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Cultura

O Papel Indispensável da Música na Reflexão Social e Política do Brasil

A autora análisa a música brasileira como instrumento de resistência contra a censura, destacando a Tropicália e a defesa da democracia.

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Beatriz Apóstolo

10 min de leitura

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24 de outubro de 2026

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Em setembro de 1968, em São Paulo, Caetano Veloso subiu ao palco para cantar É proibido proibir e foi hostilizado por boa parte da plateia. Ele respondeu à vaia com um discurso. Meses depois, estava preso. A cena reúne o que este texto pretende apresentar: a música brasileira historicamente recusou (em grande parte) a passividade diante dos cercamentos à liberdade. Mais do que um produto de entretenimento, a música consolidou-se no país como um documento social e político de primeira grandeza, capaz de registrar as rupturas estruturais da sociedade, denunciar abusos de autoridade e confrontar diretamente os períodos de exceção que marcaram a nossa história republicana. Toda música resulta da cultura em que nasce e carrega consigo a história, os dados sociopolíticos e as escolhas estéticas de seu tempo. Mais do que entretenimento acústico, a música  consolida-se como exercício de consciência crítica. É com esse olhar que se pode percorrer o caminho que a música brasileira trilhou da ditadura aos dias de hoje, e entender por que sua crítica continua necessária.

 

Durante a década de 1960, em meio ao regime autoritário instalado no Brasil pelo golpe de 1964 — período que se estenderia por mais de duas décadas —, emergiu a canção de objetivo reflexivo e contestatório. Diante do governo de exceção, a sociedade reagiu de diversas maneiras, sendo a música de protesto uma das expressões mais marcantes. Entre seus traços mais significativos, sobressaíam os apontamentos crítico-sociais, estético-culturais e político-ideológicos, que funcionavam como resistência civil. Esse cenário musical contribuiu diretamente para a consolidação da atual Música Popular Brasileira (MPB), destacando-se pela ousadia de nascer em um ambiente altamente censurado. É nesse contexto que, em 1967, surge o Tropicalismo. Composto por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Torquato Neto, entre outros, o movimento implodiu as certezas confortáveis tanto do conservadorismo de direita quanto do purismo de uma esquerda tradicional que exigia um nacionalismo musical estrito. A Tropicália realizava uma operação política de altíssimo significado, expondo as contradições estruturais de um Brasil que se modernizava economicamente sobre a base da miséria social e da violência de Estado. 


Lançada por Caetano Veloso em 1967, Alegria, Alegria é o grande manifesto do Tropicalismo que utiliza a técnica da colagem urbana para unir a atmosfera de repressão da Ditadura Militar a ícones da cultura pop e do consumo, como a Coca-Cola e Brigitte Bardot. Versos como "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento" simbolizam uma resistência nômade e despojada que desafiava tanto a violência e o controle estatal quanto o dogmatismo solene da esquerda tradicional da época. Em vez de um protesto panfletário, Caetano propôs o deboche, a ironia e a vivência do presente, mostrando que era possível enfrentar o autoritarismo e a desorientação do mundo moderno com coragem, movimento e cor.


Na faixa Tropicália de 1968, Caetano constrói um painel cortante do país. Ao contrapor o refinamento burguês da Bossa Nova à rusticidade da palhoça, e ao inserir repentinamente a imagem de uma "criança sorridente, feia e morta estende a mão”, o autor desfaz a retórica ufanista do milagre econômico da ditadura. A crítica ao monitoramento estatal é explícita no verso "Senhoras e senhores, ele põe os olhos grandes sobre mim", revelando a sensação constante de vigilância e cerco policial.  Após o AI-5, de dezembro de 1968, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos, e em 1969 ambos partiram para o exílio, o que encerrou o movimento. Mas o Tropicalismo havia deixado sua marca: uma outra forma de relacionar cultura e política, mais livre, mais irônica e menos previsível. 


Quando a censura passou a vetar versos inteiros, os compositores aprenderam a escrever nas entrelinhas, o que se concretizou de forma magistral na música Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Ao apropriar-se do peso dramático da Última Ceia e do clamor de Jesus no Getsêmani (“Pai, afasta de mim esse cálice”), a obra constrói um trocadilho fonético perfeito com o verbo calar. Assim, o refrão ecoou como a voz coletiva de uma nação amordaçada pela violência do Estado e pela ausência de liberdade de expressão.


