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Crônica

Taça vazia

A autora parte de um encontro inesperado em um café para refletir sobre amizades femininas, distância e a certeza silenciosa que mantém alguns vínculos vivos ao longo do tempo.

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Lara Celani

5 min de leitura

5 de março de 2026

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Ao fim do ano passado, em 2025, estava tomando um capuccino na Kopenhagen quando notei duas senhoras sentadas próximas a mim. Tomavam café e estavam engajadas em uma conversa. Deduzi que fossem amigas, o que me fez pensar nas minhas próprias amigas. Cafés sempre foram lugares frequentados por mim, por Julia e por Kyra. Nós três. Às vezes tínhamos mais companhia, às vezes não, mas nossa presença era sempre obrigatória. E, quando não estávamos em cafés, estávamos em restaurantes ou na casa da Julia.


Enquanto tomava minha bebida, observava aquelas senhoras pensando em nós. Conforme dava mais goles no café, sentia que elas estavam cada vez mais perto de ir embora. Concluí, então, que precisava conhecê-las. Comecei a tomar goles mais longos e mais rápidos, percebendo que estavam prestes a se levantar. Terminei, peguei minha bolsa, esqueci meu guarda-chuva e acelerei o passo, pois, àquela altura, elas já estavam indo embora. Não tenho o costume de conversar com estranhos, mas, dessa vez, não hesitei em chamá-las.


Seus nomes eram Marisete e Isabel, e eram amigas havia mais de 50 anos. As duas, solteiras e parte do mesmo grupo de amigas, realizavam viagens em grupo com frequência. Em outubro de 2025, quando as encontrei, Marisete estava hospedada no apartamento de Isabel. Disseram que adoravam passear por São Paulo juntas. Seus relatos sobre suas vidas pessoais e sobre a amizade ocuparam minha mente por muito tempo. Uma relação duradoura, independentemente da distância, da idade, da vida.


Amizades femininas são feitas de experiências compartilhadas que, à primeira vista, parecem pequenas, como arrumar-se juntas no quarto, com a música abafando as conversas; trocar elogios no banheiro de uma festa; pedir drinques diferentes quando saem, apenas para que todas possam provar novos sabores; enviar a foto da roupa escolhida perguntando se está bom, se está combinando. O que pode passar despercebido para alguns é o que existe por trás desses gestos aparentemente banais. São as conversas de madrugada sobre os maiores sonhos, as ligações quando não sabemos o que fazer, os silêncios que não constrangem. São também testemunhas das nossas versões antigas, sabem quem fomos, quem tentamos ser e quem estamos nos tornando.


Sempre valorizei minhas amizades, mas, nos últimos anos, tenho lhes concedido ainda mais importância. Quais são as chances de encontrar alguém disposto a compartilhar uma vida com você? Muito se fala do amor romântico ou familiar, mas sinto que o amor platônico nas amizades é, muitas vezes, colocado em segundo plano, tanto em discussões como em nossas próprias vidas. Casamentos e laços consanguíneos tendem a facilitar a manutenção de outros tipos de amor, mas o que consolida o companheirismo daqueles que conhecemos ao longo do caminho, além da disposição de cada um?


Alguns diriam que a frequência é o mais importante, que é ela que consolida uma relação. Creio que seja o completo oposto. Desde que os cafés, os jantares e os encontros na casa da Julia diminuíram, sinto que nossa conexão apenas se fortaleceu. Qualquer conhecido meu sabe quem são “Julia e Kyra”, mesmo quem nunca as viu. Com compromissos e fusos horários diferentes, a comunicação se torna cada vez mais escassa e, mesmo assim, o vínculo parece crescer. Enquanto a distância física aumenta, a certeza cresce na mesma proporção. Antes, eu convivia com a certeza de que, sempre que voltasse para a minha cidade, elas estariam lá. Agora, essa certeza se tornou algo muito maior. Hoje, sei que podemos passar meses sem nos ver, inúmeros dias sem nos falar e nada irá mudar, ainda iremos esvaziar xícaras e taças em cafés e restaurantes. Não há compartilhamento de sangue ou documento em cartório que comprove isso. É apenas um sentimento e, ainda assim, é o suficiente.


Quando corri atrás de Marisete e Isabel naquela tarde, achei que estava apenas sendo impulsiva. Hoje percebo que havia algo mais ali. Talvez eu precisasse confirmar que a certeza desses vínculos sobrevive ao tempo, que cinquenta anos podem passar e, independentemente disso, duas mulheres se encontrem para um café como quem continua uma conversa interrompida no dia anterior. Depois de me despedir delas, caminhei alguns metros antes de lembrar do guarda-chuva que havia deixado para trás. Voltei à cafeteria para buscá-lo. Estava exatamente onde o deixei. Peguei-o e, enquanto caminhava de volta, pensei que talvez a amizade seja isso: a certeza tranquila de que podemos nos afastar por um instante e, ainda assim, nada essencial terá desaparecido.


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira

Escrito por

Lara Celani

Há 4 meses na Gazeta

“To define is to limit” - Oscar Wilde

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