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Espaço Aberto

Por dentro da machosfera: Variações sobre marketing, capitalismo e a construção da performance masculina

Neste ensaio, proponho uma leitura da machosfera como fenômeno simultaneamente cultural, econômico e performático.

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Espaço Aberto

14 min de leitura

24 de maio de 2026

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O longa Por Dentro da Machosfera, do renomado documentarista britânico Louis Theroux, é um exame profundo sobre a ascensão da chamada “machosfera”, também conhecida como “movimento redpill” ou “empoderamento masculino”. Esse universo é concebido como um espaço destinado ao desenvolvimento da masculinidade, entendida aqui estritamente em termos de poder social, financeiro e sexual, posicionando-se de forma diametralmente oposta aos movimentos feministas e “woke”. Ao longo de 90 minutos, Theroux e sua equipe acompanham o cotidiano de alguns dos protagonistas mais influentes desse universo, visitando suas casas, conhecendo amigos e familiares e observando de perto os processos de produção de conteúdo.


Neste ensaio, proponho uma leitura da machosfera como fenômeno simultaneamente cultural, econômico e performático. Mais do que um simples agrupamento de ideias conservadoras ou antifeministas, o documentário sugere tratar-se de um mercado de identidades, no qual frustrações reais são convertidas em audiência, em lucro e, talvez mais importante ainda, em pertencimento. A partir das contradições expostas por Theroux, discutirei como esse universo recicla as estruturas de poder que promete enfrentar, transformando a insatisfação em produto e a masculinidade em um espetáculo contínuo.


O formato das entrevistas de Theroux é notoriamente mais discreto, centrado na escuta e distante de confrontos diretos ou reações às falas problemáticas dos entrevistados. Questionamentos incisivos são raros; o documentarista parece preferir que os próprios homens revelem suas contradições e motivações por meio de suas próprias respostas e comportamentos. Essa abordagem não apenas evita escaladas de tensão ou a ridicularização dos entrevistados, mas também permite um estudo mais imparcial das forças que alimentam o ódio, oferecendo à audiência ferramentas para tirar suas próprias conclusões.


Logo nos primeiro minutos do longa, fica evidente o teor de verdadeiro “vampirismo social” que permeia tanto as relações de trabalho quanto às relações afetivas desses influenciadores. Trazer um convidado ao podcast, publicar conteúdos ou até mesmo se envolver romanticamente com alguém passa a ter um objetivo central: maximizar exposição, engajamento e retorno financeiro. Esse padrão se explicita de forma particularmente clara no caso de Harrison Sullivan, conhecido como HS ou HSTikkyTokky. Embora divulgue massivamente perfis de Only Fans em suas redes, especialmente em seu grupo no Telegram, ele declara abertamente considerar o trabalho dessas modelos “nojento” e chega a afirmar que jamais aceitaria que sua própria filha seguisse esse caminho. Ao ser confrontado por Theroux sobre essa aparente contradição, HS responde sem rodeios: “eu preciso chamar atenção, e é isso que vende”.


Essa lógica evidencia uma dissociação entre discurso e prática, na qual valores pessoais são subjugados pela lógica da visibilidade. Mais do que um comportamento pontual, trata-se de uma mentalidade que estrutura o cotidiano desses homens: ela orienta quem é convidado para seus espaços, quais conteúdos são produzidos e, talvez de forma mais preocupante, como eles constroem e performam suas identidades nas redes sociais.


Também salta aos olhos que falas racistas, misóginas e homofóbicas não são um fim em si mesmas, mas instrumentos para impulsionar o engajamento, viralizar perfis e, em última instância, comercializar produtos. Nesse sentido, o ódio não necessariamente expressa um posicionamento genuíno, mas funciona como um “gancho” - um recurso estratégico pensado para capturar a atenção do público nos primeiros segundos e interromper a rolagem do feed. Trata-se de um modelo de marketing cada vez mais presente no ambiente digital, especialmente entre influenciadores, no qual se constrói deliberadamente uma persona controversa para atrair visibilidade. Em um cenário em que marcas deixaram de competir apenas entre si para disputar, sobretudo, a atenção do público, essa estratégia se mostra altamente eficaz do ponto de vista mercadológico.


