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Relato Pessoal

O louco e a suicida

Pelo título do poema  Você talvez pense ser uma história de amor  Quem sabe um amor trágico  À la Romeu e Julieta?  De fato, tem amor nessa história  E há quem considere trágica  Ao menos eu acho  ...

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Espaço Aberto

5 min de leitura

19 de outubro de 2025

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Pelo título do poema 


Você talvez pense ser uma história de amor 


Quem sabe um amor trágico 


À la Romeu e Julieta? 


De fato, tem amor nessa história 


E há quem considere trágica 


Ao menos eu acho 


Não que importe 


Talvez eu devesse ter planejado melhor 


Prototipado o enredo 


Mas assim não tem graça 


Prefiro o traçado natural das lágrimas 


Devo falar sobre os personagens dessa história 


Começando com a suicida 


Única e exclusivamente 


Porque é a ordem contrária ao título 


É estranho introduzir alguém como suicida


Logo no começo, tudo que se sabe é o final 


Mas nesse caso faz sentido 


Por mais que seja contraintuitivo 


Ninguém sabe como ela surgiu 


Tampouco de onde ou quando ela veio 


Ela mesma não se preocupa com isso 


O passado já foi 


Preocupa-se, entretanto, com o futuro do pretérito 


Tudo aquilo que poderia ter sido 


Bem sucedida, acompanhada por alguém que a ame 


Organizada, feliz 


Alguns ela os foi 


Hoje em dia já não é 


Ela poderia ter feito tanta coisa diferente 


Quem sabe não estaria aqui hoje 


Introduzindo agora o louco 


Só porque quebra a linha de raciocínio 


E, convenhamos 


Que maneira melhor de apresentar um louco? 


Ele tampouco sabe de onde veio


Embora suspeito que um dia tenha sabido 


Também não sabe aonde vai 


Ou melhor, não se importa


Seus cabelos, não penteia 


Seu apartamento, não arruma 


Suas obrigações, não cumpre 


Sua vida, será que vive? 


Ele não saberia dizer, ou não se importaria 


Pouca diferença faz se é vida o que vive 


Ou se apenas existe em uma não-vida 


Preso em seus pensamentos 


Pensamentos de louco, é claro 


Não conseguiria explicar seu raciocínio nem se quisesse 


Daqui vai para lá, volta e vira para acolá, então some 


Depois aparece simultaneamente em todos os lugares 


Era um belo dia como outro qualquer 


Nenhum dos dois se recorda quando foi 


Nem onde ou como 


Será que isso importa? 


O que se sabe é que se encontraram 


E foi paixão à primeira vista 


Ele pela loucura das ideias dela 


E ela pela não-vida que ele vivia 


Em tudo se entendiam, mesmo sem entender 


Pareciam feitos um para o outro 


Talvez até fossem a mesma pessoa, mas partida ao meio 


Tal qual o Visconde Medardo di Terralba 


Tudo que ela queria era a não-vida 


Mas tinha medo de morrer 


Não do post·mortem 


Mas do processo em si 


Já sentia dor o suficiente, talvez até demais 


Encontrou nele uma alternativa 


Uma não-vida em vida 


A morte sem morrer 


Já ele queria alguém que o aceitasse 


Nem ele era capaz disso 


Encontrou bem mais do que procurava 


Perdeu-se completamente na mente dela


Assim como ele, ela encontrava razão onde não havia


Justificava sua culpa das maneiras mais criativas 


Racionalizava cada ímpeto que sentia 


Por menos sentido que fizesse 


Estava feito então o casal 


Ele perdeu noites de sono declarando-se para ela 


Ela gravou seu nome permanentemente em sua pele 


Uma linda história se escrevia 


Ele, com o azul de uma bela caneta arcaica 


Ela, com o brilhante vermelho de seu sangue 


Afastaram-se de tudo e de todos 


Pois tinham um ao outro, e era o suficiente 


Seu amor foi como uma estrela cadente 


Intenso e forte 


Mas também raro e lindo 


Realizou os desejos de ambos


Ela finalmente deixou de viver 


Ele finalmente finalmente foi aceito por completo 


E, assim como a estrela cadente 


Durou pouco 


Tão intensa e forte foi a ligação entre eles 


Que queimou tudo que havia ao redor 


Entrelaçaram-se, então, sob as chamas 


Cegados pela beleza dessa união 


Terminada a queima de tudo 


Nada restou para contar sua história 


Apenas esse breve relato 


De uma escritora que os observou com seu telescópio


Autoria: Rapha Gravalos


Revisão: Pedro Anelli


Imagem da capa: Pinterest (@soheiil)

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Espaço Aberto

Foi da Gazeta por menos de 1 mês

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