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Cultura

Quem torna a arte moral?

A autora discute a atribuição da moral à arte

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Lara Celani

10 min de leitura

28 de abril de 2026

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Obras de arte polêmicas sempre estiveram presentes ao longo da história. Em diferentes contextos, produções artísticas despertaram fascínio e desconforto, admiração e repulsa, muitas vezes sendo recebidas menos como simples objetos de contemplação do que como focos de disputa. Não raramente, aquilo que em um primeiro momento parece ofensivo, perturbador ou inaceitável passa, com o tempo, a ocupar um lugar de prestígio cultural, sem que o incômodo que provoca desapareça por completo. Essa oscilação revela que a relação entre arte e moralidade está longe de ser evidente e ajuda a explicar por que tantas obras continuam mobilizando debates mesmo décadas ou séculos após sua criação. 


Mas, afinal, como determinamos o valor moral de uma obra de arte? A resposta mais intuitiva seria recorrer às intenções do autor. Supõe-se, quase automaticamente, que é ele quem define o sentido de sua obra e, portanto, seu posicionamento moral. No entanto, essa associação está longe de ser estável. Como propõe Roland Barthes, para que a escrita comece, o autor precisa “morrer”. Ao abrir mão de controlar o significado de sua obra, ele transfere ao leitor a responsabilidade pela interpretação e, com ela, a atribuição de sentido. Se o significado da obra não está fixado em sua origem, mas se constrói na leitura, então seu valor moral também se torna instável. Aquilo que para um espectador pode funcionar como crítica, para outro pode soar como validação ou, até mesmo, como fetichização. Assim, o valor moral de uma obra passa a depender da interpretação do leitor.  


Essa instabilidade pode ser explorada no romance Lolita, de Vladimir Nabokov, publicado em 1955. O livro narra a obsessão de Humbert Humbert por Dolores Haze, uma menina de doze anos, a quem ele passa a chamar de “Lolita”. A história é contada pelo próprio Humbert, cuja linguagem elaborada e persuasiva contrasta com a violência de seus atos, fazendo com que o horror narrado seja constantemente mediado pela retórica do narrador. Justamente por isso, o valor moral do romance não pode ser fixado nem pelas intenções de Nabokov, nem pela voz de seu narrador. Para alguns leitores, a obra funciona como crítica à manipulação narrativa e à autojustificação de Humbert, enquanto que, para outros, essa mesma elaboração formal pode soar como estetização ou atenuação da violência que estrutura o texto. O ponto central, portanto, não é apenas que a recepção de Lolita mudou com o tempo, mas que seu sentido moral sempre dependeu da leitura. Não por acaso, o romance foi inicialmente cercado por escândalo, censura e forte resistência editorial, ao passo que, mais tarde, consolidou-se como um clássico literário, ainda que sob interpretações bastante distintas. Assim, Lolita evidencia a tese de Barthes de que o significado de uma obra não permanece em sua origem, mas se constrói na interpretação, tornando também instável o valor moral que lhe é atribuído. 


Se Barthes mostra que o sentido moral de uma obra não pertence de forma estável ao autor, Susan Sontag permite avançar um passo além, ao sugerir que a própria interpretação pode funcionar como uma estratégia de conservação. Para ela, quando uma obra se torna incômoda para leitores ou espectadores posteriores, mas permanece valiosa demais para ser descartada, a crítica tende a reformulá-la, apresentando como seu “verdadeiro sentido” aquilo que a torna novamente aceitável. Algo semelhante ocorreu com Olympia, de Édouard Manet. Recebida no Salão de Paris como indecente e escandalosa por retratar uma mulher nua (“Olympia”) deitada em uma cama com certos detalhes que a identificavam como uma prostituta. A pintura foi posteriormente reinterpretada pela crítica como marco da modernidade, ruptura com a tradição acadêmica e denúncia da hipocrisia burguesa. Nesse caso, a interpretação não apenas esclarece a obra, mas a preserva, uma vez que converte aquilo que antes parecia simples ofensa moral em objeto legítimo de contemplação estética e reflexão social. Assim, o valor moral da arte não varia apenas porque o autor perde o controle sobre o sentido, mas também porque cada época produz as leituras necessárias para manter certas obras vivas. 


