O fim do mundo. Pt. 2
Lembra de quando eu te contei sobre o fim do mundo? Então, talvez seja hora de nós falarmos sobre ele de novo...

(Música para leitura:
“The Place Where He Inserted The Blade”
– Black Country, New Road)
Lembra de quando eu te contei sobre o fim do mundo? Então, talvez seja hora de nós falarmos sobre ele de novo. O assunto é espinhoso, eu sei. Ninguém gosta muito de falar sobre o fim das coisas, mas é o único jeito que temos para lidar com tudo. Afinal de contas, nunca é quando queremos, mas sempre é quando precisamos. Então, vejamos esse tal fim do mundo. Parte 2.
Para começar, isso não é o tipo de coisa que se espera ter uma sequência. Por natureza, quando acaba, não costuma dar uma de zumbi e voltar a ser confortável, a gente segue em frente. A questão é que nós temos muitos mundos, muitas coisas que, para nós, sempre foram (e sempre serão) para sempre. Até que não são mais. Mas sim, nós já falamos sobre o fim dos nossos mundos, mas desde então eu fiquei me perguntando: por que eles acabam?
As razões são muitas: às vezes no nosso controle, às vezes não. Às vezes gostamos, às vezes não. Às vezes achamos que precisamos, às vezes não. De um jeito ou de outro, tudo muda. Poderia subir em meu cavalo branco da moralidade e dizer que tudo passa, temos que viver apesar da mudança. Esse é um tema bem recorrente em meus textos, o que te leva a pensar que eu sou uma pessoa muito bem resolvida com as idas e vindas do mundo (risos). Mas hoje, sinceramente, eu não estou tanto assim, porque hoje dói. Não que das outras vezes não tenha sido um incômodo, mas nunca doeu assim antes.
Eu me lembro da primeira vez que pensei sobre a morte. Eu já era meio grande até, devia ter uns 10 ou 11 anos, mais ou menos. Eu já sabia da morte, claro, (inclusive, ela já havia dado algumas passadas em minha vida), mas eu nunca, de fato, entendi a morte. Eu estava vendo um vídeo sobre a morte do universo, sobre quando tudo acabar em silêncio, no fim do tempo. Isso mexeu comigo e, desde então, tenho desesperadamente procurado saber tudo de mais interessante sobre a vida, até porque, depois dessa, não é possível que ela não seja repleta de prazeres, e eu não me aguentaria se não encontrasse todos eles. Só sei que, desde então, fiquei obcecado por finais e sua natureza.
Particularmente, me incomoda como tudo é incerto. Ou melhor, como não posso controlar tudo. Eu sei que é uma tendência um tanto quanto ruim de se ter, mas, desde que me conheço por gente, sempre quis ter previsibilidade, e ter as coisas sob seu controle é a melhor forma, sem dúvida. Contudo, por mais psicopata que eu pareça ao me descrever, calma, calma, eu juro que tento me controlar (entendeu?). Acho que deve fazer até mal à saúde, esse estresse todo, essa loucura por controle e por tentar preservar ao máximo o status quo. Tenho fama de ser o arquivista designado da minha família: sou eu quem guarda todos os artefatos, fotos, memórias, e mais tudo que alguém gostaria de manter para posteridade. Eu até gosto, sabe?
Eu sempre me vi como um grande guardião de memórias também, aquele que guarda as histórias de todos, mas sinto que ultimamente não têm me deixado performar o meu papel. Mas sabe o que é? É que memória é uma coisa delicada, nem todos querem mantê-la para sempre. Alguns preferem que ela caia no esquecimento. Como ainda não inventaram um neuralizador dos Homens de Preto, a gente segue em frente, mas às vezes, acaba queimando um pouco do passado para seguir vivendo o presente. Todos têm seus motivos, não julgo os outros e, às vezes, deixar o passado ir é exatamente o segredo para se viver uma vida mais completa daqui para frente. Mas não para mim.
Como eu? Logo eu, que guardo tudo? Logo eu, que sou o arquivista? Vocês querem me fazer esquecer? Não podem. Não devem... Às vezes, as coisas saem do controle. Eu também não posso tomar todas as decisões, afinal de contas, eu só anoto. Para a posteridade.
Mas afinal de contas, por quê o mundo acaba? As razões continuam sendo diversas. Mas talvez aquela que mais preenche um pouco de cada uma das razões seja... nós mesmos. Pode ser insatisfatória, ou muito simplória, mas eu não acho. Somos nossos melhores amigos e piores inimigos embrulhados para viagem em um ser só. Somos capazes de muita coisa, inclusive de mudar nossas vidas. Você nunca vai entender completamente por que o outro mudou, e ele nunca vai conseguir te entender. Mas nesse espaço criado pela nossa confusão, cria-se a oportunidade para acolher.
Acolher porque, apesar de tudo, estamos tentando viver. Apesar de tudo, temos de viver. Lágrimas irão rolar, nunca iremos nos entender, mas é aí que podemos, ao mínimo, enxergar que somos todos um pouco cegos. O nosso único alento é o luto, mas que até ele, por mais que não pareça, um dia, acaba.
E veja só, no final eu (incrivelmente) saio rindo. Afinal, sou eu o arquivista. Todas as memórias estão seguras bem aqui. Como um portal secreto para todos os meus fins de mundo.
No final, nada disso passará em vão. Porque essa fase da sua vida vai acabar…
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Imagem da capa: Acervo pessoal
Revisado por Ana Carolina Narios Clauss e Pedro Anelli Bastos
