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Coluna de Geopolítica

Por que o mundo está mais perigoso?

Como primeira coluna, decidi escrever sobre o tema macro que envolve o aparente aumento das tensões nas relações entre Estados: a multipolaridade.

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Guilherme Sanches

9 min de leitura

3 de fevereiro de 2026

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Esta é a primeira edição da Coluna de Internacional e é claro que há diversos temas, dinâmicas e conflitos da política internacional que podem ser abordados nesse espaço. Contudo, como primeira coluna, decidi escrever sobre o tema macro que envolve o aparente aumento das tensões nas relações entre Estados: a  multipolaridade.


A indagação que compõe o título dessa coluna parte do pressuposto de que sim, em uma linguagem popular, o mundo está mais perigoso. Porém, a fim de que possamos compreender quais são as correlações e possíveis causas dessa dinâmica a partir de uma ótica acadêmica, devemos primeiro entender o que significa afirmar que “o mundo está mais perigoso”. Essa frase é usual nos círculos de conversa cotidianos e demonstra uma percepção notória da população brasileira de que há mais conflitos acontecendo no mundo, que provém do grande número de notícias veiculadas pela imprensa ou nas mídias sociais. Mas será que há mais conflitos acontecendo no mundo de fato? 


A resposta é sim dado que em 1996 havia 41 conflitos ocorrendo, enquanto em 2026 há 61 conflitos, segundo o Uppsala Conflict Data Program and Peace Research Institute Oslo (2025). O mesmo indicador aponta que houve também o aumento das guerras interestatais: em 2006 não havia nenhuma guerra desse tipo ocorrendo, enquanto em 2024 haviam quatro desses conflitos, sendo a Guerra na Ucrânia e a Guerra em Gaza os principais. Esse tipo de conflito é, em geral, o mais noticiado uma vez que possui um alto potencial de impacto a Estados alheios à guerra. Vale notar também que, apesar do número de guerras entre Estados ser substancialmente menor do que o números de guerras civis, os conflitos interestatais parecem, e realmente são, “mais perigosos” porque, no limite, um conflito entre Estados pode culminar em uma guerra nuclear — o que seria catastrófico para a humanidade.


Uma vez que compreendemos que há mais conflitos acontecendo no mundo e que os conflitos interestatais possuem maior capacidade de impacto global, dirijamos nossas atenções às causas dessa dinâmica. Visto que o regime soviético caiu em 1991, a Guerra Fria chegava ao fim de forma que os Estados Unidos da América se estabeleciam como a única grande potência do sistema internacional. Durante esse período entre o início da década de 1990 e meados dos anos 2010, o mundo viveu uma aparente pacificidade: as organizações internacionais pareciam ser respeitadas, os conflitos interestatais para expansão territorial já pareciam antiquados aos olhos da opinião pública ocidental e o livre comércio parecia prosperar com o surgimento de novos acordos multilaterais sobre o tema. Essa dinâmica vivida até aproximadamente 2015 foi consequência da unipolaridade, ou seja, somente os Estados Unidos eram uma grande potência. Havendo uma única grande potência, a maioria dos outros Estados optaram por ceder aos anseios e ameaças de Washington em vez de formar uma coalizão entre Estados para se opor à uma ameaça dos americanos. Tal dinâmica ocorreu pois os outros países não teriam capacidades militares e materiais para realizar tal oposição visto que não havia nenhuma outra grande potência capaz de ser o fiel da balança dessa coalizão. Dado que a quantidade de Estados dispostos a integrarem coalizões de oposição aos Estados Unidos reduziu, a quantidade de conflitos interestatais de alta capacidade de destruição também diminuiu, porque para que um conflito seja mundial, ele deve envolver grandes potências por definição. Já a redução de outros conflitos entre Estados alheios a grandes potências se deu, em partes, pela capacidade de Washington, enquanto única grande potência, mediar, interferir e pressionar os atores desses conflitos para que houvesse um desfecho favorável aos interesses americanos quando fosse conveniente.


