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Poder e Política

Pense um pouco, por favor!

Utilizar IA nos estudos pode ser uma mão na roda, mas também pode gerar malefícios irreversíveis à nossa capacidade cognitiva.

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Pedro Anelli Bastos

9 min de leitura

30 de maio de 2026

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“Penso, logo existo”

~ René Descartes


As ferramentas de inteligência artificial são uma realidade inegável. Seja no trabalho, na televisão, nas redes sociais ou, principalmente, na faculdade, sempre terá alguém usando alguma IA para algo. Não vou ser hipócrita, eu mesmo uso para muitas coisas no dia a dia. A questão é que essas ferramentas exigem muito cuidado em sua utilização. Não somente porque podem passar informações erradas, como também apropriam-se, indevidamente, de dados particulares para formar sua base, e geram um dano ambiental imensurável ao gastar milhões de litros de água para responder a uma simples equação. O maior problema da IA é que ela substitui a nossa habilidade mais humana: o pensar.


Já não é novidade para ninguém que estamos emburrecendo. Não digo isso no sentido de deixarmos de usar um palavreado rebuscado ou decorar infinitas operações matemáticas que jamais usaremos. Estamos emburrecendo numa escala muito maior: temos dificuldades em manter o foco na mesma coisa por mais de 5 minutos – dificuldade esta aumentada em, no mínimo, 10 vezes se a atividade não envolver qualquer tipo de tela –, somos a primeira geração a ter resultados mais baixos em testes de QI do que a geração anterior, demoramos séculos para resolver problemas de lógica básicos e formular raciocínios óbvios. Esses sintomas, vistos todos os dias em todos os lugares do mundo inteiro, têm uma origem, e todos sabemos bem qual é.


O uso excessivo de telas, redes sociais e, principalmente, ferramentas de IA são a principal causa do fenômeno chamado de brain rot, ou “podridão cerebral”, em português. O termo se refere ao declínio das capacidades cerebrais básicas, tanto cognitivas quanto emocionais, em razão do consumo excessivo de conteúdos de baixa qualidade e informações imediatas. De fato, é exatamente isso o que ocorre.


O impacto cerebral do uso de IA é mais claramente visto em ambientes acadêmicos. Eu gosto muito de um estudo desenvolvido no MIT que divide 54 estudantes em três grupos e os manda escrever uma redação. A questão é que um grupo tem total acesso ao ChatGPT, outro poderia apenas fazer buscas na internet, sem consultar IAs, e o terceiro grupo deveria escrever utilizando como base apenas o próprio cérebro. Além disso, os estudantes utilizaram, durante o processo de escrita, equipamentos que mediam o grau de atividade cerebral realizada. O resultado não poderia ser mais óbvio: além de apresentarem o menor nível de atividade, a grande maioria dos estudantes que utilizaram IA não conseguiam citar uma frase sequer da redação que escreveram, mesmo um minuto após finalizarem. 


Um outro estudo desenvolvido na Universidade da Pensilvânia também ilustra a situação de uma maneira interessante. Um grupo de pessoas recebeu a missão de compartilhar com um amigo dicas para ter uma vida mais saudável. A divisão das pessoas foi semelhante: enquanto alguns somente poderiam utilizar os resultados de links das pesquisas no Google, outros só poderiam se basear no resumo de IA apresentado logo no início da página. O (previsível) resultado foi que os utilizadores de IA apresentaram dicas óbvias e genéricas, enquanto os que se basearam em links e pesquisas mais aprofundadas apresentaram dicas mais específicas, embasadas e completas.


A ficha caiu de verdade para mim quando, alguns meses atrás, ouvi alguém no elevador da faculdade dizendo que ia “tentar ler o texto de História do Direito. Se eu não entender, jogo no NotebookLM e vou fazer outra coisa”. Para mim, foi a gota d’água. É claro que eu já sabia dos perigos da IA, mas não havia me dado conta que isso estava acontecendo tão perto, com pessoas no mesmo ambiente que eu. Com meus amigos. Comigo.


