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Poder e Política

Qual o futuro de trump e do partido democrata?

Mateus Getlinger discute o contexto atual da política norte americana e o processo de impeachment contra o presidente Donald Trump.

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Ornito Vargas

7 min de leitura

2 de outubro de 2019

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Na última terça-feira 24, Nancy Pelosi, a presidente democrata da Câmara de Representantes dos EUA, anunciou a abertura de um processo de impeachment contra o presidente dos EUA, Donald Trump. O processo tem base em um telefonema realizado em 25 de julho do mesmo ano com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no qual, de acordo com a transcrição apresentada, Trump pressionou Zelensky para que trabalhasse em conjunto com Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York e advogado pessoal de Trump, e William Barr, atual secretário de Justiça americano, para investigar a conduta de Hunter Biden enquanto exercia cargo no conselho da empresa de gás natural ucraniana, Burisma Holdings. Hunter é filho de Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e principal candidato democrata para as eleições presidenciais de 2020, com 31% das intenções de voto. Para intensificar a pressão, Trump teria congelado um repasse de US$ 400 milhões em ajuda militar para a Ucrânia, que já havia sido previamente aprovado pelo Congresso americano.


Trump alega que Joe Biden praticou abuso de poder enquanto exercia seu cargo, sugerindo que o vice-presidente pressionou autoridades ucranianas na época a largarem uma investigação criminal que poderia atingir seu filho, o que resultou na demissão do procurador ucraniano responsável pelo caso, Viktor Shokin. De acordo com relato do próprio Joe Biden, o vice-presidente teria congelado quase US$ 1 bilhão em auxílios, caso Shokin não fosse demitido, na época sob justificativa internacional, apoiada por outras potências ocidentais e pelo FMI, a respeito de sua inação sobre casos de corrupção dentro do país.


Toda essa situação está baseada no fato de que a diplomacia americana trabalhava ativamente naquele ano para afastar a Ucrânia da esfera de influência da Rússia e aproximá-la da União Europeia e dos EUA, tendo o gás natural e a matriz energética do país como pilar central na disputa.


Entretanto, ainda não foi apresentada nenhuma evidência sólida de que Hunter Biden tenha cometido qualquer infração. Além disso, o promotor ucraniano que substituiu Shokin, e que continuou as investigações sobre a Burisma, divulgou agora em setembro que não acreditava que Hunter fosse culpado.


Portanto, a acusação dos democratas é de que Trump praticou abuso de autoridade para incitar um líder estrangeiro, a fim de prejudicar significativamente seu principal adversário político interno e principal desafio à sua tentativa de reeleição em 2020.


A história como um todo é bastante complexa e com diversos atores envolvidos, mas uma coisa é certa: similar ao escândalo Trump-Rússia, a saga do impeachment de Trump está abrindo um novo capítulo na política americana.


É evidente que o processo traz um claro risco para a máquina de Trump e para o Partido Republicano como um todo, no sentido que pode representar a queda de um de seus líderes mais emblemáticos, comprometendo seriamente as prospecções do partido para as próximas eleições, mas os riscos também são especialmente altos para o próprio Partido Democrata.


Um processo de impeachment sempre é uma questão difícil em um país, uma vez que não envolve apenas questões ideológicas e partidárias, mas também questões de continuidade e estabilidade do poder. A queda de um presidente pode dividir um país, colocar o mesmo em recessão, impedir reformas e propostas por mudança de agenda, entre outras consequências. Por esse motivo, o impeachment é visto muitas vezes como o último recurso legal para a retirada de um governante.


O processo de impeachment pode provar ser extremamente desgastante e laborioso para o Partido Democrata, uma vez que as audiências na Câmara podem sair de seu controle e se arrastarem por meses, atingindo poucos resultados tangíveis, assim como observamos com o Mueller Report. Também não é estranho imaginar que congressistas republicanos irão causar o máximo de confusões e polêmicas em cima do caso, a fim de deslegitimar os esforços democratas. Dessa forma, essas audiências podem entrar numa espiral de complicações processuais, fazendo com que os congressistas democratas corram o risco de sair com uma imagem de ineficiência e inconclusão e, mais importante, de estarem obcecados com a destruição de Trump, garantindo uma perda de legitimidade no processo.


Dessa forma, correm o risco de ficarem marcados para o eleitor comum como um partido que está preso numa disputa partidária (ou como Trump coloca, “uma caça às bruxas”), ainda ressentido com o resultado eleitoral de 2016, e que, portanto, não está gastando esforços para questões mais urgentes como ampliar a infraestrutura do país ou garantir mais empregos. É o bom e velho argumento de estarem “impedindo o presidente de governar” que temos visto cada vez mais por aqui, mas que prova ser bastante efetivo para esse tipo de narrativa política.


Além disso, o impeachment já ameaça ser um processo falho desde seu início, uma vez que, mesmo que o processo seja aprovado na Câmara, de maioria democrata, o Partido Republicano detém 53 das 100 cadeiras no Senado americano, numa situação em que é necessário atingir maioria qualificada (⅔ do total da casa legislativa) para a aprovação. Porém, reduzindo a questão para um foco eleitoral, é possível que a estratégia democrata não seja, de fato, o impeachment do presidente Trump, mas uma condenação e denúncia de seu abuso de autoridade, minando o apoio ao governo e Partido Republicano como um todo, garantindo melhores condições nas eleições que estão por vir. Os democratas precisarão ser extremamente cautelosos e estratégicos em como conduzir essa investigação para que não saia de seu controle. Estamos vivendo um verdadeiro teste de stress da democracia americana.

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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