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Crônica

Querido Paulinho, voltei

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”
- Sampa, Caetano Veloso

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Maria Luiza Uchida

4 min de leitura

17 de junho de 2026

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Querido Paulinho, voltei.


Fazia um pouco de tempo que não nos víamos. Eu sei, desculpe, tive que partir.

Acontece que sou passageira, que me renovo; e você – bom – você tem passado por tempos difíceis.


Não sou eu, é você. Você que ficou nessa mania de cortar árvores e cimentar grama. Pode admitir, você queria que eu fosse embora. Desistiu da sua proteção, seu “cinturão verde”. Você conquistou o céu. Se achou dono do mundo e desrespeitou meu espaço, minha intimidade.


Saiba que eu não fui embora porque quis. Você que foi me empurrando e empurrando até eu descer a serra. Me trocou pela tempestade. Ela é intensa, te abarrota de todas as sensações. Você insiste em dizer que ela te renova, te limpa. Eu duvido muito. Você sempre sai um pouco mais miserável. 


Enfim, sente falta de mim no Carnaval? Eu sei que você não quer ela por perto quando chega a semana da folia em São Paulo. Que reza para ela não vir, pulveriza água nas represas na esperança que ela não saia de lá? E eu?


Você pode até fingir que gosta da ardência e calor do sol, mas você me quer. Você joga água no chão me procurando, como se meu frescor pudesse ser substituído por uma mangueira de bombeiro.


Hoje, ela também não te satisfaz. Você tenta empurrar ela usando as mesmas estratégias que usou contra mim. Pensa que não vejo? Você corta as árvores centenárias com medo que ela às derrube antes. Você constrói mais prédios. Faz mais avenidas. Compra mais carros. Na tentativa errônea que ela parta. Você sabe que esse tipo de mulher é atraída pela distância emocional, não sabe?


Não sei se ficou surpreso quando fui embora. Talvez tenha ficado aliviado. Talvez, a visão clareou e a névoa da nossa paixão deixou de atrapalhar sua gana pelos negócios. Eu sempre tive esse efeito em você, de te fazer querer ficar na cama, de preguiça; de deixar o futuro pro futuro, o passado enterrado e o presente em um transe gostosinho em que o trabalho não é tão importante assim e a vida finalmente se centra em você. 


Você preferiu os extremos. Você quis a ardência absurda e as sensações abundantes. Você esqueceu de mim. 


Você esquece que amor não é só o calor, o sol, o cimento e as milhões de janelas podem até te abraçar. Mas nenhum tem carinho que se compare com o meu frescor. Eu sou  o desconforto, o empurrão, eu sou a única que tem coragem de te dar o impulso que você precisa para sair da rotina, eu sou a sua liberdade.


O amor não é só fogo – mesmo que ele arda sem se ver. O nosso amor era molhado. Meu beijo era envolvente e eu enrolava seu corpo, vestido ou não, me aproveitando de cada dobrinha, com cautela e leveza. Eu podia ser fria, mas você me aceitava; e você podia fugir de mim, mas eu corria atrás. 


Seus relacionamentos, cada vez mais quentes, me destroem, você sabe. Eu já não tenho forças. Fico te sobrevoando esperando meu momento, que nunca vem. 


Paulinho, você destruiu todas as minhas bases, me estrangulou até eu ir embora. Mas, se você quiser, eu volto. Plante as sementes da mudança. Esfrie um pouco a cabeça. Eu volto para que a gente viva nossos dias célebres. Por que um dia já andamos juntos no bonde. Um dia já te abracei pra você poder fugir do mundo. Um dia já te chamaram de meu. Lembra, meu bem? Terra da garoa?


Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Maria Luiza Uchida

Há 1 mês na Gazeta

Gosto de atualidades e artigos, mas tenho muito orgulho de ser no país das crônicas

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