Um Guia Prático do Jovem Performático
Um jovem performático é comumente conhecido como aquele que sempre está inventando um estilo diferente [...], portanto, permitam-me apresentá-los a vocês...

(Música para leitura:
“Foggy Notion” – The Velvet Underground)
Acho que já é do amplo conhecimento da sociedade que vivemos cercados de jovens performáticos. Um jovem performático é comumente conhecido como aquele que sempre está inventando um estilo diferente (provavelmente tirado de um brechó ou do armário de seus avós); escutando a cantores “atemporais”; e, provavelmente, fumando (tal qual um Humphrey Bogart ou uma Katharine Hepburn), enquanto joga diversas referências cult na conversa que todos já deveriam ter ouvido, segundo o mesmo.
Acontece que, para a surpresa da maioria, o jovem performático pode vir de diversas formas, afinal de contas o termo “performático” implica que uma persona é criada (para os propósitos de toda e qualquer interação social relevante). Inclusive, o personagem do jovem performático já existe desde sempre (praticamente uma evolução dos “yuppies” dos anos 80, vide Ana Lívia Lima da Gazeta Vargas!). Ou seja, existem diversas formas de se ser um jovem performático, portanto, permitam-me apresentá-los a vocês:
O Jovem Performático “padrão”
Esse é aquele típico ávido utilizador de ecobags, bonés, camisas de botão floridas ou listradas (na maioria das vezes de linho ou de um brechó qualquer). Aqueles que adoram andar com livros por aí somente para não os ler. Eu admiro o nível de dedicação que todos esses performáticos tem, até por que é necessária grande determinação para não arregaçar a cólica menstrual na porrada assim que a vir pela rua, já que eles não podem sofrer no lugar das mulheres.
Existem os seus jovens performáticos mais de boa, que apenas gostam de cafés superfaturados, ficar olhando museus de arte com ar de mistério, e andar pelo centro (mas só do lado descolado da República). Esses são aqueles que adorariam viver um dia como “Curtindo a Vida Adoidado”, mas não têm esse alvará todo para serem Ferris Buller. Quem sabe um dia eles chegam lá.
Por enquanto, vão se contentando com rolês por Pinheiros, pelo centro ou pela Paulista aos domingos.
Skatistas
São uma espécie de subgrupo dos jovens performáticos “padrão”. Ao mesmo tempo que eles têm de constantemente se ater a um estereótipo sob pena de serem expulsos do parque de skate, eles não têm todas as exigências de um jovem performático (a cólica se safou dessa vez...). Também chamados de City boy/girl, mas que eu prefiro chamar de skatistas porque, no fundo, no fundo, todos eles gostariam de ser skatistas (apesar de que quase nenhum deles é). E não: ter um skate em casa que você só usa para se sentar e deslizar pelo chão não te faz um skatista. Talvez o seu pet sim.
Alternas
Silêncio: eles provavelmente estão escutando grunge, fumando cigarros e usando blusas xadrez. Não exatamente emos, mas não exatamente performáticos, eles não são tão carismáticos quanto os jovens performáticos “padrão” e, honestamente, apenas sairiam de seus quartos sob ameaça de morte.
Alternas e Skatistas, por vezes, acabam se misturando, pois dividem a mesma estética City boy/girl. Entretanto, os alternas escutam exclusivamente rock dos anos 1990 e 2000, julgando ser um dos melhores períodos para a música mundial. De fato, o auge da civilização com sua internet discada (Bi bi bi BIIIIIII), medo do bug do milênio (socorro rede mundial de computadores!!), o golpe do garotão Collor de Mello (o epítome do yuppie brasileiro) e o suposto fim da história (ainda estamos esperando você cumprir sua promessa, Fukuyama).
A verdade é que esses jovens querem apenas ser rebeldes silenciosos. Agora fale de sertanejo universitário para um Alterna para ver o que é rebeldia de verdade.
“Menzinhos” e “Patys” da Faria Lima
Você provavelmente está lendo isso e pensando “mas esse é o grupo menos performático de pessoas que eu conheço”, mas é aí que você se engana. Não há quem aguente uma jaqueta puffer sem mangas ou um par de Birkenstock por tanto tempo sem um forte convencimento mental prévio. A roupa inteira não faz sentido, mas basta ser cool para funcionar.
