FEMINISMO LIBERAL: A SERVA DO CAPITALISMO

Para o texto de hoje, nossa redatora Laura Kirsztajn reflete sobre a sociedade em que vivemos e discute os rumos do feminismo liberal.


Em 2013, Nancy Fraser, filósofa feminista da Teoria Crítica, escreveu um texto (How feminism became capitalism’s handmaiden - and how to reclaim it) que reacendeu um longo debate: quais os rumos que o feminismo tem tomado? Para ela, assim como para muitas outras feministas, o movimento tornou-se algo extremamente decepcionante, uma vez que ideais de igualdade e justiça foram deixados de escanteio por muitos dos que por ele advogam.


Fraser afirma que o movimento estaria enredado com esforços neoliberais que visam à construção de uma sociedade de livre mercado. Abandonando um propósito de mudanças radicais, essas feministas voltaram-se para o individualismo. Um símbolo disso seria a prioridade que vem sendo dada às mulheres empreendedoras, que estão em grandes postos de liderança, algo que, certamente, não representa a posição de boa parte das mulheres no mundo, e que ignora qualquer perspectiva de classe e raça que possa efetivamente emancipá-las. É um feminismo que, dando um gigantesco tiro no pé, encoraja o crescimento individual e a meritocracia. A mesma meritocracia que sempre foi a chave da exclusão das mulheres em todo setor da sociedade.


Essa proposta de feminismo deixou de lado qualquer debate crítico sobre as estruturas político-econômicas que impactam a situação da mulher no mundo. Abraçando-se ao neoliberalismo, o foco foi dado à mera e vazia “identidade mulher”, que teoricamente não tem classe e raça, mas tem: mulheres brancas e ricas, assim como suas defensoras. Utilizando-se de um discurso sobre sucesso profissional, o alvo desse feminismo é justamente um grupo seleto e privilegiado de mulheres que de fato têm na sua posição socioeconômica uma possibilidade de melhoria. Seu problema é a desigualdade de gênero no topo das grandes empresas e escritórios, e por isso não apresenta respostas para as donas de casa, mulheres em empregos informais e com baixo retorno econômico.


O que esse feminismo faz é a “dominação da igualdade de oportunidades”, o que Fraser explica como a defesa de que a classe dominante que governa tenha igualdade entre homens e mulheres, ou seja, que o setor que arruína a vida de muitas pessoas pelo mundo inteiro tenha não apenas homens, mas também mulheres, uma aspiração absurda para um movimento social.


A filósofa comenta como essa suposta “igualdade” seria, na verdade, meritocracia. Existe uma interpretação errônea de que a discriminação é refletida somente na subrepresentação das mulheres no topo, e que uma solução seria que essas mulheres possam crescer de acordo com seus méritos. Essa resposta não só deixa intacta a estrutura hierárquica, como não beneficia 99% das mulheres, apenas o 1%, a classe diretora profissional. Nas palavras de Fraser:


1- Essas mulheres só podem ter sucesso no que fazem se contratam outras mulheres com salários muito baixos e em trabalhos muito precários, mulheres migrantes pobres de outras raças que limpam suas casas, cuidam dos seus filhos, ou atendem os seus pais anciãos em residências da terceira idade. Em outras palavras: há uma relação direta entre esta noção de igualdade e o aumento da desigualdade. É uma ideia de igualdade de classe que diz que as mulheres devem ser iguais aos homens de sua mesma classe, e não importa as demais desigualdades.

Mas, o que é o feminismo defendido por Fraser? A filósofa tem uma longa e complexa obra, mas é possível traduzir seus ideais de forma resumida em uma entrevista recente que ela concedeu (simplória tradução que realizei do inglês para o português):


2-Para mim, feminismo não é simplesmente uma questão de colocar um pequeno grupo de mulheres em posições de poder e privilégio dentro das hierarquias sociais existentes. Do contrário, é sobre superar essas hierarquias. Isso requer desafiar as fontes estruturais da dominação de gênero na sociedade capitalista - acima de tudo, a separação institucionalizada de dois tipos de atividades supostamente distintas: de um lado, o chamado trabalho “produtivo”, historicamente associado a homens e remunerado com salários; de outro, atividades de “cuidado”, muitas vezes historicamente não remuneradas e performadas majoritariamente por mulheres. Na minha visão, essa divisão hierárquica de gênero entre “produção” e “reprodução” é uma estrutura definidora da sociedade capitalista e uma fonte profunda das assimetrias de gênero a ela conectadas. Não pode haver “emancipação das mulheres” enquanto essa estrutura permanecer intacta.

