A Maior Noite do Cinema: Conheça os Indicados a Melhor Filme no Oscar 2026
A equipe da Gazeta Vargas e o ex-membro Rauhã Capitão apresentam e analisam os filmes indicados a Melhor Filme na premiação do Oscar
55 min de leitura
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15 de março de 2026

Na noite deste domingo (15), o mundo conhecerá os novos filmes vencedores do Oscar. Transmitida pela Globo, HBO Max e TNT no Brasil, a 98ª Cerimônia da Academia se inicia às 21h no horário de Brasília. A premiação chega para dar fim à ansiedade de milhões de brasileiros com um segundo ano histórico para o cinema nacional, que conquistou 4 indicações com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Entre elas, figura a indicação a Melhor Filme, feito inédito para o cinema brasileiro até o ano passado, quando Ainda Estou Aqui foi indicado à estatueta dourada. Para você conhecer melhor os nomeados a esta categoria em 2026, a equipe da Gazeta Vargas reuniu uma série de resenhas dos 10 indicados a Melhor Filme.
Para qual fica sua torcida? Nossa equipe, em votações acirradas, apostou na vitória do maior indicado da noite, Pecadores, de Ryan Coogler. Ainda assim, para nossos membros, o verdadeiro vencedor deveria ser o longa nórdico Valor Sentimental, de Joachim Trier.
Paranóia ou profecia? O colapso humano em Bugonia
Por Sarah Barros
Bugonia (2025), filme que promete ser o projeto de Emma Stone rumo ao Oscar nesta temporada, gira em torno dos primos Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), que resolvem sequestrar a bilionária Michelle (Emma), movidos pela crença de que a CEO de uma farmacêutica integra uma raça alienígena infiltrada na Terra. A premissa, à primeira vista absurda, é apresentada com a seriedade típica de Yorgos Lanthimos: o que começa como delírio conspiratório logo ganha contornos ambíguos, deixando o telespectador constantemente dividido entre ironia e possibilidade.
Teddy e Don, ambos tendo a apicultura como hobby, estão devastados pelo cenário de colapso ecológico que testemunham diariamente. O desaparecimento progressivo das abelhas, elemento que carrega forte simbolismo ambiental e econômico, é, para eles, a prova concreta de que algo está profundamente errado com o mundo contemporâneo. Para eles, a empresa de Michelle é a principal responsável pela diminuição progressiva da espécie e, por consequência, pelo desequilíbrio ecológico. No entanto, a motivação de Teddy é ainda mais íntima: a farmacêutica também teria sido responsável pelos danos colaterais irreversíveis sofridos por Sandy, mãe dele, após o uso de medicamentos experimentais. O trauma pessoal se mistura ao pânico, criando um protagonista cuja dor real alimenta uma teoria aparentemente delirante. O sequestro, portanto, mistura camadas de delírio conspiratório, luto e desejo de vingança.
Para quem não conhecia Save the Green Planet! (2003), versão original sul-coreana que inspira a narrativa, ou não tinha familiaridade com as excentricidades de Lanthimos, a leitura inicial parece simples: os primos seriam uma crítica ao negacionismo e à radicalização alimentada pela desinformação. E essa interpretação faz sentido, mas apenas até certo ponto. Embora Teddy e Don representem uma parcela da população marginalizada e suscetível às fake news no mundo globalizado, à medida que a narrativa avança, a certeza começa a se desfazer. O roteiro evita a caricatura fácil. Em Lanthimos, nada é inteiramente absurdo nem totalmente plausível, tudo habita essa zona desconfortável entre os dois extremos.
Bugonia é repleto de elementos do suspense paranoico: teorias da conspiração, desconfiança institucional, sensação constante de ameaça. A fotografia e a trilha sonora minimalista intensificam essa atmosfera, reforçando o desconforto que atravessa toda a obra. É um prato cheio para fãs do gênero, mas também acessível para quem entra em contato com esse estilo pela primeira vez. As atuações de Jesse Plemons, Aidan Delbis e, sobretudo, Emma Stone, em sua quarta colaboração consecutiva com o diretor, sustentam o tom ambíguo da obra e dão densidade ao universo ao mesmo tempo cômico e inquietante criado por Lanthimos.
O diretor desafia deliberadamente os limites do espectador com cenas propositalmente desconfortáveis, explorando violência, humilhação e dinâmica de poder. A construção psicológica entre Michelle e Teddy é perturbadora de assistir, mas magnética. Apesar dos privilégios evidentes de Michelle e da possível responsabilidade de sua empresa no caso de Sandy, é difícil não desejar que as violências cometidas por Teddy cessem. Afinal, tudo não passa de loucura… certo? Uma raça extraterrestre manipulando a destruição da Terra para extinguir a humanidade soa como o ápice do delírio – ou talvez não completamente.
No desfecho, descobre-se que Michelle era, de fato, representante dos Andromedanos na Terra. Mas, ao contrário do que se pensava, os extraterrestres não eram os antagonistas, mas sim talvez os mocinhos, que acompanharam a raça humana durante praticamente toda a sua existência, esperando de nós uma capacidade de progresso que não fosse mais nociva ao planeta e suas demais espécies. Obviamente, falhamos. Assim, após ser brutalmente atacada, Michelle fundamenta a decisão de extinguir a raça humana alegando sua incapacidade estrutural de desenvolvimento. A montagem final rompe com o tom irônico que permeava o filme até então: desaparecem os figurinos espalhafatosos e o humor absurdo, dando lugar a imagens de devastação total. Corpos espalhados em diferentes cenários e cidades silenciosas compõem uma sequência visualmente impactante, marcada por um silêncio que amplifica o peso da decisão extraterrestre.
Para mim, essa sequência é o ápice da mensagem ambientalista de Lanthimos. Ela desloca o espectador do riso para o desconforto reflexivo, sugerindo que o cenário apresentado talvez não seja tão fantasioso quanto parece. O detalhe mais significativo está nas outras espécies que surgem vivas após o fim da humanidade. Animais ocupam espaços antes dominados por pessoas e a natureza parece lentamente retomar o controle. É uma demonstração sutil de que, embora talvez seja tarde demais para nós, pode não ser tarde demais para a Terra. Algumas espécies sobreviverão, outras surgirão e se adaptarão às novas condições e os ciclos biogeoquímicos continuarão, indiferentes à ausência humana. A única diferença é que o planeta estará livre de seu predador mais ingrato, e essa constatação, infinitamente mais do que a invasão alienígena, é o elemento verdadeiramente perturbador do filme.
