Versos apolíticos também são políticos
Reflete sobre a formação da consciência política e a responsabilidade individual de cada um, partindo de literatura, história e experiências pessoais, discute o papel do silêncio e da sua escolha.

"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
Martin Luther King
Agradeço aos meus professores de história, sociologia, filosofia e geografia, pelos trabalhos que tive de fazer, por me ensinarem sobre o país em que vivo e a realidade que me rodeia. Agradeço aos meus professores de inglês, português e artes, por me fazerem ler Jorge Amado, Carolina Maria de Jesus e Chimamanda.
“Capitães da Areia” molda caráter. Consciência de classe não nasce em árvore e parece estar escassa em nosso país. O livro conta a história de crianças na Bahia que vivem em seu amado trapiche, sobrevivem juntos e lutam pelo direito de viver. Pedro Bala é a representação da resistência jovem, da revolta contra o sistema, da sede por mudança; Professor não deixa nenhum deles esquecer o passado e conta histórias para os meninos, mantendo-os esperançosos; Dora é mãe, irmã e namorada, é acolhida, amada e importante para todos, mas também é colocada em uma posição atravessada pelas expectativas de gênero, sendo a única mulher do grupo. Retrato da pobreza do nosso país, Jorge Amado realizou uma intensa pesquisa sociológica e de campo em Salvador, antes e durante a escrita do livro, em busca da autenticidade.
“Quarto de Despejo: Diário de uma favelada” molda caráter, as palavras fluem da mão de uma catadora de papel que passa fome e escreve para fugir de seu mundo. Carolina Maria de Jesus mostra a realidade crua das favelas, o Brasil pode até não ser jardim de ninguém, mas “a favela é o quintal onde jogam os lixos.” Assim como os capitães da areia, Carolina luta contra a miséria extrema e seu livro é um manifesto da desigualdade social e racial que ela sente na pele diariamente.
“O perigo de uma história única” é uma tentativa de não nos deixar cegar. Com o boom das redes sociais é fácil se perder numa narrativa enviesada: o algoritmo propositalmente te cega a qualquer oposição, reforçando aquilo que já consumimos e acreditamos. É preciso dar um passo para trás para questionar as histórias que nos são contadas. Mas quiçá uma simples checagem de fatos seja trabalhosa demais para algumas pessoas… Chimamanda nos alerta para o perigo dessa narrativa única, que cria estereótipos e preconceitos, discurso que não poderia ser mais atual.
Mas isso é tudo do mesmo. Você, querido leitor, já conhece essas obras – seja por interesse pessoal ou minimamente por ter sido obrigado a pesquisar sobre para prestar vestibular. O público desse texto tem o repertório suficiente para ter consciência de classe, empatia e não ser ignorante, mas muitos decidem ser “apolíticos”.
Mas, afinal, o que significa ser apolítico? A política não se limita aos debates parlamentares ou às campanhas eleitorais. Ela também está presente na maneira como nos organizamos em sociedade, nas decisões que tomamos e nos valores que escolhemos defender. Nossa convivência é atravessada por relações de poder, interesses e escolhas coletivas. Quem se declara apolítico não deixa, por isso, de participar dessa dinâmica. Quem se vende como “apolítico” na verdade está sendo político.
Versos apolíticos também são políticos, como disse Wislawa Szymborska em “Filhos da época”:
"Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.
Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político."
Não se posicionar também é uma posição. Vivendo em sociedade não é possível “não se envolver com política”, pois seus atos têm consequências e repercutem no mundo ao seu redor. Não precisamos ter uma opinião formada sobre absolutamente todos os assuntos, mas existe uma diferença entre não conhecer determinado tema e deliberadamente se omitir diante de situações que afetam a dignidade e os direitos de outras pessoas. Nos ensinam sobre o passado não para que isso fique guardado em livros de história, mas para que ele nos ajude a entender nosso presente e transformar nossa forma de pensar. Estudamos sobre revoluções, guerras e ditaduras para entender o que nossos antepassados vivenciaram: eles eram seres políticos, assim como nós.
Desde pequena aprendi que temos que respeitar as diferenças, respeitar o outro e que gentileza gera gentileza. Me parece óbvio, não é?
Infelizmente não é tão simples assim, tão preto no branco. Tenho dificuldade de respeitar alguém que não me respeita, afinal, também nos ensinam reciprocidade. Isso não significa que tratarei o outro com desrespeito, a verdade é que a melhor solução é não conversar, mas parece tão mais prejudicial a falta do diálogo.
Eu nunca disse que deixaria de ser leal a você pelo candidato que escolhe votar, mas a minha admiração por você voou pela janela no momento em que os seus princípios se alinharam com os de uma pessoa que não respeita minha existência, ou quando você optou por se calar diante ao que acontecia.
Os resultados da eleição podem ter frustrado muitos, mas a verdade é que, no dia 25 de outubro, a democracia escolheu. A mobilização popular deu frutos, as pessoas foram às ruas e o país cantou o que desejava.
"E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música.”
Jorge Amado, “Capitães da Areia”
Revisado por Anna Eduarda
