A política está se tornando uma identidade social
A polarização da política tem afetado cada vez mais a sociedade como fator cerne

Idealmente, a política surge como um meio para organizar a vida em sociedade, sendo o principal instrumento pelo qual diferentes grupos discutem problemas coletivos e buscam soluções para eles. Em uma democracia, ela deveria, também, servir como um espaço de debate, negociação e construção de consensos, permitindo que divergências fossem resolvidas por meio do diálogo e das instituições. No entanto, não é surpresa para ninguém que a polarização vem crescendo cada vez mais no cenário global e, principalmente, no Brasil, transformando a política em um embate cego de ideais nocivos para o bem público.
Um exemplo desse problema é o caso que recentemente viralizou nas redes sociais sobre o detergente Ypê. Após a Anvisa suspender a fabricação, venda e distribuição do produto ao encontrar falhas no processo produtivo da empresa, alguns apoiadores do Bolsonaro – e inclusive figuras públicas como Luciano Hang – postaram, em suas contas, vídeos contestando e desafiando a decisão da Anvisa, com argumentos de que haveria uma “perseguição” contra a marca Ypê por ela ter feito campanha para o ex-presidente durante as últimas eleições. O episódio mostra que até declarações técnicas vindas de órgãos oficiais acabam sendo vistas por uma lente ideológica muito marcada na política brasileira, nos fazendo ter a impressão que a política seja algo a ser sempre disputado.
Além do caso do detergente, outros exemplos atuais também merecem destaque, como a polêmica recente dos chinelos Havaianas. Como todos devem lembrar, no final de 2025, a marca lançou uma campanha publicitária com a participação da atriz Fernanda Torres, na qual ela afirmava não desejar que as pessoas começassem o ano “com o pé direito”, mas sim “com os dois pés”. Independentemente da frase fazer ou não uma crítica política, diversos políticos e influenciadores ligados à direita trataram o caso de forma desproporcional, criando campanhas de boicote à Havaianas nas redes sociais, publicando vídeos descartando pares de Havaianas e incentivando consumidores a abandonarem o produto. Meses depois, o deputado Nikolas Ferreira chegou a divulgar uma nova marca de chinelos chamada “Pé Direito”, apresentada como uma resposta direta à campanha da empresa. E, embora esse extremismo possa parecer inofensivo em casos mais ridicularizados como esse, ele é capaz de provocar catástrofes trágicas e irreversíveis, como o que ocorreu durante a pandemia de Covid-19.
Em um contexto de pandemia e, consequentemente, caos nacional, no qual se exigiam decisões baseadas em evidências científicas e orientações de especialistas, o debate sobre a doença rapidamente se tornou uma disputa ideológica. Questões como o uso de máscaras, o isolamento social, a vacinação e a utilização da cloroquina passaram a ser defendidas ou rejeitadas não apenas com base em critérios técnicos, mas também em alinhamentos políticos. O resultado disso foi que tomar ou não a vacina virou declaração de fé ideológica, e a cloroquina, um medicamento sem eficácia comprovada contra o vírus, foi defendida por políticos que deveriam agir a favor da sociedade.
Parte desses episódios podem ser explicados pelo viés de confirmação, fenômeno que a psicologia explica a tendência humana de buscar e valorizar informações que fortalecem ideais já existentes, enquanto evidências opostas são, de certa forma, rejeitadas. Quando a política se transforma em parte da identidade de um indivíduo, admitir um erro ou reconhecer um argumento válido do adversário passa a ser visto não apenas como uma mudança de opinião, mas como uma traição ao próprio grupo. Portanto, fatos deixam de ser analisados por seu conteúdo e passam a ser avaliados de acordo com quem os apresenta ou a qual lado político parecem favorecer.
Não surpreendentemente, as redes sociais contribuem muito para essa construção de “identidades” políticas e, consequentemente, para a polarização. O algoritmo dessas plataformas faz com que as informações que recebemos sejam apenas de um lado político e, assim, nossas crenças e valores são reforçados para nós repetidamente, tornando difícil sairmos da bolha. A impressão que fica é que o conteúdo que recebemos nas redes tem como intuito muito mais atacar o adversário do que apresentar propostas e soluções concretas, uma vez que, infelizmente, o algoritmo entende muito bem que é isso que cria engajamento nos posts. Um exemplo disso são os vídeos no formato de “30 vs 1”, que recentemente têm ganhado muita visibilidade devido aos cortes que aparecem nas redes, os quais, propositalmente, sempre tratam de temas muito polêmicos. Vale notar que argumentos e ideias raramente são abordados nesses cortes, pois o que realmente populariza é quando o adversário é ridicularizado ou humilhado. Não importa o que foi dito e sim quem “ganhou”, como se o objetivo fosse ganhar uma guerra fria.
Mas por que falar de tudo isso agora? Como as eleições estão cada vez mais próximas, a preocupação que deve – ou deveria – ficar é: de que maneira nós, como sociedade, enxergamos o campo político? Não há nada de errado em se identificar com um lado político e a polarização não é, em si, um problema. O problema é tratá-lo como um time de futebol e torcer incondicionalmente, pois as pessoas aparentam esquecer que política não é futebol ou, muito menos, religião. A política é um recurso para a sociedade permutar ideias e buscar soluções de problemas reais, não competir sobre quem está certo e quem está errado. Dessa forma, como dito anteriormente, o adversário político deixa de ser alguém com quem você discorda e passa a ser um inimigo que precisa ser destruído. Quando isso acontece, a política deixa de funcionar como deveria, pois uma democracia saudável precisa que cidadãos votem com critério e não com raiva. Afinal, ninguém negocia com inimigos. E, sem negociação, a democracia vira um jogo que só termina quando um lado destrói o outro e, aí, todos perdem.
Referências:
CNN BRASIL. Entenda o motivo que levou Anvisa a suspender produtos da Ypê. CNN Brasil, [s.l.], 2025. Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/entenda-o-motivo-que-levou-anvisa-a-s uspender-produtos-da-ype/. Acesso em: 30 maio 2026.
O GLOBO. Comercial da Havaianas com Fernanda Torres gera reação de políticos de direita; entenda a polêmica. O Globo, Rio de Janeiro, 22 dez. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/22/comercial-da-havaianas-com-fer nanda-torres-gera-reacao-de-politicos-de-direita-entenda-a-polemica.ghtml. Acesso em: 30 maio 2026.
O GLOBO. Pé Direito: após incentivar boicote à Havaianas, Nikolas Ferreira divulga criação de marca de chinelos. Sonar – A Escuta das Redes, O Globo, Rio de Janeiro, maio 2026. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2026/05/pe-direito-apos
-incentivar-boicote-a-havaianas-nikolas-ferreira-divulga-criacao-de-marca-de-chinelo s.ghtml. Acesso em: 30 maio 2026.
POLITIZE!. Como a polarização alimenta a desinformação. Politize!, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.politize.com.br/polarizacao-alimenta-a-desinformacao/. Acesso em: 30 maio 2026.
ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Confirmation bias. Encyclopaedia Britannica, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.britannica.com/science/confirmation-bias. Acesso em: 30 maio 2026.
Revisado por Leonardo Miranda
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