Qual é o aesthetic de São Paulo?
Discussão sobre a natureza conflitante da evolução da identidade dos edifícios da cidade de São Paulo.

Qual é o aesthetic de São Paulo? Se a cidade pudesse escolher por si mesma, ela escolheria se apresentar como o centro financeiro e comercial da América Latina ou trendsetter cultural e promotora de justiça social? Pela perspectiva arquitetônica, temos nossa resposta: São Paulo superou a fase da promoção de igualdade e direito à cidade e agora seu grande investimento de autocuidado está nos prédios espelhados da Faria Lima, que escondem todo seu interior. Ou seja, São Paulo quer ser mais um James Dean misterioso, mas sem a face disruptiva, rebelde e anticapitalista.
A mais clara expressão dessas personalidades mora na arquitetura. O que é construído: casa, escritório, estações de trem? Para quem? Onde? Com quais materiais? Por quem? Por que? Qual é o estilo?
São essas perguntas que levam a uma análise frutífera do espaço geográfico da cidade. Assim, imagine dois objetos de estudo: o Copan e um prédio genérico habitante da Av. Faria Lima. Cada um é símbolo de uma era de São Paulo, uma janela da alma da cidade.
O Copan não foi projetado para parecer discreto. A forma em “S” não é só estética, mas uma escolha funcional que contribui para a ventilação e a iluminação dos apartamentos. Niemeyer sabia que uma linha reta numa cidade é quase uma mentira, uma recusa de admitir que o espaço urbano existe de forma irregular. O concreto armado aparece sem revestimento que o esconda, e os brise-soleils horizontais que percorrem toda a fachada ondulada não são apenas proteção solar – eles criam ritmo e textura que só fazem sentido vistos de longe. De perto, o edifício é quase opressivo: são 32 andares distribuídos em seis blocos, 1.160 apartamentos, aproximadamente 5 mil moradores – tudo isso contido numa curva única que corta o centro como se o espaço urbano tivesse sido dobrado à mão. O brise-soleil contínuo protege os apartamentos do sol direto e garante ventilação cruzada, mas o efeito visual que produz é de uma fachada que respira, que tem profundidade, que admite sombra e humanidade com uma honestidade brutal. O Copan diz o que é e se impõe na paisagem urbana sem medo de ser disruptivo.
Acontece que os tempos mudaram, o país viveu o “milagre econômico”, o capitalismo pulou fases e as demandas tecnológicas dos prédios já não são mais as mesmas. A centralidade comercial transita da região central para a região oeste. Além disso, a inauguração da modernidade líquida e da sociedade do cansaço não trouxe crise apenas para os humanos, mas também para suas criações.
O prédio médio da Faria Lima não tem curva, nem concreto aparente. Tem espelho. A lógica construtiva que domina a avenida é a do curtain wall: a engenharia que viabiliza os ângulos positivos e negativos das fachadas e a forma como a estrutura encontra o vidro, tudo calculado para que a superfície externa seja o mais minimalista possível. Os espelhos criam uma película fina entre o interior climatizado e a cidade lá fora. O resultado é uma arquitetura que recusa ter interior visível, com a fachada de vidro refletindo o céu, os carros, o prédio do lado, os pedestres – reflete tudo menos a si mesma. Por trás dos vidros espelhados, a tecnologia trabalha para otimizar luz, calor e eficiência energética, mas o efeito estético que produz é de ausência. A transparência vira opacidade. O vidro, paradoxalmente, esconde mais do que o concreto.
Se o Copan tem peso, textura e sombra própria, o espelhado da Faria Lima tem leveza fabricada e reflexo alheio. Um anuncia sua presença; o outro desaparece atrás do que está ao redor. A transição entre os dois não é estética, mas uma mudança de discurso sobre o que um edifício deve fazer numa cidade, sobre se ele deve ter identidade própria ou servir de superfície para a identidade dos outros.
Revisado por Erick Martins

