top of page
Reportagem

Resiliência Econômica: O efeito controversamente esperado da retaliação internacional

A reportagem retrata o efeito contrário esperado pelas políticas de sanções e isolacionistas aplicadas pelo Ocidente Global em países opositores. Estes países adaptariam e resistiriam a punições.

IMG_0955.jpeg

Ornito Vargas

7 min de leitura

29 de maio de 2026

767c98_0ad94c104822456680342c1363c46344~mv2.png

Ao induzir um Estado a criar estruturas capazes de superar sanções internacionais, a retaliação externa pode produzir um efeito paradoxal: aqueles que conseguem sobreviver ao risco iminente de colapso decorrente do isolamento tendem a se tornar mais resistentes a futuras pressões. Visto que alguns dos países que desafiaram o domínio ocidental perseveraram, a hegemonia americana já não exerce a mesma capacidade incontestável de coerção. Mesmo que a resistência ao isolamento não seja um fenômeno novo em si, sua recorrência dentro da própria ordem liberal indica um enfraquecimento de seus mecanismos de controle ou, ao menos, o surgimento de válvulas de escape para determinados Estados. Nesta reportagem, busco demonstrar, por meio de casos contemporâneos de isolamento internacional, como alguns países têm se tornado menos suscetíveis a ceder às pressões externas ou sequer a sofrer significativamente em decorrência delas.

Como a emergência de novas potências rivais aos Estados Unidos permite que Estados criem cadeias de valor externas ao poder estadunidense, o enfraquecimento do poder coercitivo do antigo sistema unipolar se mostra cada vez mais evidente. Ao passo que Estados já não precisam necessariamente se submeter às exigências ocidentais para se manterem inseridos em um sistema amplo de cooperação econômica e comercial, tanto a hegemonia ocidental quanto a própria ordem liberal passam a apresentar sinais de deterioração. Dado que países sancionados agora conseguem redirecionar fluxos comerciais, financeiros e logísticos para polos alternativos de poder, o isolamento internacional deixa de representar uma condição inevitável de asfixia econômica. Apesar de as sanções continuarem produzindo impactos, sua capacidade de compelir Estados à submissão política se reduz à medida que surgem novos centros de influência capazes de absorver parte dessas economias marginalizadas. A resiliência econômica de determinados países não decorre, então, apenas de suas capacidades internas de adaptação, mas também da transformação estrutural do próprio sistema internacional, que já não concentra poder suficiente em um único eixo para impedir completamente a sobrevivência de Estados isolados.

Ainda que o fenômeno da sobrevivência ao isolamento não seja novo na história, sua permanência dentro da ordem liberal contemporânea revela uma transformação no cerne do funcionamento do sistema internacional. Dado que o isolamento econômico foi historicamente concebido como um instrumento capaz de conduzir Estados à submissão política ou ao colapso econômico, o tabu de ir contra os interesses do Ocidente prende os Estados a tal. A Coreia do Norte permanece isolada internacionalmente desde sua criação e, ainda assim, conseguiu preservar seu regime político mesmo sob sucessivas ondas de sanções e embargos, o que demonstra que, embora as restrições econômicas possam limitar o desenvolvimento de um país, elas não necessariamente produzem rendição política. O caso norte-coreano costumava ser interpretado como uma exceção extrema, especialmente porque sua sobrevivência esteve associadaao contexto internacional das dinâmicas da Guerra Fria, anterior à consolidação plena da ordem liberal contemporânea. O cenário atual, porém, sugere que essa capacidade de adaptação deixou de ser percebida apenas como uma anomalia isolada, visto que diferentes Estados passaram a explorar formas de reduzir sua dependência em relação às estruturas econômicas dominadas pelo Ocidente.

A Rússia surge como um dos exemplos mais significativos dessa tentativa contemporânea de reduzir sua dependência econômica em relação ao Ocidente, especialmente porque as sanções impostas ao país aceleraram a necessidade de construir mecanismos alternativos de financiamento, comércio e circulação de recursos. Após a invasão da Ucrânia em 2022, o país foi alvo de uma das maiores campanhas de sanções econômicas já coordenadas pela comunidade internacional, envolvendo congelamento de reservas, exclusão parcial do sistema financeiro internacional e severas restrições comerciais. Ainda assim, a economia russa não colapsou, já que Moscou ampliou relações comerciais com países como China e Índia, fortaleceu mecanismos financeiros alternativos e reorganizou suas cadeias de exportação energética para mitigar parte dos efeitos das restrições ocidentais. Esses movimentos permitiram que o país reduzisse parte de sua vulnerabilidade ao sistema econômico liderado pelos Estados Unidos e pela Europa, indicando que o isolamento econômico talvez já não possua a mesma capacidade automática de sufocamento observada em períodos anteriores. Sob essa lógica, a experiência russa não aparece necessariamente como um caso isolado, mas como parte de uma tendência mais ampla de adaptação econômica diante da pressão internacional.

O Irã parece seguir um caminho semelhante de adaptação e sobrevivência diante da pressão internacional: as décadas de sanções econômicas forçaram o país a desenvolver mecanismos alternativos para sustentar sua economia e suprir suas necessidades logísticas e comerciais. Submetido a restrições econômicas, especialmente por parte dos Estados Unidos, o Irã aprofundou relações com potências não ocidentais. Ainda que essas estratégias não tenham eliminado os impactos negativos das sanções, elas ajudaram o Estado a evitar o colapso da falta de suprimentos econômicos que o próprio Irã não produzia. Ainda que as restrições tenham provocado inflação, desvalorização monetária e dificuldades econômicas significativas, elas não foram suficientes para produzir o colapso político do regime iraniano nem para forçar uma completa submissão às exigências ocidentais. O período sob isolamento teria contribuído para consolidar uma estrutura econômica parcialmente adaptada à restrição internacional.

A manutenção dessa tendência de desafio à ordem liberal e à hegemonia ocidental se torna incerta à medida que depende não só da resiliência individual de cada Estado, mas também da política externa dos EUA. Por mais que a capacidade dos Estados que seguem o caminho da independência da comunidade internacional seja um fator cerne, a política externa que os EUA definem para com esses muda o cálculo das melhores atitudes. Com os Estados Unidos aplicando tarifas e sanções sistematicamente em diversos países, um maior número de países se vê inserido no jogo que os leva a decidir entre lutar ou ceder ao hegemon. Por outro lado, em um sistema onde os Estados Unidos aplicam menos sanções, resultados mistos podem surgir à medida que Estados calculam individualmente os riscos e ganhos de se manterem mais dependentes da comunidade internacional. Aqueles que creem em futuras maiores chances de retaliação dos EUA por quaisquer motivos tenderiam, então, a gerar independência, enquanto aqueles que acreditam em menores riscos,a se manter mais dependentes.


Imagem de Capa: Pinterest

Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

Usuário não possui biografia

IMG_0955.jpeg

Últimas Notícias

Textos Populares

bottom of page