Esse grupo é um dos poucos que têm o privilégio de ter uma zona especial dedicada a sua existência: a Faria Lima, um local onde podem exercer o máximo de sua performidade sem que ninguém desconfie. Lá eles podem trabalhar no mercado financeiro à vontade, enquanto andam de patinete elétrico e fumam seus vapes (“quanta vergonha”, dizem os alternas). Ao fim do dia, no entanto, eles são os únicos que acabam tirando algum proveito realmente útil de tanta performice: dinheiro. E rios dele.
No geral, inofensivos. O problema é quando eles começam a perceber que, no meio do seu paraíso, eles são só mais um, não são mais jovens performáticos, então começam a brincar com coisas mais pesadas...
Coaches
Uma espécie bem parecida com os menzinhos, só que definitivamente mais irritantes. A diferença principal entre eles é que os Coaches são os malandros, enquanto os menzinhos são os otários. Aliás, somos todos os otários.
Esses são os casos mais graves de performice, porque são aqueles que entraram tanto no personagem que já nem se lembram como eram antes, eternamente forçados a tentar convencer os outros na rua de que o Elon Musk ralou muito duro para chegar onde está e de que você pode fazer R$ 1 milhão em 1 mês, que nem a Betina.
Quer deixar de ser menos otário? É só comprar o curso dele que você descobrirá rapidamente como desbloquear seu mindset.
Pegou a chave? Na verdade, era para um pix.
Adolescentes (Aborrescentes)
Esses daqui talvez sejam os mais azarados de todos, pois não escolhem estarem nessa situação. Acordam no seu aniversário de 13 anos e se deparam com uma cara oleosa, uma voz falha, a beleza de bebezinho da infância indo embora (e, mesmo se não for, ninguém acreditará em você no futuro), e você se tornando, contra a sua vontade, alguém com muitas opiniões sobre tudo e todos. Mas, vai por mim, é melhor ficar quieto.
Um conselho: se você acabou de fazer 18 anos e pensa que saiu dessa fase, tente esquecer que isso aconteceu por uns meses. Afinal de contas, você provavelmente vai, logo em seguida, tomar alguma decisão que vai se arrepender para o resto da vida. Agora, se você acabou de fazer 20 e poucos e acha que, sem sombra de dúvida, já se livrou disso, saiba que basta você começar a querer “falar a real” que tudo volta outra vez.
Jovens senhores e senhoras
O maior prazer da vida desses jovens é reclamar sobre a dor na coluna. Uma dicotomia entre querer que a dor pare, mas que não saberia o que faria se um dia ela de fato parasse de doer.
Se estão se perguntando por que eles seriam considerados jovens performáticos basta verificar se, de fato, a coluna deles tem um motivo para doer tanto. Se sim, então procurem um médico. Agora se não, voilá.
Escritores e artistas
Você provavelmente está lendo isso e pensando “mas esse é o grupo menos performático de pessoas que eu conheço”, exceto que ninguém pensa isso. Aliás, eu diria que esses são os mais irritantes de todos os outros jovens performáticos (não é a atoa que nenhum dos outros aguentam ouvir eles falando). Vivem dizendo que são profundamente instruídos nas mais finas artes e expressões culturais. Esse é o povo que provavelmente se irritou com o Timothée Chalamet pelo comentário sobre o ballet e música clássica esses dias e que tem uma conta ativa até demais no Letterboxd.
Talvez os piores sejam aqueles que acham que sabem mais do que outros só porque leram mais livros (quando, na verdade, eles foram os últimos a descobrir esses mesmos livros e, possivelmente, ainda estão na página 5). Eles costumam criar desculpas desnecessariamente complicadas só para demonstrar como você está out e eles estão in na mais nova artista de jazz contemporâneo, ou no mais novo filme do Wes Anderson, ou no mais novo livro de Fran Lebowitz.
Pior ainda são aqueles que acham que escrevem que nem ela, tentando convencer a todos de que, sim, eu estou certo.
De forma alguma essa se trata de uma lista exaustiva de todos os tipos de jovens performáticos que existem ou poderão existir, mas talvez agora você já esteja mais bem equipado para se aventurar no mundo dessas criaturas fascinantes. Só não se esqueça de trazer seus óculos escuros. Afinal, quando está usando óculos escuros, você poderia ser qualquer um deles!
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Imagem da capa: Clara Gurgel
Revisado por Pedro Anelli Bastos