Esse tipo de reflexão trazida por Fraser (mas não apenas por ela, afinal, várias feministas de outras vertentes avisam há décadas sobre essa escalada dentro do movimento) é importantíssima para pensarmos quais as estratégias que o movimento feminista mainstream tem adotado, especialmente, quando as mulheres que mais disseminam esse tipo de mensagem estão justamente no mesmo ambiente que nós - em faculdades de cursos como Direito, Administração de Empresas, Administração Pública, Relações Internacionais e Economia.


Acredito que é de gigantesca inocência, ou ignorância, sustentar que um discurso feminista desse tipo é algo universalizável, sendo que a realidade é que ele atende apenas a nós mesmas (ou, ao menos, a algumas de nós). Mais perigoso ainda é quando um movimento social se propõe a espalhar a sua mensagem por meio da sua mercantilização e do uso irrefletido de palavras e frases em broches e camisetas com o rosto de Frida Kahlo (uma mulher revolucionária que certamente ficaria ofendida com o uso que fazem da sua imagem).


Nós queremos de fato “vender” um movimento? Queremos torná-lo parte do nosso “estilo pessoal”? Da nossa “estética”? Ou queremos usar a sua teoria e seus ideais como forma de educar e efetivamente conscientizar? Vale a pena transformar uma demanda radical como a igualdade de gênero, que não é algo facilmente alterado nas estruturas da sociedade, em um projeto individualista e artificial, modelado apenas para satisfazer a algumas de nós (1%)? Queremos mesmo nos dedicar a manter mulheres ricas e brancas igualitariamente no topo?



Referências: 1-KOHAN, Marisa. Público. Entrevista a Nancy Fraser: "No podemos dejar que el temor a la ultraderecha nos lleve al feminismo liberal". 22 de março de 2019. https://www.publico.es/sociedad/entrevista-nancy-fraser-no-dejar-temor-ultraderecha-lleve-feminismo-liberal.html (tradução para o português: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/-Nao-podemos-deixar-que-o-medo-da-ultradireita-nos-leve-ao-feminismo-liberal-/5/43690)

2-GUTTING, Gary. FRASER, Nancy. New York Times. A Feminism Where ‘Lean In’ Means Leaning On Others. 15 de outubro de 2015.https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/10/15/a-feminism-where-leaning-in-means-leaning-on-others/#more-158243

Fontes:

FRASER, Nancy. The Guardian. How feminism became capitalism’s handmaiden - and how to reclaim it. 14 de outubro de 2013. https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/oct/14/feminism-capitalist-handmaiden-neoliberal (tradução para o português: http://www.iela.ufsc.br/noticia/como-o-feminismo-se-tornou-empregada-do-capitalismo-e-como-resgata-lo)KOHAN, Marisa. Público. Entrevista a Nancy Fraser: "No podemos dejar que el temor a la ultraderecha nos lleve al feminismo liberal". 22 de março de 2019. https://www.publico.es/sociedad/entrevista-nancy-fraser-no-dejar-temor-ultraderecha-lleve-feminismo-liberal.html (tradução para o português: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/-Nao-podemos-deixar-que-o-medo-da-ultradireita-nos-leve-ao-feminismo-liberal-/5/43690)GUTTING, Gary. FRASER, Nancy. New York Times. A Feminism Where ‘Lean In’ Means Leaning On Others. 15 de outubro de 2015.https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/10/15/a-feminism-where-leaning-in-means-leaning-on-others/#more-158243

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