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Poesia

Preocupo-me

Vivo num constante preocupo-me. Preocupo-me com o fato de que quero cortar o cabelo Uso o mesmo corte faz tempo demais e tenho sido...

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Anna Cecília Serrano

3 min de leitura

3 de outubro de 2023

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Vivo num constante preocupo-me.


Preocupo-me com o fato de que quero cortar o cabelo


Uso o mesmo corte faz tempo demais e tenho sido


atormentada por pensamentos de que pareço muito sem graça,


muito genérica, muito do mesmo.


Preocupo-me com a minha franja estar longa demais e


preocupo-me com o tamanho das minhas orelhas quando coloco


a franja em questão atrás delas


Preocupo-me com a minha postura e com as roupas


que uso e com o quão escuras andam minhas olheiras.


Preocupo-me com o meu peso e com a quantidade de


comida que como em um dia


E preocupo-me com o fato de que todas as minhas amigas


são mais bonitas que eu, sempre, sem exceção, todas as vezes


Mais bonitas e mais magras e mais interessantes e


mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais.


Logo eu, sempre demais, sempre em excesso


Encontro-me muito pouco, pequena demais para meu corpo


Deixando espaço vazio e tecido cicatricial onde


deveriam crescer flores, estrelas e todas essas


outras coisas que garotas bonitas levam


no peito.


Preocupo-me com a hipótese de dizer tantas vezes


ao meu namorado que não me sinto bonita


que um dia ele vá concordar e parar


de tirar todas aquelas fotos minhas que ele tira


quando a gente sai para jantar


Preocupo-me porque acredito naquela coisa toda


de que palavra tem poder


e porque aterrorizar-me com meus próprios


pensamentos faz parte do meu dia a dia.


E é tudo tão difícil o tempo todo


e sinto-me tão superficial por ser tão


“preocupo-me” por coisas tão supérfluas


mas nada parece supérfluo e é tudo tão


difícil o tempo todo.


Preocupo-me com a indefinível


infinita lista de coisas que sempre tenho a fazer


Preocupo-me com o quão fácil é exaurir-me


para evitar-me, exaustão como válvula de escape


de mim mesma.


Preocupo-me com esse meu estado fantasmagórico


Físico e mental —


E preocupo-me, ainda,


com o quão idiota isso tudo vai soar


Quando eu me sentir um pouco melhor, em um dia


ou dois, uma hora ou duas, quinze minutos ou vinte


E meu cabelo for só cabelo


E as minhas orelhas forem só orelhas


E tudo for só supérfluo.


Autoria: Anna Cecília Serrano


Revisão: Artur Santilli e André Rhinow


Imagem de capa: The Studio Mirror, por Charles Martin Hardie, c. 1916, óleo sobre tela

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Anna Cecília Serrano

Foi da Gazeta por menos de 1 mês

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