Nos dirijamos agora ao sistema internacional atual: o que ocorreu para que houvesse uma maior incidência de conflitos? John Mearsheimer (1990) argumentaria que foi a multipolaridade que tornou o sistema internacional de 2026 mais instável do que o sistema internacional de 1996, pois, havendo mais de duas grandes potências, há maior incerteza e maior número de díades das quais podem eclodir um conflito, dentre outras consequências sobre as quais não me aprofundarei nessa coluna. A incerteza (Fearon, 1995) sobre as capacidades de um outro Estado surge a partir da existência de informação privada entre eles (uma informação da qual o outro Estado não tem ciência) de modo que essa dinâmica possa aumentar as chances de que uma grande potência cometa um erro de cálculo e, por exemplo, inicie um conflito. Já um maior número de díades significa um número maior de relações bilaterais entre as grandes potências, ou seja, se na Guerra Fria havia somente uma via bilateral entre as superpotências EUA e URSS, agora há três vias de relação bilateral entre EUA, China e Rússia e em cada uma dessas vias pode haver tensões com potencial de culminar em conflitos. 


E como o sistema se tornou multipolar na prática? Na década de 2010, China e Rússia se colocaram como grandes potências ao negar hegemonia a outra grande potência. Exemplo disso foi a invasão russa à Península da Crimeia em 2014 em que os russos se opuseram à expansão da influência americana no Leste Europeu. Já a China elevou seu status ao construir ilhas artificiais no Mar do Sul da China de forma à desafiar a influência americana na região.

Dada a análise desenvolvida nesta coluna, concluo que o aumento de conflitos é produto da existência de mais de uma grande potência, condição essa chamada de multipolaridade. Esses Estados, por definição, competem por esferas de influência e, como consequência dessa crescente disputa, ocorre o aumento de tensões entre eles. A invasão americana à Venezuela, por exemplo, pode ser explicada a partir dessa ótica: Donald Trump invadiu a Venezuela na tentativa de consolidar a hegemonia estadunidense e reduzir as influências russa e chinesa nas Américas. Já a invasão russa à Ucrânia também parte de um objetivo do Kremlin de reduzir a influência dos Estados Unidos via OTAN no leste europeu. A China, por sua vez, visa anexar Taiwan ao território da China continental também com o objetivo de consolidar sua zona de influência. Considerando que a competição entre as grandes potências é crescente, podemos afirmar que nos próximos anos assistiremos a novas guerras originadas dessa disputa entre grandes potências.


Imagem de capa: CNN US;


Referências bibliográficas:

[1] FEARON, J. D. Rationalist explanations for war. International Organization, [s. l.], v. 49, n. 3, p. 379–414, 1995. https://doi.org/10.1017/S0020818300033324.

[2] KEOHANE, Robert O.; MARTIN, Lisa L. The promise of institutionalist theory. International Security, Cambridge, v. 20, n. 1, p. 39–51, Summer 1995.

[3] MEARSHEIMER, John J. Back to the future: instability in Europe after the Cold War. International Security, Cambridge, v. 15, n. 1, p. 5–56, Summer 1990.

[4] MEARSHEIMER, John J. Anarchy and the struggle for power. In: ART, Robert J.; JERVIS, Robert (org.). International politics: enduring concepts and contemporary issues. 8. ed. New York: Pearson Longman, 2007. p. 71–77.

[5] MEARSHEIMER, John J. Bound to fail: the rise and fall of the liberal international order. International Security, Cambridge, v. 43, n. 4, p. 7–50, Spring 2019.

[6] OUR WORLD IN DATA. Number of state-based conflicts. Disponível em: https://ourworldindata.org/grapher/number-of-state-based-conflicts. Acesso em: 27 jan. 2026.

[7] SPEKTOR, Matias. In defense of the fence sitters: what the West gets wrong about hedging. Foreign Affairs, New York, v. 102, n. 3, p. 8–16, maio/jun. 2023.

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Legenda: A imagem de capa é uma foto do busto dos presidentes Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin com um fundo azul claro.


Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Guilherme Sanches

Há 4 meses na Gazeta

Graduando em RI-FGV, Guilherme é colunista da Gazeta e busca analisar e retratar os cenários vigentes na política internacional a partir de um viés acadêmico, a fim de desfazer narrativas sobre as RI

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