Valor Sentimental
Por Pedro Anelli
Embora eu seja do tipo de pessoa que facilmente se emociona com qualquer tipo de obra artística (em especial filmes), essas emoções raramente se expressam fora do âmbito interno. No máximo, às vezes viram um projeto de texto. Porém, o que marcou minha experiência com “Valor Sentimental” foi que essa foi uma das raras vezes em que não consegui segurar as emoções. Não tenho vergonha, admito: saí da sala de cinema chorando assim como quando vim ao mundo – e a metáfora não é exagero.
O filme norueguês acompanha Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga IIbsdotter Lilleaas), duas irmãs criadas pela mãe em uma casa em Oslo, propriedade da família há gerações. Com o falecimento da mãe, seu pai, o renomado cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgård), retorna para a vida das filhas após abandoná-las em troca da vida boêmia e artística. A volta não é sem propósito: Após 15 anos sem produzir nada novo, Borg escreve um novo roteiro e vai atrás de Nora para interpretar o papel principal. Com a recusa da filha, o diretor então chama a grande estrela de Hollywood Rachel Kemp (Elle Fanning) para estrelar o projeto.
Partindo dessa premissa, o longa explora as diversas nuances psicológicas das personagens de forma maestral. Narrativamente, o roteiro de Eskil Vogt adota uma perspectiva character driven, isto é, o mundo exterior não apenas existe, mas reage às atitudes e escolhas da psique da personagem. Entretanto, o que torna esse quesito tão especial aqui é que o tal “mundo exterior” não se trata do mundo físico, mas sim da psique dos demais personagens. Assim, cada um molda a si e aos outros ao mesmo tempo, formando uma enorme teia dramática que envolve todos os personagens, forçando-os a enfrentar fantasmas internos a fim de seguir em frente (ou ao menos tentar).
Somado a isso, a direção criativa de Joachim Trier complementa esse clima com todas as suas metáforas e simbolismos. Todo ato, toda fala, todo cenário, qualquer coisa que aparece em tela está lá por um motivo bem específico. Nada é por acaso, tudo tem uma razão de ser. Desde a metalinguagem de mostrar “um filme dentro do filme” com a nova produção de Borg, que serve como ponto de ignição para o conflito, à casa da família, que serve como fio condutor da dinâmica central, o filme é recheado dessas leituras entrelinhas, que dão toda a profundidade possível.
“Valor Sentimental” é, de fato – e com o perdão da palavra –, sentimental. Isto porque toca no ponto exato da ferida que existe em cada um de nós. Iniciei o texto dizendo que saí da sala de cinema chorando assim como fiz quando primeiro cheguei ao mundo, pois afirmo que assistir ao filme foi, de fato, um renascimento. A cada segundo que se passava, um novo fantasma reaparecia, e a cada sentimento, uma nova lágrima. Não digo que é um filme triste. Longe disso: é um filme real, em que cada emoção expressada por um personagem já foi vivida pelo espectador em algum momento. É um filme que emociona por mostrar o que se é, e é justamente por isso que é tão bom, tão sublime, tão sentimental.
Uma Batalha Após a Outra
Por Rauhã Capitão
Possuo uma relação um tanto quanto complexa com Uma Batalha Após a Outra, filme dirigido por Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Licorice Pizza) e o maior favorito à conquista do Oscar de Melhor Filme (e seu diretor, igualmente, dificilmente não será premiado). Digo isso porque o filme provocou - e ainda provoca - sentimentos muito mistos em mim. Ao mesmo tempo que gosto, também o acho insuportável. Explico adiante.
Na trama, após um militar reaparecer depois de 16 anos, um grupo de ex-revolucionários se reúne para resgatar a filha de um de seus companheiros. Logo de cara, ao se ler a sinopse, o detalhe que chama atenção é o enfoque em personagens que possuem uma perspectiva revolucionária. Contudo, estes não são tratados como, por exemplo, “Judas e o Messias Negro” tratou Fred Hampton. Pelo contrário: PTA cria uma narrativa em que expõe quase que uma guerra civil entre a extrema esquerda (os ditos revolucionários) e a extrema direita, para, ao fim, tratar-se como alguém que se acha inteligentão por dizer que “ambos estão errados” e o correto é ser “neutro”. Matheus Fiore, um crítico que costumo ler, definiu este filme como “o extremo centro”. Eu não poderia concordar mais. A questão, entretanto, consiste em responder se isso é algo ruim. Bom, eu opino que sim, é. Por mais que haja muitos personagens no longa, são quatro que realmente merecem destaque: Perfidia (Teyana Taylor), Bob (Leonardo DiCaprio), Willa (Chase Infiniti) e o militar Lockjaw (Sean Penn). Esses quatro personagens são aquilo que carregam a suposta neutralidade que PTA deseja contar em sua história. Para tal, cada um possui uma personalidade específica que servirá de sátira do que, supostamente, ocorre na vida real. Perfídia é uma mulher negra que foi, na narrativa do filme, a maior símbolo da luta revolucionária. Até que, um dia, traiu seus companheiros e abandonou todos, inclusive sua filha. Perfídia é retratada como uma mulher egocêntrica, arrogante e violenta. Uma mulher que luta não por mudanças, mas por alimentar o próprio ego.
