Serena Joy, acorde
Uma reflexão sobre o papel da mulher na política e na sociedade — e para onde ele caminha.

O Conto de Aia (1985, e adaptado para a televisão em 2017), de Margaret Atwood, conta a história de Offred – ou June – uma mulher que vive como Aia no regime teocrático e autoritário de Gilead, nação que uma vez havia sido os Estados Unidos da América. Nessa nação, as mulheres não têm direitos, sendo algumas delas – as Aias, existindo unicamente com fins reprodutivos, já que uma catástrofe nuclear tornou boa parte da população infértil – consideradas até mesmo posses do Estado. Offred conta ao leitor seu ponto de vista dos eventos que se desenrolam, desde o período anterior à revolução, perpassando pelos eventos traumáticos de Gilead, até sua fuga e atuação na resistência.
A história das Aias é, sem dúvida, o maior enfoque de análises da crítica e debates do público – e com razão. Mas, desta vez, talvez seja honesto realizar uma abordagem um pouco diferente, olhando para personagens que, muitas vezes, são colocadas de lado pelo telespectador: Serena Joy e as esposas de Gilead.
Serena Joy Waterford é a esposa de um dos maiores comandantes deste Estado distópico, Fred Waterford. Ela é o modelo de uma mulher – quase – perfeita. Inteligente, organizada, fervorosa, devota, obediente, mas cheia de opiniões. Antes da revolução que levou ao Golpe de Estado que instaurou a nova república, Serena era uma apresentadora de televisão em um programa gospel e escritora. Em seu show, comentava sobre o papel de mulheres na sociedade: como se portar, onde devem se intrometer, quais valores devem seguir, como ser uma boa esposa… Escrevia sobre o “feminismo doméstico”, argumentando que a mulheres deveriam abdicar de suas carreiras profissionais e voltar aos cuidados do lar, onde podem desempenhar seu papel biológico e sagrado de reprodução.
Suas ideias ajudaram a criar uma base sólida na mente feminina para que as ideologias impostas pela nova sociedade fossem bem recebidas pelas mulheres que, como ela, se tornariam esposas, e pelo povo no geral, o que possibilitou, de fato, a implementação do novo regime. Para promover suas ideias, Serena organizava comícios, viajava em turnês e exercia uma carreira pública muito bem sucedida. Aqueles que não concordavam com suas colocações achavam que ela era apenas uma pequena parte do todo, que estas não passavam de conselhos espirituais e comportamentais, sem efeitos reais na vida política. Fecharam os olhos, sem perceber que aquelas páginas eram apenas um prólogo do que crescia e se fortalecia nas coxias.
Quando a capital caiu num atentado contra a já fragilizada democracia, Serena Joy estava esperando no corredor da sala de reuniões. Esperando a concretização da ordem de homens poderosos que ela apoiava e ajudava com suas ideias. Eles não a permitiam entrar na sala. Achavam que seria contraditório aos ideais e propostas que eles pretendiam implementar. Ela entendeu, apesar de não concordar com certeza, abaixou a cabeça e esperou.
A liderança de seu grupo sobe ao poder. Joy prontamente se desfaz de todos os seus bens materiais anteriores e veste o verde azulado que representa as esposas de Gilead. Uma simples cor de roupa a diferencia das Aias, das Marthas, das Tias… Uma simples cor de roupa a permite uma sensação e uma posição de conforto. Serena Joy é a esposa perfeita.
Conforme o tempo passa, seu marido se torna cada vez mais distante e não a permite opinar ou sequer conhecer os fatos políticos e diplomáticos que antes decidiam em conjunto. Ela não encontra mais seus livros em livrarias – que, aliás, deixaram de existir – e, de qualquer forma, mulheres não podem mais ler ou escrever. As outras esposas não entendem sua tristeza por não participar da política e não a apoiam – até porque isso não é lugar de mulher. De um dia pro outro, ela precisou aceitar a convivência com uma Aia para realizar o sonho de ser mãe, além da vigilância constante dos Olhos e as restrições à liberdade feminina imposta a todas. O verde azulado de seus vestidos não parece mais tão confortável assim. Ele ganha um novo significado: grilhões. Tanto quanto o vermelho das Aias, ou o cinza das Marthas.
Serena Joy começa a perceber aquilo que todos os telespectadores perceberam desde o início. Sua posição de esposa de um alto comandante é derivada apenas de submissão e talvez um pouco de sorte temporal ou geográfica. Se ela não o tivesse conhecido antes e não tivessem se apaixonado, talvez nem estivesse ali. Será que estaria nas Colônias trabalhando com material radioativo até sua morte solitária e dolorosa como as outras ativistas e escritoras? Quando tenta dar um pequeno passo para reconquistar um direito básico – o de ler e escrever – é mutilada sem escrúpulos pelo próprio marido. Ela percebe que o próprio sistema que ajudou a construir também a limita e submete.
Em agosto deste ano, Olivia Rodrigo expressa esse momento de percepção em sua nova música, nomeada em homenagem a Serena Joy. Na faixa, a cantora utiliza a personagem como símbolo de cumplicidade e complacência com um regime que a oprime, simplesmente pelo conforto da omissão, da aceitação por conveniência ou uma ilusão de proteção e superioridade. O trecho “Yeah, it's all for the cause / For the good of us all / And if you close your eyes / Then it can't be your fault” é quase um sumário da percepção do telespectador sobre a personagem, que se transforma e completa na evolução da música para “Have a Coke and a smile, let me show you a trick / If you can't throw a punch, you can learn how to spit / And we'll never give up, and we'll never submit / Look, the life of your dreams is beyond that cliff”, mostrando que a esposa finalmente se levantou e percebeu aquilo que todos já sabíamos: “If they do it to them, they'll do it to you”.
No fim, Serena Joy é um alerta para as mulheres que acreditam estar em uma posição de poder, falsa e fugaz, geralmente pautada em uma sensação ilusória, inconsciente ou não, de superioridade moral. Nesse cenário, o desejo pessoal de validação e conquista de uma pessoa influente, pode se transformar numa falsa e cega “causa conjunta”, e as paixões violentas influenciadas por ela se convertem em raiva, violência e opressão sobre as mulheres como um todo. Mesmo quando se pensa estar imune às injustiças e às consequências das arbitrariedades de um governo misógino – porque “você não faz nada de errado”, “você está do lado certo”, “você é diferente” – os Olhos esperam o seu próximo passo em falso perante a ideologia deles, quando, então, deixa de ser útil e passa a ser uma ameaça ao sistema.
Até mesmo nos momentos onde Serena busca exercer um mínimo poder torturando sua Aia (Offred/June), é visível que o medo não é o único sentimento na cena. A cada pedido de clemência, a cada olhar doloroso e assustado, é legível o mesmo triste presságio: “Serena Joy, não se engane. Não se deixe levar. Serena Joy…você é a próxima”.
Revisado por Anna Eduarda e Leonardo Maceiras Ferreira
