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Relato Pessoal

Relatos de uma desistência revogada

O texto aborda uma discussão sobre o uso de inteligência artificial e a criatividade humana pela perspectiva de alguém que teve seu trabalho roubado.

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Ornito Vargas

9 min de leitura

21 de maio de 2026

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O início da minha relação com a arte foi pautada pela ética do esforço. Fui educada sob a premissa de que a excelência nas artes visuais e na escrita não era um subproduto do acaso, mas o resultado de uma disciplina quase ancestral: o domínio da técnica, a maturação do olhar e o respeito pelo tempo necessário para que uma ideia ganhasse corpo. Essa trajetória de anos de dedicação foi abruptamente confrontada pela lógica predatória da automação contemporânea. O momento em que testemunhei um trabalho autoral meu ser reduzido a um mero template para um “artista de IA”, que utilizou minha própria obra para gerar uma cópia nos comentários de minha postagem, marcou o fim de uma era.


Aquele instante não representou apenas a perda de uma imagem, mas a invalidação de uma comunidade, de um propósito construído ao longo de anos. O recuo das redes sociais e a desativação de minhas plataformas não foram atos de rendição, mas de preservação; uma recusa consciente em continuar alimentando a máquina que agora atua como o carrasco das paixões humanas. Minha experiência, infelizmente, é o sintoma de um mal maior: os modelos de treinamento de IA não foram concebidos para colaborar com a criatividade, mas foram, por definição, desenhados para serem predatórios, operando através da expropriação sistemática do trabalho alheio em nome de uma eficiência sem alma.


O pilar fundamental da crise ética da IA reside na composição de seus conjuntos de dados. Modelos de linguagem e difusão não “criam” a partir do vazio; eles processam bilhões de parâmetros extraídos de obras protegidas por direitos autorais, capturadas sem o consentimento, o crédito ou a remuneração dos autores originais. Diferente do aprendizado humano, que se dá pela inspiração e pela vivência cultural, a IA opera através da decomposição matemática de estilos. Quando um algoritmo replica a estética de um ilustrador vivo ou a cadência de um escritor contemporâneo, ele não está exercendo influência artística; ele está executando uma concorrência parasitária. O artista, involuntariamente, forneceu a matéria-prima para a ferramenta que agora ameaça sua subsistência econômica e sua identidade autoral.


A automação da escrita e do desenho impõe uma lógica industrial àquilo que deveria ser uma manifestação da subjetividade. Ao priorizar a eficiência e o volume, o mercado começa a substituir a “Arte” pelo “Conteúdo”. O resultado é a proliferação de simulacros, imagens e textos que possuem a forma da arte, mas carecem de sua substância. A produção humana é inerentemente marcada pela intencionalidade, pela falha e pelo contexto histórico. A IA, por outro lado, oferece apenas a média probabilística do que já foi feito. Essa homogeneização estética não apenas precariza o trabalho de iniciantes, eliminando as portas de entrada para novos talentos, como também condena a cultura a um estado de estagnação, onde o futuro é apenas um rearranjo algorítmico do passado.


Mas o que essa violência silenciosa me tirou foi algo mais íntimo do que qualquer direito legal poderia nomear. Durante anos, o ato de criar foi o único espaço onde eu era, irredutivelmente, eu mesma. Não enquanto profissional, não enquanto marca, mas enquanto ser humano em processo. Cada linha torta, cada proporção ainda imperfeita, cada vazamento de tinta não planejado — essas eram as marcas do tempo passando pelo meu corpo, do olhar se refinando, do esforço se acumulando em algo que só eu poderia ter feito, porque só eu havia vivido o que me levou a criar. A arte era o registro insubstituível do meu crescimento; um diário que não se escrevia com palavras, mas com a distância entre quem eu era e quem eu estava me tornando. Quando vi essa distância ser apagada por um modelo que não tem passado, que não cresce, que não aprende da forma como os seres vivos aprendem — através da dor, do erro e da repetição paciente —, parei de desenhar. Não por derrota ou por falta de técnica. Parei porque o sentido havia sido roubado junto com a imagem.


Existe uma crueldade particular em perder aquilo que fazia você se sentir humano. Não me refiro à humanidade abstrata dos filósofos, mas à humanidade concreta e cotidiana: a de acordar com vontade de fazer alguma coisa, de lutar com ela, de abandoná-la, de retomá-la, de reconhecer na obra finalizada o produto do seu esforço. O desenho e a escrita eram isso para mim. Eram os lugares onde meu corpo e minha mente negociavam entre si sem intermediários e sem algoritmos. A IA não apenas competiu com o produto do meu trabalho; ela colonizou o processo pelo qual esse trabalho se tornava significativo. Ao transformar o estilo numa equação, ela sugeria que aquilo que eu acreditava ser a minha voz era apenas uma função matemática da cultura que me cercava. E por um tempo eu quase acreditei nisso. Por um tempo, o silêncio pareceu a única resposta digna.


Recentemente voltei a desenhar e a escrever. Não porque o ambiente mudou, mas porque ele piorou. Voltei porque compreendi que o silêncio também alimenta a máquina, à sua maneira; que a ausência de vozes humanas no espaço público não o torna mais limpo, apenas mais vazio, e o vazio é preenchido por quem não precisa de descanso, de dúvida, de inspiração. Voltei como um ato de resistência deliberada, com a clareza de que resistir, neste contexto, não significa produzir mais ou melhor do que a IA, pois essa é uma batalha perdida nos termos em que ela foi formulada. Resistir significa recusar os termos. Significa insistir em que a lentidão tem valor, que o erro é informação, que a linha que minha mão traçou hoje é a prova de um corpo que existe no tempo e que por isso é diferente de tudo que existiu antes. Minha imperfeição não é o que me separa da excelência, mas o que me separa da automação.


Aprendi a olhar para as falhas do meu processo com uma espécie de afeto que antes me era impossível. A sensação de ansiedade após um período sem praticar, a perspectiva que ainda escapa em determinados ângulos, o texto que arranha antes de fluir — cada uma dessas imperfeições é o rastro de alguém que aprendeu por vivência, que internalizou pela repetição e que carrega no gesto a memória de todas as tentativas anteriores. Uma IA não treme. Uma IA não precisa recomeçar. Uma IA não conhece o medo específico de retornar a algo que foi abandonado por dor. E é precisamente essa incapacidade que define a fronteira entre o processamento e a experiência. 


Se aceitarmos que o trabalho intelectual pode ser minerado livremente para alimentar lucros corporativos sob o pretexto de “progresso”, estaremos decretando o fim da propriedade intelectual para o indivíduo. A proteção do direito autoral não é um obstáculo à inovação, mas a última defesa do criador contra a hegemonia das máquinas. A vitória final da IA não será a superação da genialidade humana, mas a nossa própria apatia em aceitar o medíocre. Sem uma estrutura que valorize o esforço humano e o consentimento, a arte deixará de ser uma ponte entre consciências para se tornar um mero eco de um banco de dados inerte. O que resta, ao fim, é uma pergunta incômoda: que valor terá a expressão humana em um mundo onde o ato de criar foi reduzido a um comando de processamento? Para mim, a resposta é a prova de que ainda há algo que a máquina não pode fazer por mim: existir.


Revisado por Equipe de Revisão e Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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