Bob é um homem que, um dia, lutou por algo. Mas passa a maior parte do tempo usando drogas, sendo paranoico, sentado em seu sofá, sem nem mesmo tomar um banho. Numa definição enxuta e de senso comum, seria o que a população chamaria de típico “vagabundo”. Um homem que fala e fala, porém quase nunca toma atitude. E, quando enfim toma uma atitude, ele falha. Willa, talvez a única com quem há algum mínimo carinho e honestidade em sua escrita, é uma jovem corajosa e forte, com diversos ideais… porém retratada como ingênua e inexperiente. Por fim, o militar Lockjaw. Um homem de extrema direita supremacista branco (que possui fetiche em mulheres negras) e responsável por mover todo o filme em um jogo de gato e rato. Se, por um lado, o longa jamais cai em uma falsa moralidade de comparar Lockjaw aos demais, isto é, sempre reconhecendo que ele é uma pessoa essencialmente cruel, por outro, é curioso como ele acaba sendo, dentre os quatro citados, aquele que é menos caricato e possui mais personalidade. O espectador, ao mesmo tempo que acha Lockjaw um homem patético, também o teme. A resposta do porquê isso ocorre é, na verdade, até simples: a base de escrita de Lockjaw está muito mais ancorada em uma realidade concreta do que a realidade dos personagens revolucionários, que apelam para estereótipos comuns em espantalhos. Enquanto Bob e Perfídia são composições satíricas que servem a uma tese – a de que a radicalização de esquerda é infantil, narcísica ou vazia – Lockjaw parece derivar de algo estrutural. Ele é o braço armado de uma ideologia que, gostemos ou não, possui lastro histórico, base social e organização concreta. E, nesse sentido, se o objetivo de PTA fosse realmente nivelar os dois polos como igualmente caricatos, teria sido mais coerente tornar Lockjaw tão patético quanto Bob. Mas não é isso que acontece. Lockjaw é brutal, frio, metódico. Ele pode até ser ridicularizado em pequenos gestos, mas nunca perde a aura de perigo. Já os revolucionários perdem, reiteradamente, qualquer traço de grandeza trágica. São constantemente diminuídos pela montagem, pelo texto, pela direção, etc.
Nesse ponto, reside meu primeiro grande incômodo. Ainda que eu discorde que a radicalização da esquerda e da direita sejam completamente antônimas, se o filme enxerga-as como similares, no mínimo, poderiam ser retratadas de maneira mais próxima. Ocorre que não apenas não são, como o longa reconhece que existe um lado pior. Porém o outro lado seria ruim também porque…sim? Porque são egoístas, paranoicos, ingênuos ou usuários de drogas que não trabalham? Porque o radicalismo de esquerda é uma eterna adolescência? Ou seja, é um discurso que, além de contraditório, ignora a realidade material que compõe a esquerda radical. O filme sugere que ambos os extremos estão errados, mas constrói apenas um deles como produto de forças históricas reais. Lockjaw não surge do nada: ele é fruto de uma tradição supremacista, de um aparato estatal, de uma cultura armamentista.
Já os revolucionários parecem existir num vácuo social. Não há desemprego estrutural, não há crise habitacional, não há brutalidade policial que os motive. Há apenas frustração difusa e ego inflamado. Essa assimetria gera um efeito curioso: a direita radical é perigosa porque é estrutural; a esquerda radical é risível porque é imatura. E, nesse arranjo, o centro emerge como o único espaço de racionalidade possível.
No fim do dia, PTA faz uma sátira supostamente analítica rasa. Critica discursos, posturas e comportamentos, mas jamais vai a fundo nas origens das tensões que circundam a sociedade. O conflito deixa de ser sobre classe, trabalho, propriedade ou exploração e passa a ser sobre comportamento, etiqueta, bom senso. Trata-se de um filme que quer criticar a radicalização sem sequer se esforçar para entender o que é e o que gera a radicalização. Exposto tudo isto, prossigo, então, ao meu segundo incômodo com este filme. Afinal, se a extrema direita é cruel, mas a extrema esquerda é patética e vive em um buraco social, só há um caminho possível: a neutralidade. Isso porque, se ambos os lados são tão ruins assim, só resta ao espectador se identificar com quem deseja apenas estabilidade. A crítica estrutural desaparece; o sistema permanece como pano de fundo neutro, quase naturalizado. E, assim, talvez de forma não intencional, o filme assume uma identidade conservadora e neoliberal muito longe da suposta neutralidade que acredita ter. Todo o conflito político existente acontece apenas porque existem pessoas malvadas e pessoas patéticas. Logo, se o espectador não é alguém malvado ou patético, ele deve criticar ambos os lados por suas atitudes pessoais ruins - e, assim, deixando o mercado, as desigualdades sociais, a história, a violência institucional, a elite possuidora do capital, dentre inúmeras outras coisas completamente isentas de atenção. Pois, em última análise, o problema não é o sistema em que estamos inseridos, mas sim essa meia dúzia de gato pingado que faz merda por aí.
Bom, faz sentido todo esse sucesso com a crítica e indústria de cinema estadunidense.
Com esses meus dois grandíssimos incômodos em mente, verdade seja dita: Uma Batalha Após a Outra, quando analisado como um filme de ação, é inegável sua qualidade. A cena de perseguição ao fim do longa envolvendo carros é fantástica e demonstra, com proeza, como PTA sabe fazer grandes cenas. Não apenas isso, como ressalte-se as atuações espetaculares de um elenco estrelar, a edição incrível que permite ao filme, de quase três horas, passar voando ou mesmo a capacidade do longa de manter o espectador ficando na ponta da cadeira com tanta tensão.
Uma Batalha Após a Outra, apesar de ser insuportável politicamente, é um filme muito divertido. Ao longo de toda a sua duração, em momento algum minha imersão foi perdida.
Esta é a razão por trás de minha relação complexa e paradoxal com o provável vencedor do Oscar de Melhor Filme. Ao mesmo tempo que me incomoda profundamente seu discurso político raso, contraditório e até mesmo burro, a ponto de me estressar, não há como esquecer como foi divertido para mim acompanhar os 162 minutos deste filme, tampouco há como não reconhecer todos os aspectos técnicos excelentes que tornam-o, acredito eu, um longa que entrará para a história e que ainda será muito discutido.
O Agente Secreto
Por Guilherme Sanches
O filme O Agente Secreto dirigido por Kléber Mendonça Filho concorre a quatro categorias no Oscar que ocorre sábado dia 15. As expectativas do público brasileiro estão altas para a premiação mais importante do cinema já que o filme fez por merecer: o longa venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Internacional e na categoria de Melhor Ator de Filme de Drama com Wagner Moura.
O Agente Secreto se passa no Brasil de 1977, um país que vivia sob o regime militar em um período em que o presidente Ernesto Geisel iniciava uma abertura política “lenta, gradual e segura”. Apesar desse processo de abertura, ainda havia casos de tortura e perseguição do regime contra opositores. Nesse cenário, o filme se desenrola sob a perspectiva do protagonista Marcelo (Wagner Moura), professor universitário na área de tecnologia, que se muda para o Recife a fim de fugir das perseguições que sofria em São Paulo. Tais perseguições eram produto de uma confusão entre Marcelo e um senhor ligado ao regime, que era responsável por repassar verba à universidade. A partir dessa briga aparentemente boba, Marcelo passa a ser perseguido e se vê obrigado a fugir de São Paulo. Contudo, toda essa dinâmica que explica o porquê de Marcelo estar em Pernambuco só fica explícita no meio do segundo ato.