Com a redemocratização, a Constituição de 1988 reconheceu a liberdade de expressão artística como direito fundamental. O artigo 5º, inciso IX, declara livre a expressão da atividade artística, independentemente de censura ou licença, e o artigo 220 veda toda censura de natureza política, ideológica e artística. Em um país que conheceu o silêncio imposto, esses textos pesam como conquista. A música ganhou a liberdade de cantar sem pedir permissão, e conservou sua função de comunicar, analisar e provocar a reflexão sobre a vida nacional. Em contrapartida, o Brasil atravessa um cenário de acentuada polarização política, intensificada pela ascensão de correntes ultraconservadoras ao poder central e mantida acesa mesmo após a alternância nas urnas. Tal panorama tem fragilizado as instituições democráticas, alimentando um clima de confronto ideológico que normaliza lemas extremistas. Nesse ambiente, as pessoas tendem a se cercar de conteúdos que reforçam suas próprias crenças, em vez de se abrir para outras perspectivas. Ademais, episódios lamentáveis, como os clamores de seus simpatizantes por intervenção militar, assim como pela volta do AI-5, entre outras manifestações inadmissíveis, culminaram com a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, o que revela a desconexão de discursos com a realidade político-constitucional brasileira. Tal panorama de fragmentação institucional e a naturalização de discursos golpistas evidenciam uma crise na esfera pública brasileira, marcada pelo fechamento dogmático e pela recusa ao debate democrático. É nesse contexto de cerco ideológico que a música cumpre a sua função. Ao registrar os conflitos do tempo presente, ela expõe as contradições do debate público e fixa na memória coletiva os fatos políticos que marcam o Estado brasileiro. 


Quando a política institucional se converte em arbítrio e violência, cabe à música ocupar o espaço público como arquivo insubstituível da memória coletiva. A arte exerce uma função política e social porque atua diretamente como um registro crítico da realidade e um instrumento de emancipação coletiva. Diferente dos documentos burocráticos ou dos discursos oficiais, que frequentemente servem para legitimar o poder vigente, a produção cultural dá visibilidade às rupturas sociais, denuncia abusos de autoridade e expõe as contradições econômicas e estruturais de um país. Ao vocalizar o descontentamento popular e preservar a memória histórica das lutas sociais, a arte impede o apagamento dos fatos, estimula o pensamento crítico na população e fomenta a organização de frentes amplas em defesa da democracia, consolidando-se como fundamental para a construção da cidadania e da justiça social. A arte não substitui a ação política, mas a antecede e a fundamenta, fornecendo as palavras e os sentimentos de que a sociedade precisa para enxergar a si mesma. Em um cenário de divisões sociais e ameaças institucionais, a música cumpre o papel insubstituível de lembrar fatos. Garantir que os artistas continuem tendo voz e autonomia é proteger a própria base da convivência democrática, pois um país que canta seus problemas é um país que recusa a submissão e constrói o seu próprio futuro.


Proteger a liberdade de criação e valorizar a canção que reflete sobre o país é proteger a própria democracia. No dizer de Ferreira Gullar, "a arte existe porque a vida não basta". E é justamente nesse excesso, que a vida sozinha não comporta, que o Brasil aprendeu a se reconhecer.


Autoria: Beatriz Apóstolo Della Nina


Revisão:  Anna Eduarda e Maria Clara


Foto de capa:  Pinterest 




REFERÊNCIAS:

AVELINO, Caroline do Nascimento. A importância das músicas de protesto no contexto da ditadura civil-militar no Brasil. Das Amazônias/revista Discente de História da UFac, Rio Branco - Acre, v. 1, n. 1, p. 28-39, ago./dez. 2018.

SOUZA, Fernanda Duarte de; RIOS, Riverson. A política através da música: um estudo de caso sobre a Tropicália na década de 1960. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO NORDESTE, 25., 2025, Fortaleza. Anais eletrônicos... Fortaleza: Intercom, 2025.

MARQUES, Renê Iarley da Rocha. O necessário papel da música na reflexão social e política do país. Observatório da Imprensa, 21 mar. 2025. Cultura. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/cultura/o-necessario-papel-da-musica-na-reflexao-social-e-politica-do-pais/. Acesso em: 11 out. 2026. 

SILVA, Daniel Neves. A ditadura militar no Brasil através da música popular. Mundo Educação, Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/a-ditadura-militar-no-brasil-atraves-musica-popular-.htm. Acesso em: 10 out. 2026.

COSTA, João Antônio Inácio da. A resistência na/da música no período da ditadura civil militar. 2019. 25 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Segunda Licenciatura em Pedagogia) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano, Campus Avançado Ipameri, Ipameri, 2019.

Revisado por Anna Eduarda

Escrito por

Beatriz Apóstolo

Há 1 mês na Gazeta

Redatora

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