se apresenta como consenso. No Brasil, esse processo se repete com uma precisão desconcertante, grupos inteiros podem ser reduzidos a caricaturas funcionais, indivíduos podem ser julgados no tribunal permanente da opinião pública antes de qualquer defesa real, e tudo isso ocorre sob a aparência de normalidade institucional. O espetáculo não está apenas no que distrai, mas também no que direciona. Porque controlar o que as pessoas veem é, em última instância, controlar o que elas acreditam, e controlar o que elas acreditam é uma forma de governar sem jamais parecer que se está governando. Toda sociedade que depende do espetáculo precisa produzir seus monstros.
No fim, Wicked não é apenas uma história sobre injustiça. É uma história sobre consentimento, sobre como sistemas persistem não apenas pela força, mas pela aceitação passiva daqueles que poderiam questioná-los. O pão e o circo nunca desaparece. Eles apenas mudaram de forma e se atualizam com a modernidade. Hoje, o pão é a promessa de estabilidade e o circo é o fluxo interminável de distração disseminado na mídia e nas redes. E o público, assim como em Oz, permanece olhando para a superfície brilhante, enquanto as engrenagens operam silenciosamente atrás da cortina.
A pergunta que Wicked deixa não é sobre Elphaba. É sobre nós. Se estivéssemos em Oz, teríamos visto a verdade, ou teríamos permanecido, como eles, aplaudindo?
Revisado por Ana Carolina Narios Clauss