Durante o primeiro ato do longa, a sensação de tensão paira sobre todas as cenas. Com apoio da trilha sonora, todos os personagens parecem estar em alerta, com medo e desmotivados. Logo na primeira cena fica evidente a banalização da violência e a corrupção arraigada no regime militar brasileiro: Marcelo vai abastecer seu fusca em um posto na zona rural e se depara com um cadáver coberto por um papelão. Assustado, o protagonista questiona o frentista, que o acalma de modo a deixar subentendido que aquela situação era corriqueira. Enquanto abastecia, chegam dois policiais que, ao invés de se preocupar com o morto, tentam achar irregularidades no carro de Marcelo para conseguir alguma propina. Em uma pequena cena, Kleber consegue resumir a cultura de corrupção arraigada na sociedade brasileira, mesmo em pequenas atitudes como uma abordagem policial. Da República Velha, à Nova República, todo brasileiro se reconheceria um pouco nessa cena, seja como vítima ou como autor dessa cultura de corrupção arraigada nas organizações do Estado brasileiro.
Com o desenrolar do segundo ato, a situação de Marcelo passa a ficar mais clara ao telespectador: ele morava em um prédio com outros fugidos do regime militar que eram amparados, principalmente, por uma senhora chamada Dona Sebastiana (Tânia Maria), mesmo que Marcelo não fosse exatamente um revolucionário socialista. Todos os moradores não conseguem esquecer e esconder o desconforto individual de viver fugindo da perseguição do Estado.
Nesse mesmo ato também somos apresentados ao filho de Marcelo que morava com os avós no Recife, porque a mulher do personagem principal havia falecido e ele pretendia proteger o filho das perseguições que o afligiam.
Entre os atos do filme, ocorrem cenas que se passam na contemporaneidade entre, aparentemente, duas pesquisadoras que ouvem fitas com a voz de Marcelo, gravadas por outros membros da resistência à Ditadura Militar. As primeiras aparições dessas duas mulheres parecem destoar do ambiente da década de 1970 vivido pelos personagens de forma a provocar uma certa incompreensão do espectador sobre o que se trata.
Depois que o filme apresenta a razão para a perseguição de Marcelo, o longa parece assumir um caráter de ação em que os assassinos partem na tentativa de planejar o assassinato do personagem de Wagner Moura. As cenas desse momento despertam animação e curiosidade no espectador de como será essa ação. Com uma essência de humor e cultura brasileira, esse parece ser um dos momentos mais empolgantes e divertidos da trama. Porém, tal animação e curiosidade parece se perder visto que ocorre uma tentativa de assasinato relativamente banal e culmina em uma perseguição ao assassino de aluguel. De maneira repentina o filme retorna aos dias atuais em que o ciclo do personagem Marcelo tem seu desfecho apresentado. Imagino que a maioria daqueles que assistiram ao filme concordarão que o final do personagem Marcelo parece um grande anti-clímax em comparação ao fim agitado do segundo ato em que os assassinos chegaram a Recife — mas não discutirei mais profundamente para evitar spoilers.
Após o fim da sessão, meu balanço do filme terminou sendo positivo. Me impressionou a imersão que Kléber Mendonça Filho nos proporcionou no Recife de 1977 tanto com o cenário, quanto com os personagens que retratam perfeitamente a cultura pernambucana e a essência daquilo que é ser brasileiro. As diferentes sensações que os atos da obra nos proporcionam também foram bem vistas por mim, ficou evidente como o diretor conseguiu fazer com que o longa assumisse diferentes faces ao longo das mais de duas horas e meia de filme. Já as cenas finais que revelam o destino de Marcelo me pareceram um pouco arrastadas e desanimadoras uma vez que, como já citei, o filme parecia que culminaria em um cenário de ação super eletrizante — o que foi parcialmente atingido.
Àqueles que não assistiram ao filme, eu recomendo fortemente que o assistam, ele já está disponível na Netflix. Fico na torcida para que ele saia com uma estatueta na noite do Oscar!
Sonhos de Trem: ecos de uma vida comum
Por Julia Santos
Um homem comum, Robert Granier não sabe o dia do seu nascimento, nem como perdeu os pais. Já adulto, casado e pai de uma menina, ele trabalha como lenhador na construção de ferrovias. Mal conhece seus colegas de trabalho devido ao caráter itinerante do ofício. No dia a dia, o silêncio carrega o pesar de vidas não vividas: a existência daqueles homens é solitária. Ou passavam meses longe de suas famílias, ou simplesmente não tinham ninguém para sentir saudade.
Em um Estados Unidos na iminência do século XX, o progresso tecnológico acompanha a degradação da natureza e, ao mesmo tempo, o declínio de Robert. Uma tragédia assola sua vida e ele se torna distante, focado no trabalho porque, afinal, era tudo o que lhe restava. Ele consegue criar conexões com certos colegas, que compartilham fragmentos de suas histórias para depois, inevitavelmente, serem consumidos pela passagem do tempo. No fundo, Robert está só.
Sua conexão mais intensa e duradoura é com a natureza. Esta, apesar de aparentemente cada vez mais obsoleta conforme os anos passam e os trens deixam seu rastro de fumaça, é onde as memórias da sua vida ecoam. Nelas, Robert encontra conforto e tormento.
Para que tal relação fosse estabelecida, a direção de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso teve papel essencial. Executada com maestria, ouso dizer que sem ela o filme não seria um dos indicados a Melhor Filme no Oscar 2026. Averso à iluminação artificial, Veloso privilegia “luzes de transição”, como o amanhecer e o crepúsculo. Segundo ele, são momentos em que “a paisagem respira entre dois estados”.
Paralelamente, enquanto o passado de Robert era colorido pela “hora mágica” nos primeiros instantes do nascer do sol, o presente, ainda que visualmente estonteante, não chega a ter tons tão profundos. A sensibilidade, no momento presente, é eclipsada por um sentimento de vazio. Mas, em Sonhos de Trem, o silêncio comunica: ele não é ausência, e sim matéria — um espaço onde o luto ganha forma, onde a falta pesa mais do que qualquer diálogo, e onde o espectador é convidado a ouvir o que Robert não consegue dizer. Entre o apito do trem e o farfalhar das árvores, entre a fumaça que risca o céu e a luz que insiste em tocar a floresta, o filme revela que o progresso não apaga o passado; apenas o empurra para dentro, para esse lugar íntimo em que memória e natureza se confundem.