Essa fala em especial, sobre tentar ler um texto e pedir um resumo para uma IA se não entender, me levou a uma reflexão mais singular sobre essa questão. Ao estudar por meio de um texto, seja ele qual for – um livro, artigo acadêmico, legislação –, realizar uma leitura ativa e lutar contra o texto até verdadeiramente entender o que está sendo dito não só faz parte do estudo, como é o ponto central da coisa. Automatizar isso e deixar de passar 3 horas seguidas lendo o mesmo parágrafo até entender, no nosso vício geracional em informação rápida e resolver todos os problemas do mundo ao mesmo tempo, nos tira a habilidade de interpretar textos, desenvolver um pensamento crítico, de formular ideias grandiosas, e nos dá o vício de engolir, sem questionar, tudo aquilo que aparece na nossa frente. Nos rouba a habilidade de pensar, nos rouba aquilo que nos faz humanos, que nos faz vivos.


O problema não é só local. Um artigo recente publicado no The Daily Pennsylvanian, intitulado Penn has an AI problem, traz uma reflexão crítica sobre o assunto. A Universidade da Pensilvânia tem uma longa relação com a evolução tecnológica: além de ter sido lar do data center do primeiro computador da história, em 1946, a Penn também foi pioneira ao lançar um curso de graduação em Inteligência Artificial, rapidamente implementando o estudo e elaboração das novas tecnologias em sua grade curricular obrigatória. Entretanto, o jornal estudantil da faculdade aponta as insatisfações sentidas por parte do corpo discente quanto ao uso de IA no ambiente acadêmico. Um trecho certeiro do último parágrafo do artigo resume bem a questão, e sintetiza de forma simples tudo o que tenho a dizer:


AI cannot coexist with education — it can only degrade it. As technology advances and workers are replaced by machines, schools are some of the only places we have left to explore and wrestle with human thought. With our own university leading the charge, AI is now corrupting those few sacred spaces and leaving us with nowhere to engage in true scholarship. 


Este texto não tem o intuito de ser nenhum tipo de “manifesto anti-IA”. Muito pelo contrário, seria hipócrita da minha parte. As ferramentas de inteligência artificial são uma realidade, já não dá mais para voltar atrás. Escrever estas palavras é, em última análise, um apelo. Um apelo para que ganhemos consciência do que estamos fazendo com nós mesmos. Para que tomemos de volta para nós a habilidade de raciocinar livremente, de explorar todos os cantos de nossa ilimitada imaginação, de expressar, com nossas próprias mãos, os devaneios criativos que nos são intrínsecos. Já passou da hora de voltarmos a ser humanos, exercitando a nossa racionalidade por nós mesmos. Voltarmos a criar, sentir, pensar. E, pensando, existir.


Imagem da capa: Arquivo pessoal.



Referências bibliográficas:

BARROS FILHO, Clóvis de. Motivação para estudar (BRIO). [S. l.]: Clóvis de Barros, 7 abr. 2021. 1 vídeo (8 min 21 s). Publicado pelo canal Clóvis de Barros. Disponível em: https://youtu.be/TRPBY_lxJfE. Acesso em: 29 mai. 2026. 

CHEN, Brian X. How A.I. and social media contribute to 'brain rot'. The New York Times, Nova York, 6 nov. 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/11/06/technology/personaltech/ai-social-media-brain-rot.html. Acesso em: 29 mai. 2026. 

FALCÃO FILHO, Aluizio. Estamos emburrecendo na era digital? Exame, São Paulo, 29 abr. 2022. Disponível em: https://exame.com/colunistas/money-report-aluizio-falcao-filho/estamos-emburrecendo-na-era-digital/. Acesso em: 29 mai. 2026. 

MORO, Pedro; DIAS, Maurício (ed.). Como o uso de inteligências artificiais consome água? Agência de Notícias UFSM, Santa Maria, 4 set. 2025. Disponível em: https://www.ufsm.br/2025/09/04/como-o-uso-de-inteligencias-artificiais-consome-agua. Acesso em: 29 mai. 2026. 

THE DAILY PENNSYLVANIAN EDITORIAL BOARD. Penn has an AI problem. The Daily Pennsylvanian, Philadelphia, 19 mar. 2026. Disponível em: https://www.thedp.com/article/2026/03/penn-ai-dominance-education. Acesso em: 29 mai. 2026. 


Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Pedro Anelli Bastos

Há 1 ano na Gazeta

Estudante de Direito na FGV, sou Diretor de Revisão, redator e membro de Recursos Humanos na Gazeta. Apaixonado por livros, música, filmes e natureza :)

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