Vencemos?
Apesar do resultado eleitoral, a esquerda ainda possui um longo caminho para trilhar.

(Música para leitura:
“Brasil Pandeiro” – Novos Baianos)
A euforia toma conta da gente sem nem nos darmos conta. Subindo lentamente, incendeia a alma, a alegria em sua forma mais pura. Domingo passado, eu estava acompanhando a apuração com o meu pai que, conforme o resultado aparecia cada vez mais cravado, já não ficava tão feliz. Porém, ele também não ficou com raiva, preferiu rir: “Esse país não tem jeito mesmo…” Já eu, por outro lado, comecei a sentir o gostinho da virada desde o começo. Uma hora, eu olhei para ele e imediatamente ele sabia o que se passava na minha mente: “Bom, alguém tem que comemorar, não é?” Ele me deu um abraço e me liberou, e eu sai correndo (literalmente) para a Paulista. Chegando lá, a euforia tomou conta. As bandeiras, os gritos, a incredulidade de todos, foi uma noite muito especial. Mas daí, um novo dia raiou.
Essa vitória de Lula no segundo turno, a primeira vez desde a redemocratização que um candidato que ficou em 2º lugar no primeiro turno consegue virar e garantir a eleição e com a menor taxa de abstenção de um segundo turno da história, representou um feito enorme na história do nosso país: a capacidade de organizar, de se mover e combater ativamente algo que sabíamos ser ruim para nós. Te enche até de um senso de patriotismo que achávamos que havia sido roubado de nós. Porém, no fim do dia, nem tudo está resolvido, e talvez essa eleição ajudou ainda mais a escancarar aquilo que há de mais complexo no campo progressista. Esse texto não servirá para consolar nem para reconstruir um país dividido, mas será uma autocrítica, um momento em que acho que, apesar de tudo, temos muito a resolver ainda.
Apesar da vitória para o cargo mais alto do país, ninguém nunca governa sozinho, e não podemos deixar de lado a outra parte da eleição que talvez importe, se não mais, tanto quanto a de presidente da república: o congresso. Neste ano, elegemos uma significante bancada de direita, com o PL adiquirindo 121 assentos na câmera e 29 no senado, e o centrão (que com uma frequência maior recentemente, tem se alinhado mais a direita) com mais de 200 cadeiras na câmera e mais de 25 no senado. Falando como alguém de esquerda, temos um grande trabalho pela frente para implementar todas as políticas que temos em mente, mas para além disso, acho que deveríamos nos perguntar como foi que chegamos aqui? Em que momento o Brasil caloroso e amigável se virou ao revés para uma terra de tanto ódio e intolerância? Durante esses últimos anos, 8 para ser mais exato, deixamos uma corrente política dar voz a tantas angústias e tristezas enraizadas em nós que, ao invés de canalizar essa dor para melhorar as políticas sociais e aumentar o padrão de vida para todos nós, deixamos com que ela tomasse conta e gritasse, esperneasse, até todas as redes de proteção e as políticas de bem-estar estavam sob ameaça de sumir. Até o delicado véu da nossa democracia já foi quase rasgado junto com tantas obras inestimáveis naquele 8 de janeiro. Já nem podemos nos reconhecer mais depois de tanta coisa.
Mas nada está acabado ainda. Conversar, convencer e implementar soluções com um congresso como esse exigirá cada grama de ativismo e motivação que ainda nos resta dessas últimas eleições. Algo muito importante para se ter em mente é o poder de balança do centrão: eles de fato ainda possuem uma grande maioria que pode garantir ou quebrar as propostas do governo (ainda mais com um cenário de reeleição das mesas de ambas as casas no horizonte). Não podemos decidir a estratégia do governo por ele, mas podemos nos mobilizar nas ruas, pressionar e mostrar quais são realmente as necessidades do povo e, quem sabe, com sorte, teremos um pouco mais de tranquilidade do que esperávamos.
E aí está outro ponto importante que essa eleição nos ensinou: podemos sim nos organizar. E, quando nos organizamos, nós podemos fazer acontecer. A esquerda vem me desapontando recentemente com sua falta de organização e falta de planejamento. Parafraseando Guilherme Cortez, eu não me lembro de ter ido em uma manifestação a favor de algo, sempre somos contra, o que me deixou com esse questionamento: qual é o nosso plano então? Falta ideias novas e caras novas na esquerda, estamos ainda nos baseando em um movimento que deu muito certo a 20 anos atrás. Mas o Brasil, como nós já vimos, não é o mesmo de 20 anos atrás. Temos que ter pautas novas, ideias originais e concretas do que o Brasil deve ser, e não apenas rejeitar planos de governo dos outros. Temos que combater ideais anti-democráticos, mas também temos que propor como queremos que essa tão sonhada democracia popular seja, porque senão, o esforço não valerá de muita coisa. A eleição passará e nós não estaremos mais organizados porque a ameaça passou. Mas esse não é o propósito de se organizar. Temos que nos organizar para lutar por um país melhor e isso se faz todos os dias e não de 4 em 4 anos. Em uma era na qual podemos ter toda a informação que desejamos na nossa mão, falta vontade e disponibilidade de procurar saber como se organizar. Afinal de contas, não se trata apenas de entrar para algum partido político, a interação com diferentes movimentos e a disposição de incluir em nossas rotinas nos tornarmos mais informados e conectados com ideias progressistas é a chave que falta para que possamos pensar em organização concreta e de longo prazo. Uma organização que não depende de um movimento único, mas composta de diversos grupos e pontos de vista de como atingir um país melhor, que se unem em prol do planejamento e da organização em momentos importantes. Planejemos como esquerda, nos organizemos como esquerda e sejamos sérios como uma esquerda deve ser, composta por seus vários grupos, mas ainda assim, unida.
Inicialmente, eu tinha medo de escrever um texto que não fosse imparcial, um texto que apenas aumente o fogo do ódio e não convencesse ninguém. Mas depois de algum tempo, eu cheguei a conclusão de que é impossível fazer algo imparcial, especialmente frente a tudo que estava em jogo. Alguns não vão gostar da minha opinião, e tudo bem, mas acho que, com o atual cenário, prevenimos uma derrocada das garantias democráticas em nosso país. Haverão aqueles que discordam disso também, mas o processo democrático funcionou, a população deu seu recado e não houve prova de fraude alguma. Agora, àqueles que discordam disso também, então a utilidade de um debate baseado em fatos comprovados se esvazia completamente.
Olhando mais um vez para a Paulista tomada de vermelho, pessoas correndo, dançando, cantando, chorando e tendo uma enorme demonstração de alegria coletiva, sinto a euforia ficando cada vez mais forte dentro de mim. A multidão impressiona e emociona, mas me lembra que, se quisermos mudar o país, só será assim mesmo que conseguiremos. Mas, ao invés de ter medo, eu apenas sinto a euforia. Aquela euforia que toma conta da gente sem nem nos darmos conta.
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Imagem da capa: https://tribunadainternet.com.br/2026/10/02/o-preco-politico-da-ausencia-de-lula-ele-acertou-ou-errou-ao-fugir-do-debate/
Revisado por Anna Eduarda