Pecadores: o que a obra representa no Oscar?
Por Vicky Auricchio
ㅤㅤㅤㅤO fato de Sinners (Pecadores, em português) ter recebido 16 indicações ao Oscar – tornando-se o filme com o maior número de nomeações, superando as 14 de A Malvada (1950), Titanic (1997) e La La Land (2017) – é um feito incomum para um filme de terror, em especial com temática racial e ambientação histórica. E, obviamente, o volume de nomeações e seu sucesso de bilheteria não eliminam algumas de suas fragilidades estruturais. Dirigido por Ryan Coogler (Pantera Negra, Judas e o Messias Negro, Creed) e estrelado por Michael B. Jordan, o longa inicia como um drama histórico consistente, ambientado em 1932 no Mississippi sob a vigência das leis Jim Crow. O retrato inicial mostra a comunidade negra submetida a mecanismos econômicos de exploração e à violência estrutural do racismo institucionalizado, e busca evidenciar mecanismos de exploração (como o pagamento por vales) e evocar referências culturais como a mitologia do blues e a lenda de Robert Johnson, estabelecendo um eixo narrativo promissor que é completamente quebrado à medida que o elemento vampírico assume protagonismo e redefine o tom do filme.
ㅤㅤㅤㅤA partir da segunda metade, o que se constrói é, à primeira visão, menos uma alegoria histórica e mais um thriller sobrenatural de lógica próxima ao cinema de ação contemporâneo. Assistindo pela primeira vez, tive a interpretação de que essa transição não é apenas de gênero, mas de prioridade temática, já que o conflito racial, que poderia sustentar a dimensão simbólica do horror, torna-se pano de fundo após a mudança narrativa e reaparece apenas na última cena, com a vingança contra a Ku Klux Klan. O espectador é tomado de surpresa, e ouso dizer que a mudança brusca chega a ofuscar a profundidade da primeira parte do filme. O resultado é uma obra que parece dividir-se entre duas ambições: ser um comentário social robusto e ser um espetáculo de entretenimento de grande escala. Ao não se aprofundar plenamente em nenhuma das camadas, tive a impressão que o filme transmite a sensação de premissas parcialmente abandonadas e até mesmo afasta a comparação com narrativas híbridas também com propostas ousadas, como Um Drink no Inferno, Jojo Rabbit e Parasita.
ㅤㅤㅤㅤEntretanto, é necessário considerar também que, em um cenário dominado por sequências e propriedades intelectuais consolidadas, trata-se de uma obra original que alcançou expressiva bilheteria global (mais de US$368 milhões) e, ao mesmo tempo, obteve amplo reconhecimento crítico. Esse dado sinaliza uma possível inflexão de Hollywood em direção a projetos autorais de grande escala, capazes de combinar ambição estética, apelo comercial e densidade temática, colocando uma narrativa protagonizada e produzida por pessoas negras no centro da elite cinematográfica mundial.
ㅤㅤ ㅤㅤE, apesar da brusca mudança, os méritos técnicos sempre foram evidentes. A fotografia de Autumn Durald Arkapaw apresenta uma composição visual sofisticada, com uso expressivo de luz e contraste para diferenciar os registros realista e sobrenatural. A direção de arte de Hannah Beachler e Monique Champagne recria o período histórico com detalhamento convincente, em especial quanto à representação religiosa e cultural, com enfoque nas cenas musicais. E por falar das músicas, a trilha sonora de Ludwig Göransson é, para mim, o ponto alto da obra, integrando elementos do blues com uma representação histórica em um nível de arte lírica, quase surrealista, como na cena do solo de Sammie. No campo das atuações, Jordan entrega desempenho tecnicamente sólido em papel estruturado justamente por ser duplo, mas acredito que é Delroy Lindo, interpretando um velho músico de blues, quem apresenta maior consistência dramática, tanto na primeira quanto na segunda parte do filme. Wunmi Mosaku também se destaca, embora seu arco narrativo pudesse ter sido mais explorado.
ㅤㅤㅤㅤUma leitura possível — e cada vez mais discutida — é interpretar o vampirismo em Sinners não como um mero uso da narrativa sobrenatural por apelação, mas como uma metáfora para a apropriação cultural da cultura negra. Neste enquadramento, o elemento sobrenatural deixa de ser apenas um recurso de entretenimento e passa a dialogar diretamente com o contexto histórico apresentado no início do filme. Por essa perspectiva, o trio de vampiros brancos não deseja apenas sobreviver ou dominar fisicamente seus alvos: o que os atrai é o blues e aquilo que ele representa. E no universo do filme, o blues não é apenas música, ele é apresentado como uma força cultural capaz de atravessar o tempo, conectar gerações e condensar a experiência histórica de um povo.
A tentativa de capturar essa expressão artística pode ser lida como alegoria da própria história da música negra nos Estados Unidos, repetidamente apropriada, reembalada e explorada por estruturas culturais dominantes. Sob essa perspectiva, a escolha de inserir o horror vampírico no segundo ato ganha nova coerência simbólica, já que o vampiro, tradicionalmente associado à ideia de parasitismo — uma entidade que sobrevive ao extrair vitalidade de outros — torna-se uma metáfora particularmente adequada para discutir apropriação cultural. A cultura negra, especialmente no campo musical, produziu linguagens artísticas que moldaram profundamente a cultura popular global, muitas vezes sem que seus criadores recebessem reconhecimento ou benefício proporcional. Quando os vampiros do filme desejam o blues e a capacidade que ele possui de unir comunidades e atravessar o tempo, eles não estão apenas interessados em poder sobrenatural, estão interessados em capturar e se apropriar de uma força cultural que não lhes pertence.
ㅤㅤㅤㅤQuanto às chances no Oscar, na minha opinião Sinners apresenta competitividade significativa nas categorias técnicas — Fotografia, Direção de Arte e Figurino são as mais prováveis. A construção estética do filme é consistente o suficiente para competir com força. Meu maior palpite, e ouso dizer a categoria mais merecida da obra, seria para Trilha Sonora Original. Quanto a Melhor Roteiro Original, enfrento maior incerteza, em razão das fragilidades estruturais do segundo ato. Melhor Direção é possível, mas dependerá do peso simbólico da Academia em premiar um filme do gênero com ambição autoral, considerando que filmes de terror raramente têm vez nas categorias principais da premiação.