Assim, o elemento performático é central nesses ambientes: tudo - das vestimentas, casas e carros às falas, gestos e atitudes - é meticulosamente calculado para obter aprovação, sinalizar status e encenar um ideal de masculinidade bem-sucedida. Assim, essa performance não se limita à ostentação material, mas envolve também a constante e supérflua manifestação de autoconfiança, controle (ou manipulação) emocional e suposto sucesso financeiro e sexual, compondo uma narrativa de superioridade que precisa ser continuamente alimentada diante do seu público. Trata-se de um jogo de reafirmação mútua, no qual a autenticidade cede lugar à eficácia da performance.


Myron Gaines, apresentador do podcast Fresh&Fit e ex-agente especial do Departamento de Segurança Interna dos EUA, exemplifica com clareza essa contradição. Quando questionado – na frente da namorada, Angie Camacho – sobre suas próprias declarações a respeito do desejo de ter mais de uma esposa no futuro, o podcaster demonstra visível desconforto. Ele hesita, responde de forma pouco convincente que não sabe como será seu futuro e acaba concluindo, olhando diretamente para Angie, que talvez isso nem seja algo que realmente queira. Também observamos uma cena em que o influenciador supramencionado, HS, é repreendido pela mãe por molhar o chão, e é visto se abaixando para limpar a poça com um pano, aos pés da mulher. A situação contrasta com suas declarações anteriores de que as mulheres deveriam ser responsáveis pelos cuidados da casa, e de que elas devem servir aos homens.


E é justamente aí que reside a chave da questão: o público que se busca impressionar não são as mulheres, mas outros homens. Nesse processo, grupos minoritários e historicamente marginalizados tornam-se alvos previsíveis. Eles serviriam quase como degraus para alavancar a superioridade desses homens. Talvez menos evidente, porém igualmente recorrente, é a hostilidade dirigida aos próprios homens, frequentemente desqualificados por meio de termos como “fracos” ou “betas”. Isso evidencia que o objetivo central não é confrontar o movimento feminista, a corrente política dos liberais democratas ou a imigração - como eles próprios afirmam no início de suas falas -, mas competir com os próprios pares pelo protagonismo e pelos holofotes do público.


É notável também o intenso caráter anti-establishment que esse discurso apresenta. Frases como “eles não querem te ver vencendo” e “eles não querem que você saiba disso” (em que o termo “eles” surge como uma entidade difusa, associada ao sistema, à “matrix” ou mesmo à economia e à cultura) são reiteradas ao longo do documentário. Esse tipo de retórica reforça uma visão conspiratória, ao mesmo tempo em que fortalece o senso de pertencimento a um grupo que se percebe como “desperto”.


Digno de nota também é a descrença desses homens na cultura de trabalho ocidental, caracterizada pela jornada “9 to 5”, pelas rígidas hierarquias de trabalhos e pela promessa frustrada da meritocracia corporativista. Esse ceticismo dialoga com as transformações reais do mercado de trabalho contemporâneo: a redução de oportunidades para iniciantes, o aumento das desigualdades e a corrosão do poder de compra dos salários diante da inflação, que já não asseguram o mesmo padrão de vida de gerações anteriores. Trata-se, portanto, de um mal-estar legítimo e amplamente compartilhado, muito provavelmente também reconhecido por você, leitor. No entanto, é justamente essa insatisfação geral que esses influenciadores capturam e convertem em engajamento.


O problema se agrava quando se observa quem compõe o público desses influenciadores: em sua maioria, trata-se de adolescentes e jovens adultos em busca de validação e pertencimento. São fases marcadas por maior vulnerabilidade emocional, nas quais os sentimentos de frustração e desilusão com a vida são não apenas comuns, mas esperados; isso os torna particularmente suscetíveis a discursos que se apresentam como “libertadores”. Além disso, é um período de maior impressionabilidade. Como esses influenciadores frequentemente ocultam o caráter estratégico e performático de suas falas, o público tende a interpretar esse discurso radical como uma alternativa legítima de visão de mundo. Nesse contexto, a minissérie “Adolescência”, da Netflix, quase pode ser vista como uma extensão das discussões levantadas por Theroux, ao dramatizar as consequências desse tipo de marketing violento sobre os jovens. A trama foca em Jamie, um jovem de 13 anos que assassinou um colega de classe, e explora os impactos diretos do tipo de conteúdo retratado no documentário na radicalização dos adolescentes.