Se, até aqui, ficou evidente que o valor moral de uma obra não é estável, nem pode ser garantido pela intenção do autor ou pela leitura de uma época, então talvez seja preciso deslocar a própria pergunta. Em vez de insistir apenas em saber se uma obra é moral ou imoral, crítica ou apologética, torna-se necessário questionar se a arte deve, de fato, ser submetida a esse tipo de julgamento. Afinal, se o sentido se constrói na leitura e se a interpretação pode, inclusive, reformular uma obra para preservá-la, o valor moral parece algo projetado sobre ele pelos leitores e espectadores. É justamente nesse ponto que o prefácio de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, se torna relevante, pois nele a discussão deixa de girar apenas em torno da instabilidade do valor moral da arte e passa a colocar em dúvida a própria legitimidade de utilizá-lo como critério de avaliação estética. 


Wilde, com forte traço esteticista, defende que não existe arte moral ou imoral. No prefácio, o autor traz várias ideias que dialogam com Barthes e Sontag. Logo no início, Wilde já afirma que aqueles que encontram significados disformes em coisas belas são corruptos, e que a arte deveria ser julgada por sua beleza. O autor ainda diz que existem apenas livros bem ou mal escritos, e não morais ou imorais, novamente negando a aplicação de valores sobre uma obra. Essa lógica se assemelha à de Sontag, uma vez que a autora critica a extrapolação da interpretação. Além disso, Wilde também argumenta que a interpretação excessiva desfigura a arte, pois desloca a atenção daquilo que ela é para aquilo que o espectador deseja extrair dela. Ao afirmar que “toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo” e, sobretudo, que “o que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida”, Wilde sugere que o sentido da obra não está fixado nem em sua forma imediata nem na intenção do autor, mas se realiza no olhar de quem a recebe. É justamente nesse ponto que ele se aproxima de Barthes. Se, para Barthes, a unidade do texto não está em sua origem, mas em seu destino, isto é, no leitor, então o significado da obra depende menos da intenção autoral do que da leitura que dela se faz. Assim, tanto em Wilde quanto em Barthes, o autor perde o controle soberano sobre o sentido da obra, que passa a ser moldado pelo espectador; a diferença é que Wilde mobiliza essa ideia para ir além e questionar a própria legitimidade de submeter a arte a critérios morais, sugerindo que julgá-la como moral ou imoral talvez seja, desde o início, um erro de perspectiva. 


Isso não significa, porém, que a moralidade desapareça por completo da arte, mas apenas que ela deixa de funcionar como uma propriedade estável, inscrita definitivamente na obra. Se Barthes mostra que o sentido se produz na leitura, Sontag evidencia que cada época reinterpreta as obras de modo a torná-las novamente assimiláveis, e Wilde questiona a legitimidade de julgá-las por critérios morais, então a consequência comum entre esses autores é o deslocamento da moralidade do interior da obra para sua recepção. Nesse sentido, a arte não é moral ou imoral em si mesma; ela se torna objeto de disputa moral conforme os valores, interesses e sensibilidades dos espectadores que a leem, observam e interpretam. Assim, o debate sobre a moralidade da arte deixa de ser sobre as “intenções do autor”, como muitos assumiriam, e passa a ser sobre os regimes de leitura que cada sociedade projeta sobre elas. 


Referências

BARTHES, Roland. The death of the author. In: BARTHES, Roland. Image, music, text. New York: Hill and Wang, 1977. p. 142-148.

PEREIRA, Ulisses Alberto. Manet, transgressor? Um ensaio sobre Olympia (1863). Anãnsi: Revista de Filosofia, Salvador, v. 5, n. 1, p. 75-80, 2024.

SONTAG, Susan. Against interpretation. In: SONTAG, Susan. Against interpretation and other essays. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1966. p. 4-14.

WILDE, Oscar. O prefácio. In: WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Tradução de Paulo Schiller. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. p. 5-6.  



Revisado por Erick Martins

Escrito por

Lara Celani

Há 6 meses na Gazeta

“To define is to limit” - Oscar Wilde

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