ㅤㅤㅤㅤPor fim, se a obra tem chance de vencer Melhor Filme? Considero improvável, mas não impossível. A Academia parece interessada em sinalizar renovação — e premiar um terror original, racialmente consciente e comercialmente bem-sucedido seria um gesto político-industrial poderoso. A mera indicação reflete tanto o impacto cultural quanto o sucesso industrial da obra, mas a vitória dependerá do peso que a Academia atribuirá à inovação de gênero em comparação a narrativas mais tradicionalmente dramáticas. Independentemente do resultado, Sinners consolida-se como um projeto relevante por demonstrar que filmes originais, de gênero e com ambição temática ainda podem ocupar espaço central na indústria e na premiação.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Por Ana Carolina Clauss
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, lançado em dezembro de 2025, é um filme biográfico de época dirigido por Chloé Zhao (Eternos, Nomadland) e co-escrito por Maggie O’Farrell, autora do romance de 2020 que inspira o drama. A obra retrata a vida de William Shakespeare e de sua família a partir da tragédia que marcou profundamente o autor: a morte de seu filho Hamnet. Situado na Inglaterra do século XVI, o filme acompanha as dores e tensões familiares que antecedem a criação de sua obra prima Hamlet.
A narrativa começa apresentando Agnes (Jessie Buckley) – frequentemente considerada filha de uma bruxa da floresta. É nesse ambiente que ela conhece William (Paul Mescal), na época no papel de tutor de latim, para ajudar a saldar as dívidas de seu pai, um luveiro. A primeira visão que o jovem tem de Agnes acontece pela janela, durante uma aula, e a cena marca o início de um amor à primeira vista. Misteriosa, Agnes rapidamente se torna o centro da atenção do então professor. Quando ela engravida, no entanto, a família do poeta, especialmente sua mãe Mary, reprova a união por causa das origens de sua futura nora. Ainda assim, o irmão dela, Bartholomew, e o pai de William acabam abençoando o casamento.
Visto pelo próprio pai como um fracassado, o autor enfrenta um bloqueio criativo que o consome e coloca em dúvida seu talento e seu futuro. Percebendo esse sofrimento se estendendo para a relação dos dois e de sua filha recém nascida, Agnes conclui que a melhor saída para o marido é partir para Londres em busca de sua identidade como escritor. Antes de ele deixar Stratford, ela engravida novamente. Entre idas e vindas do dramaturgo, nascem os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes) – com o pai ausente. As crianças crescem e, no contexto da peste, Hamnet morre aos 11 anos. A dolorosa perda, além de aumentar a tensão entre o casal, inspira William, que ainda reside em Londres, a escrever Hamlet. O filme encerra com Agnes assistindo à peça: primeiro revoltada, depois gradualmente tomada por emoção e compreensão, até que passa a contemplar a obra do marido com profunda admiração.
Ao contrário das expectativas de muitos espectadores, Hamnet não narra a história de Hamlet, mas sim a biografia do homem por trás da peça. O prólogo informa que, em Stratford, “Hamnet” e “Hamlet” eram considerados variações de um mesmo nome, um detalhe que ressoa profundamente com o tema central da obra. Além disso, usar o nome “Shakespeare” quase soa inadequado – o filme se afasta do ícone literário e se dedica ao ser humano. As atuações, especialmente de Jessie Buckley e Jacobi Jupe, são comoventes, sensíveis e honestas.
A fotografia e a direção de arte são deslumbrantes: cada imagem encanta e cada cenário contribui para intensificar a carga emocional das cenas. Com tons terrosos e verdes, a natureza é usada como extensão simbólica dos sentimentos dos personagens, principalmente de Agnes, que é retratada como uma mulher livre, íntima da natureza e conhecedora das propriedades curativas das ervas. A biografia privilegia o espaço doméstico e a experiência cotidiana, trazendo um tom intimista, desenvolvendo o luto e o sofrimento de forma gradual e humana. A trilha sonora discreta e pontual, assinada por Max Richter, adiciona à narrativa, com silêncios que intensificam a atmosfera melancólica sem sobrecarregar a emoção das cenas.
Outro aspecto curioso é o fato de que a esposa de Shakespeare surge em documentos históricos como Anne Hathaway (sim, como a atriz), exceto no testamento de seu pai, onde aparece como Agnes – nome adotado por Maggie O’Farrell em seu romance e preservado pela diretora no filme. Em suma, pode-se dizer que Chloé Zhao consegue costurar todos esses elementos de maneira sensível, criando um retrato íntimo e poderoso da família Shakespeare.
Qual o lugar de F1 na corrida pelo Oscar?
Por Vicky Auricchio
Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro que meu conhecimento sobre Fórmula 1 e automobilismo em geral é relativamente limitado. Não acompanho a categoria e tampouco tenho domínio técnico profundo sobre as estratégias, a engenharia ou a história do esporte. Portanto, parto aqui de uma perspectiva assumidamente amadora em relação ao universo da Fórmula 1. Ainda assim, minha leitura de F1: O Filme se constrói principalmente a partir de duas frentes que me são mais familiares: a linguagem cinematográfica e as implicações políticas da representação.
Essa posição de observador externo, inclusive, talvez seja mais próxima da experiência da maior parte do público que o filme pretende atingir, afinal, F1 não se dirige apenas aos fãs históricos do esporte, mas também a espectadores que, como eu, entram nesse universo principalmente através do cinema. Em certo sentido, o filme também opera como um enorme comercial – mas um comercial extremamente bem realizado, com aten ção aos detalhes técnicos, à engenharia e ao ambiente real das corridas, na medida em que o cinema permite.
Quando F1 começou a circular no debate da temporada de premiações, o filme já carregava um rótulo que parece funcionar quase como uma sentença crítica: blockbuster. E para muitos, em especial a crítica especializada, isso bastava para colocá-lo em uma posição menor dentro da discussão sobre valor artístico. Eu sempre vejo esse tipo de reação com certa desconfiança, ainda mais quando a história recente do cinema mostra que a distinção entre “cinema popular” e “cinema de prestígio” é artificial. E F1 é um caso interessante justamente porque, ao mesmo tempo em que é um grande espetáculo comercial, também apresenta um nível de sofisticação técnica e um respeito pelo esporte que retrata que o colocam em um patamar acima de muitos filmes do gênero.
