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VENDAVAL


Vento, por um instante, me leve de mim. Me liberte da dualidade da vida. Do ser ou não ser incessante que ressoa nos ares do meu subconsciente. Me tire de tudo que me prende ao que é mundano e material. Me canso de lutar por bens tangíveis. Se bem que até os não tangíveis têm seus custos. Sopre para longe qualquer ânsia que há em mim. Não tão longe que não possa tangenciar meu corpo, caso fosse da minha vontade.

Andando na rua, espero que o vento me acolha. Sinto cada partícula de ar tomando meu corpo, me abraçando em uma corrente gélida e densa. Penso que bom seria se o vento me levasse para casa, para dentro dos braços quentes de quem um dia me deu amor. Faria do vento minha moradia, mesmo podendo ficar resfriada.

Vento, me tome pra si e cuide de mim. Me canso dos dramas e dos planos. Vento, me leve consigo pelos ares. Anseio por coisas novas. Preciso me sentir parte. Como partículas, flanando as ruas. O2, CO2, NO2. Não me importa. Preciso de ligações: covalentes, iônicas ou metálicas. Me tome pra si e me faça ser.

Andando na rua, percebo que o vento já não sopra mais. Imagino como seria se estivesse me carregando. Me largaria no chão e me deixaria? Sem eira nem beira, eu ficaria só. Não havia pensado no quão inconstante é o vento.

Vento, a você me entreguei por inteiro. Não percebi que, na verdade, era somente ar. Às vezes irritado, às vezes carinhoso, a verdade é que seu humor instável me deixou sem lar. Cuidado, vento, com quem leva consigo. Meus pés voltaram fincados na terra, minha cabeça ficou aérea. Vivo agora de sopros, dentro do meu coração.


Autoria: Ana Luísa Issy

Revisores: Anna Cecilia Serrano, Luiza Parisi e André Rhinow

Imagem: Pinterest


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