Reconheço que essa é uma leitura potencialmente controversa, mas é possível argumentar que esses influenciadores, de fato, captam algo que muitos não conseguem nomear com clareza: a existência de estruturas de poder e de opressão que moldam as dinâmicas sociais contemporâneas. No entanto, na tentativa de se apresentar como uma via de escape dessa “matrix”, acabam por reproduzir e até intensificar a lógica dessas mesmas estruturas, reposicionando-se, agora, no centro delas. O que se observa, então, é uma espécie de recriação do sistema que dizem combater: uma nova forma de hierarquia, igualmente excludente, sustentada por mecanismos de controle, promessa de ascensão e dependência; não muito distante de uma “prisão algorítmica”, desta vez com seus próprios seguidores como alvo. Assim, ao invés de romper com as dinâmicas que mantêm muitos à margem, esses influenciadores frequentemente as replicam, perpetuando os mesmos obstáculos que afirmam querer superar. Um dos momentos mais emblemáticos do documentário ocorre quando Theroux decide testar, na prática, a plataforma de investimentos e serviços financeiros promovida pelo influenciador Harrison Sullivan (HS) a seus seguidores em um grupo no Telegram. Após pagar a taxa inicial de 50 libras e investir outras 500, o resultado ao final do longa é revelador: o documentarista perde quase todo o valor aplicado, o que evidencia o descompasso entre a promessa de sucesso e a realidade entregue.


Essa postura pode ser compreendida como um sintoma de uma mentalidade que atravessa parte da geração Z, frequentemente associada a um individualismo exacerbado e a uma indiferença em relação aos impactos coletivos do próprio enriquecimento. Valores como autopreservação e egocentrismo passam a ocupar um lugar central, tratados como praticamente inegociáveis. Nesse contexto, o objetivo deixa de ser a superação de estruturas opressivas e passa a ser a obtenção de recursos que garantam qualidade de vida apenas para si e para os mais próximos. É, em última instância, uma manifestação da lei da selva capitalista, na qual as consequências para os demais são relegadas a um segundo plano. 


Isso também se reflete na forma como esses influenciadores lidam com o próprio impacto sobre o público. Em um dos últimos blocos do documentário, Theroux volta a conversar com HS, o qual chega a explicitar essa visão: após reconhecer que o extremismo é o que gera engajamento, ele é questionado sobre os possíveis efeitos desse conteúdo na radicalização e no aumento da violência entre seus seguidores mais jovens. Sua resposta é a de total isenção de responsabilidade, atribuindo a culpa exclusivamente aos pais, por permitirem que jovens consumam esse tipo de material. O mesmo influenciador ainda afirma que costuma alertar adolescentes que o abordam na rua pedindo fotos, dizendo que são jovens demais para seu conteúdo. No entanto, essa alegação é contradita por uma série de registros em que ele aparece interagindo normalmente com esses mesmos jovens, agradecendo pelo apoio e reforçando o vínculo com esse público.


A machosfera é, portanto, senão uma espécie de maquete da realidade, uma “matrix” em miniatura, onde os mesmos mecanismos de manipulação que historicamente oprimiram esses homens são reaproveitados para gerar lucro e cultivar dependência entre seus consumidores. O problema não está no mal-estar que eles sentem ou na consciência das estruturas opressivas, mas na forma como esse sentimento é instrumentalizado: ao invés de servir para desconstruir o sistema, ele é apropriado para reforçá-lo em benefício próprio. Trata-se de um mecanismo intrínseco ao próprio capitalismo, que absorve e neutraliza até mesmo os críticos mais incisivos, de forma a blindar-se contra questionamentos. Nesse contexto, torna-se claro que o verdadeiro inimigo não são mulheres, homossexuais ou judeus, mas sim as elites capitalistas, que oferecem pequenas parcelas de poder e dinheiro como incentivo, permitindo que esses homens se vejam como agentes de si mesmos em troca de conivência. A estratégia de calar críticos com migalhas de riqueza (uma forma histórica de manter controle social) aparece de forma explícita na fala do podcaster Justin Waller: “eu não sou tão rico como outros caras por aí, mas estou me dando bem”.


A machosfera, assim, se revela como um sintoma de um sistema político e econômico doentio, um subproduto do capitalismo que idolatra o indivíduo, o lucro e o poder, enquanto perpetua as mesmas estruturas de opressão que diz combater.


“Everyone is king when there’s no one left to pawn” - Black Rebel Motorcycle Club


Imagem da capa: Arquivo Pessoal

Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Espaço Aberto

Foi da Gazeta por menos de 1 mês

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