Dirigido por Joseph Kosinski e produzido por Lewis Hamilton, o longa nasce com a clara vocação de transformar a experiência da corrida em cinema de larga escala. Isso pode parecer simples, mas na prática é extremamente difícil em sua tecnicidade, um grande exemplo é que a velocidade real de um carro de Fórmula 1 é algo que raramente se traduz bem na linguagem audiovisual. A maior parte das produções sobre automobilismo acaba caindo em dois extremos, ou simplifica demais a dinâmica das corridas, ou se perde em tecnicismos que afastam o público. O que F1 tenta fazer – e em grande parte consegue – é equilibrar essas duas dimensões.
E é justamente a produção de Lewis Hamilton que auxilia nessa dinâmica. Sua presença não funciona (apenas) como um elemento de marketing, mas como uma ponte institucional e técnica entre o cinema e o esporte. A produção conseguiu negociar diretamente com a FIA e com equipes reais da categoria, o que abriu a possibilidade de fazer gravações durante as corridas reais entre 2023 e 2024. Esse detalhe muda completamente a materialidade do filme, já que em vez de depender exclusivamente de cenários reconstruídos ou de ambientes digitais, muitas cenas foram captadas em autódromos reais, em meio à estrutura autêntica do campeonato, incluindo espaços ligados a equipes como Ferrari e Mercedes. Além, claro, do excelente marketing feito nas redes como se a APX GP, equipe dos protagonistas, fosse de fato uma equipe real.
O resultado é um tipo de realismo que dificilmente poderia ser replicado em estúdio, em que o filme se apoia em uma combinação de imagens reais de corridas com efeitos visuais que inserem os carros fictícios e os personagens dentro dessas situações. Em muitos momentos, essa integração é tão fluida que a fronteira entre registro documental e construção cinematográfica praticamente desaparece. É justamente nesse ponto que o filme demonstra os efeitos visuais como um de seus maiores méritos técnicos. É um tipo de efeito que depende mais de precisão e invisibilidade do que de grandiosidade, o que o diferencia de outros competidores da categoria, como Avatar.
Outro aspecto fundamental é a maneira como Kosinski filma a velocidade, e nesse assunto o diretor já demonstrou experiência com Top gun: Maverick. Grande parte da experiência vem do posicionamento das câmeras dentro do carro, da proximidade com os carros e, principalmente, do ritmo da montagem. Isso nos leva a outra categoria em que o filme aparece com mais força na temporada de premiações: Melhor Edição. O trabalho de Stephen Mirrione consegue equilibrar clareza espacial, tensão dramática e impacto visual, algo indispensável para que as corridas não se tornem apenas um fluxo caótico de imagens e passem a impressão de velocidade almejada pelo diretor. Não por acaso, o filme já foi reconhecido no Critics' Choice Awards nas categorias de Melhor Som e Melhor Edição.
Entretanto, um dos aspectos mais discutíveis aparece na construção de suas personagens femininas. Quando o time fictício APX GP foi apresentado com uma diretora técnica mulher, parecia que o roteiro estava prestes a explorar uma dimensão interessante da Fórmula 1 contemporânea. A personagem Kate, interpretada por Kerry Condon, ocupa teoricamente um cargo histórico dentro da categoria — algo que, na realidade do esporte, ainda é extremamente raro. No entanto, a maneira como o roteiro desenvolve essa personagem acaba sendo decepcionante. Embora Kate seja inicialmente descrita como brilhante, o carro que ela projetou é retratado como um fracasso completo, incapaz de competir de forma minimamente digna e a equipe passa anos sem pontuar. A narrativa então introduz o personagem vivido por Brad Pitt, um piloto veterano afastado da Fórmula 1 há décadas, que basicamente resolve os problemas técnicos da equipe com algumas observações improvisadas.
O efeito dramático dessa escolha é extremamente problemático. A personagem que deveria representar o ápice da competência técnica dentro da equipe acaba sendo retratada como alguém que precisa ser “salva” pela intuição do protagonista masculino. A situação se torna ainda mais frustrante quando a narrativa a transforma também em interesse romântico do piloto. A personagem rapidamente entra em um arco romântico que em nada contribui para o desenvolvimento da trama ou da própria personagem.
Esse tratamento é particularmente revoltante se considerarmos o contexto atual do automobilismo. Nos últimos anos, a Fórmula 1 tem vivido um processo lento, mas importante, de ampliação da presença feminina em funções técnicas e estratégicas. Inclusive, 2025 teve a primeira mulher a ocupar oficialmente o cargo de engenheira de corrida em uma equipe da categoria. Nesse cenário, retratar a única personagem feminina em posição de liderança técnica como incompetente e meramente um interesse romântico acaba funcionando como uma representação completamente desfavorável.
No Oscar, F1 aparece com quatro indicações relevantes: Melhor Filme, Melhor Som, Melhor Edição e Melhores Efeitos Visuais. Ainda que a presença em Melhor Filme seja um reconhecimento significativo, trata-se provavelmente da disputa mais difícil. Historicamente, a Academia tende a privilegiar produções com um perfil dramático mais tradicional, enquanto blockbusters raramente vencem essa categoria, mesmo quando são tecnicamente impressionantes.
Mas onde o filme parece realmente competitivo é justamente nas categorias técnicas. Edição e Efeitos Visuais são áreas em que o longa apresenta contribuições claras para a forma como as corridas automobilísticas podem ser representadas no cinema. É claro que em termos de som o longa também é extremamente forte, embora nessa categoria exista uma concorrência relevante com Sinners, da qual eu não apostaria uma vitória.
No balanço geral, F1 continua sendo um bom filme, especialmente dentro da tradição de grandes produções esportivas de Hollywood, com coerência interna e bons aspectos técnicos, fortes na competição.
Marty Supreme
Por Rauhã Capitão
Eu sou uma pessoa que gosta muito de cinema. Assim, assisti mais filmes do que posso contar. Apesar disso, foram poucos os protagonistas que conseguiram me estressar tanto quanto Marty Mauser (Timothée Chalamet) em Marty Supreme, filme dirigido por Josh Safdie (Jóias Brutas, Bom Comportamento).
