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ENTRETENIMENTO?




Pense em um bom passeio em família, um momento de lazer para aliviar o estresse da semana cansativa. Tantos programas a serem escolhidos, mas é certo que a criançada vai adorar um programa que envolva “bichinhos fofinhos”. Talvez um zoológico ou aquário para garantir um contato com os animais, certamente prazeroso. Está decidido, rumo ao zoológico: primeiro à sessão dos primatas, depois dos felinos. Pausa para o lanche. Rumo às girafas e aos elefantes, animais tão majestosos. Chega o fim do dia e a missão diversão foi cumprida com sucesso.


Essa rotina parece ser tão inocente e certamente naturalizada. Uma atividade sempre marcada por risadas e pelo bem-estar de todos. Bom, não de todos. Já parou para pensar no animal que está do outro lado, enclausurado entre quatro paredes atrás de uma vitrine? Sempre no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas. Sem poder de escolha para onde ir, o que comer ou com quem socializar. Exposto a multidões com flashes de câmeras e barulhos constantes. Não parece ser tão divertido viver assim pelo resto da sua vida, mas ao menos é por uma causa nobre: o entretenimento.


O uso dos animais pela humanidade está em diversos setores. São utilizados na alimentação e na indústria farmacêutica, áreas em cujo mérito não entrarei por terem respaldo nas justificativas da saúde humana. Por outro lado, alguns animais também são utilizados no vestuário e em testes de cosméticos. Outros são caçados em busca de certos materiais (como o marfim do elefante), além de serem alvo do tráfico de animais. Essas atividades são certamente intoleráveis, podendo algumas serem caracterizadas como futilidade e outras como pura crueldade cegada pela ganância. Entretanto, nenhuma dessas é mais indignante do que o uso dos animais em prol do entretenimento.


O entretenimento realizado às custas dos animais é verdadeiramente abrangente. Apenas citando algumas atividades, os animais são vistos em circos, zoológicos, aquários e parques aquáticos como o famoso Sea World. Também estão presentes em passeios montados ou em charretes e trenós, truques de mágica e festas temáticas, corridas de cachorro e cavalo. E a lista continua, sendo usados em rodeios e vaquejadas, pescas e caças esportivas, touradas e lutas clandestinas. Em prol de um maior conhecimento sobre o behind the scenes dessa forma de entretenimento, é importante detalhar a realidade de algumas principais atividades.


Começando pelo circo, essa é talvez a atividade literalmente mais absurda que exista. Isso pois, como um animal andando de bicicleta, plantando bananeira, equilibrando-se sobre bolas e atravessando aros flamejantes parece normal ou natural? Tenha certeza de que para isso foram utilizados métodos de treinamento extremamente cruéis. Nesse sentido, pesquisas conduzidas pela Born Free Foundation e pesquisas de campo da ONG People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) demonstram que o treinamento de animais no circo é feito por meio de aguilhões elétricos, espancamento com varas, correntes e focinheiras. O simples "truque" de fazer um urso andar sobre as patas traseiras só acontece porque, quando filhote, foi acorrentado pelo pescoço com o seu tronco suspenso por horas, sendo forçado a ficar sobre duas patas em troca de aplausos e risos do público. Tal prática ainda persiste em grande escala ao redor do mundo, com a presença de medidas paulatinas em prol de sua mitigação. No caso do Brasil, é possível presenciar um gradual progresso nesse sentido, já que leis estaduais proibiram o uso de animais nos circos de alguns estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Salvador.


Tratando-se dos parques aquáticos, incluindo o nado com animais e aquários, a triste realidade desses é de animais inteligentes e sociáveis que são retirados da imensidão do oceano e confinados em parques como o Sea World. Esses animais, em especial as baleias orcas, têm como instinto viver em grupos sociais complexos e percorrer vastas distâncias diariamente no oceano. Já em cativeiro, eles apenas nadam solitários em círculos. De acordo com a ONG Whale and Dolphin Conservation, esse cenário ocasiona uma expectativa de vida muito reduzida, com problemas de saúde que vão desde arcadas dentárias destruídas por morderem as barras de ferro até a completa insanidade mental. Essa insanidade ocorre devido às reverberações sonoras ocasionadas pelo sistema de navegação de ecolocalização das orcas e dos golfinhos, o qual não foi feito para ser barrado por paredes de concreto.


No que concerne à realidade da grande maioria dos zoológicos e safáris, a vida dos animais que nesses habitam, é de restrição a quatro paredes, estando confinados e sem nenhum estímulo. De acordo com estudos conduzidos pela World Organization for Animal Health, essa rotina resulta em um conjunto considerável de distúrbios comportamentais apresentados pelos animais em cativeiro. Esse conjunto de distúrbios é denominado “zoocose”, sendo exemplificado por atos como andar de um lado para o outro ou em círculos, balançar-se para frente e para trás, chacoalhar a cabeça e até mesmo se automutilar. Dessa maneira, é comum que os animais de zoológicos tomem antidepressivos e fortes tranquilizantes para não transparecer o sofrimento ao público, cuja diversão é mais importante do que a qualidade de vida do animal. Em contraposição à tal realidade, estão os denominados santuários animais que abrigam animais resgatados de situações de abuso, exploração ou risco de extinção. Nesses, os animais vivem dignamente, recebendo cuidados veterinários e estímulos para seus instintos naturais. É importante ressaltar que os santuários são essencialmente muito distintos dos zoológicos e das demais formas de exploração animal, não sendo submetidos ao contato com o público ou a qualquer forma de exploração comercial.


Tendo isso em vista, é nítido e cientificamente comprovado que a grande maioria das metodologias empregadas no entretenimento com animais são cruéis e que as rotinas vividas por eles se traduzem no sacrifício de suas vidas. Dito isso, você pode estar se perguntando por que tamanha crueldade continua. A resposta é simples: dinheiro. Tendo em vista a escala global e a complexidade socioeconômica do fenômeno em questão, são necessárias ações multifacetárias para combatê-lo. Tomando o Brasil como exemplo, cabe ao Poder Público a elaboração de políticas públicas e regulamentações específicas que proporcionem uma maior fiscalização da qualidade de vida dos animais. Também deve haver uma ampliação dos projetos de lei em favor da proteção animal, como a proibição do uso de animais em circos citada anteriormente, que vigora em um número reduzido de estados brasileiros. Isso, aliado à ações de conscientização em massa, como a realização de campanhas por ONGs de proteção animal que desempenham um papel crucial na educação e na sensibilização da sociedade.


Por fim, em menor escala, é fundamental a atuação na esfera individual. Enquanto o público alimentar essa fonte de lucro capitalista, essa vã e detestável exploração dos animais permanecerá. Então, cabe a nós repensarmos nossas concepções de diversão e de naturalidade, nos questionando: Qual o preço que os animais pagam pelo nosso entretenimento? Será que o nosso riso momentâneo vale o sacrifício de um animal aprisionado por toda sua vida? É, espero que ainda exista um pouco de humanidade, ou melhor, animalidade, neste mundo.



Autoria: Giulia Lauriello


Revisão: Lucas Tacara e Anna Cecília Serrano


Imagem de capa: Gkaur Graphics

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