Na trama, um jovem com o sonho de se tornar uma lenda do tênis de mesa em Nova York nos anos 50 fará de tudo (literalmente, tudo) para ter a revanche contra um adversário que o derrotou. Essa breve sinopse do filme está muito longe de expôr o caos incessante que são os 150 minutos deste longa. Tampouco ela demonstra o quão desprezível é Marty Mauser, um dos protagonistas mais execráveis que tive o prazer em conhecer (isso mesmo, prazer).
Quem nunca teve aquele antagonista que amou odiar, que atire a primeira pedra. Contudo, talvez nós falemos pouco sobre os protagonistas que amamos odiar. Como exemplo, podem ser citados Jordan Belfort, de Lobo de Wall Street, e o detetive Park Doo-man, do sul coreano Memórias de um Assassino. Marty Mauser é um homem manipulador, arrogante, egocêntrico, por vezes toma decisões questionáveis (não apenas moral, como intelectualmente também), que descarta as pessoas à sua volta como se fossem papel usado. E isso é crucial para a narrativa character-driven ali presente, isto é, isto é, uma narrativa movida menos por acontecimentos externos e mais pelas decisões e atitudes de seu protagonista. Não são as circunstâncias que arrastam Marty para o caos – é ele quem o produz, o alimenta e amplia a cada escolha impensada, a cada mentira conveniente, a cada ponte que decide queimar.
Marty Supreme, definitivamente, não é um filme sobre ping-pong. Sua leve inspiração na vida de Marty Reisman, ex-jogador profissional estadunidense, não passa disso. Uma leve e distante inspiração. O que realmente importa ali é Mauser e a sequência de decisões erradas que ele toma em busca de realizar o seu objetivo, se afundando, a cada minuto que passa, em um cenário cada vez pior não apenas para si, como também para as pessoas à sua volta também.
Nesse sentido, o personagem vivido brilhantemente por Timothée Chalamet se mostra não apenas como um atleta, mas também como um farsante que acredita de forma arrogante na própria superioridade. E é nesse contexto que o longa, frequentemente a partir de suas imagens, centraliza seu protagonista como um típico estadunidense, sugerindo que seu narcisismo, falta de amor pelo próximo e até mesmo, em certa medida, sua imbecilidade, são características comuns do, digamos, “jeito estadunidense de ser”. A cena mais clara disso, que pode ser citada como exemplo, é a bolinha de ping pong escrita made in America.
Apesar de tudo isto, o fim do filme não é trágico - pelo contrário, entrega uma conclusão razoavelmente positiva para Marty Mauser. É de irritar o espectador. Oras, como um personagem que deixou um rastro de destruição por onde quer que passou termina tendo um desfecho que não o responsabiliza, ou melhor dizendo, não o responsabiliza fortemente por todos os seus atos? É um incômodo proposital e necessário que o longa nos entrega justamente para que possamos refletir sobre aquilo que assistimos. Se Marty é um “típico estadunidense” que passou o filme todo usando os demais personagens ao bel prazer sem que, ao fim, fosse plenamente responsabilizado, então significa que ele não está apresentando uma situação tão diferente da realidade que vemos quando olhamos o histórico dos Estados Unidos. Isso não é, claro, um sinônimo de que Josh Safdie é um “anti-ideologia estadunidense”. E essa, aliás, é somente uma de outras interpretações que podemos tirar de Marty Supreme. Cabe a cada espectador ter a própria reflexão.
Para concluir, Timothée Chalamet, em diversas entrevistas, definiu este como o “melhor e mais maduro papel de sua carreira”. Não sei dizer se eu, pessoalmente, definiria desta forma, mas é inegável o brilhantismo de sua atuação. Se temos “Marty Supreme” como um grande filme e Marty Mauser como alguém que será, futuramente, extremamente relevante nos estudos de personagens no cinema, Chalamet é diretamente responsável nisso, ainda que não de forma exclusiva. A direção de Safdie, bem como o roteiro e a edição assinados por ele e Bronstein, a composição de Daniel Lopatin (Joias Brutas, Bom Comportamento) e a fotografia de Darius Khondji (Se7en, Mickey 17) foram cruciais para o sucesso de Marty Supreme, um filme que certamente será ainda muito discutido.
Em suma, Marty Supreme é uma experiência tão exaustiva quanto fascinante. É o tipo de filme que provoca irritação, desconforto e até certa revolta, mas que, justamente por isso, permanece na mente muito depois dos créditos finais. Ao construir um protagonista que produz o próprio caos e, ainda assim, escapa de uma punição proporcional aos seus atos, Josh Safdie nos obriga a encarar não apenas Marty Mauser, mas também as estruturas que permitem – e por vezes celebram – figuras como ele. Não é um filme sobre redenção, tampouco sobre superação esportiva. É sobre ambição sem freios, sobre ego inflado e sobre o preço (quase sempre pago por outros) de se acreditar acima de tudo e de todos. E se saímos da sessão incomodados, talvez seja exatamente porque o filme cumpriu com precisão aquilo a que se propôs.
Frankenstein
Por Pedro Anelli
Existem poucas pessoas audazes o suficiente para discordar que Guillermo del Toro é o nome perfeito para adaptar Frankenstein para os cinemas.
Publicado originalmente em 1818, o romance de Mary Shelley narra a história do excêntrico cirurgião Victor Frankenstein e de seu empreendimento para dar vida a uma criatura monstruosa composta por pedaços de cadáveres.
A história é, por si só, assustadora, e ganha uma nova roupagem sob o olhar certeiro do cineasta mexicano: o estilo excêntrico do diretor casa perfeitamente com o clima gótico e sombrio da obra, tornando cada palavra (ironicamente) mais viva do que nunca. Para tornar a adaptação ainda mais fiel, por mais liberdade criativa que o diretor tome, uma escolha de roteiro interessante: as falas das personagens são quase um “copia e cola” do livro, fazendo com que o espectador se aproxime do leitor, tornando a experiência cinematográfica mais próxima do pretendido.
Além disso, as atuações de Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein e Jacob Elordi como A Criatura também são pontos chave para o sucesso. Também é destaque a atuação de Mia Goth como Elizabeth Harlander, interesse romântico tanto do criador, quanto da Criatura.
Revisado por Ana Carolina Narios Clauss e Pedro Anelli Bastos



