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Poder e Política

Cabe Deus na Política?

Texto reflete sobre religião e política, fascismo, moral e identidade, defendendo tolerância, criticando instrumentalização da fé e concluindo que valores transcendentais são necessários à política.

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Guilherme Neto

33 min de leitura

20 de fevereiro de 2026

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Uma das minhas (poucas) recentes experiências com séries foi ver Mussolini: o filho do século pela Mubi. A série é baseada no livro homônimo de Antonio Scurati, escrito com base em uma série de documentos históricos que o autor organizou e misturou com a dramatização da biografia do Duce italiano, desde seu trabalho como editor-chefe à ascensão na política do país. 


Se estiverem interessados em ver a minissérie, vou evitar dar muitos detalhes sobre sua trama, mas um dos temas mais evidentes é a completa falta de ideias próprias de Mussolini. Em suas próprias palavras, ele é um animal que fareja os tempos futuros, e os tempos futuros, de turbulência e medo, demandam a ação e não o idealismo. Mussolini é discreto quando sua insignificância é gritante, mas não tem medo de se expor e decretar que seus adversários devem ser mortos quando as armas estão do seu lado. O Mussolini agressivo e jovial dá lugar para o Mussolini estrategista e diplomático. Os Fasci di Combattimento revolucionários dão lugar para os Fasci di Combattimento parlamentares em um piscar de olhos, e o “culto a violência” ou a “defesa das instituições” perdem significado. De dia, o objetivo é destruir a burguesia e o capital para libertar a Itália de suas amarras podres e ultrapassadas; de noite, a missão é parar a maré vermelha e proteger a nação da escória socialista. O fim e o meio são, e sempre foram, somente o poder. Não há projeto ou visão, apenas ganância.


A série também não se preocupa em fazer uma descrição ideológica precisa do fascismo, então, de um modo geral, ela está para qualquer autoritarismo assim como 1984: você pode associar ao seu político que desgosta e considera autoritário. Os antagonistas mais notáveis de Mussolini ao longo da história são as figuras que têm as mais fortes das crenças pessoais: o poeta nacionalista e ás da aviação Gabriele d’Annunzio, o líder socialista no parlamento Giacomo Matteoti, o comandante dos camisas negras Italo Balbo ou o padre líder dos católicos, dom Luigi Sturzo.


Em um episódio, Mussolini, já primeiro-ministro, precisa convencer os católicos a apoiarem sua nova lei eleitoral que o fará dominar o legislativo. Para tal, ele precisa negociar com Sturzo. Ele encontra-se com o padre em uma igreja, onde o sacerdote está ajoelhado, rezando, frente a um oratório.


  “Bom dia, Sturzo”, cumprimenta Mussolini. O padre não responde. “Bom dia, Sturzo”, e, novamente, sem resposta. Depois de uma terceira saudação ignorada, o primeiro-ministro vira-se para a câmera: “Isso é um bom começo”.


Sturzo levanta e faz o sinal da cruz para o oratório. Mussolini explica a proposta da lei eleitoral, que teria o objetivo de combater a ameaça ateia e materialista dos socialistas (mais ateu e materialista que Mussolini impossível). O padre vê diretamente pelas mentiras do fascista, ignora seu chamado às armas com uma provocação: “se você já tivesse mesmo a maioria, não precisaria desta lei”. O Duce, enfurecido, levanta a voz contra o padre, que vai embora tranquilamente, mas não antes de desviar o olhar de volta ao adversário:


— Você vai mesmo bater em um padre, Mussolini?


A cena termina com Sturzo virando a esquina, em silêncio. Mussolini, em um ato final de frustração, desafia até Jesus, crucificado, a atingi-lo com um raio se Deus realmente existir. 


Aos conhecedores da história da Itália, não deve ser novidade o fato de que Mussolini foi executado e pendurado nu em praça pública após seu fracasso na Segunda Guerra Mundial. Sturzo, por outro lado, tornou-se senador vitalício na década de 1960[1]. Momentaneamente, o religioso entrou em um dilema agoniante com o ultimato do Duce: Se ele se recusasse a apoiar a lei, os católicos do país, desde o líder agrário mais insignificante aos deputados e cardeais, seriam vítimas dos milicianos. Se ele desse carta branca para os deputados votarem a favor da lei, Sturzo teria sangue nas mãos, e não haveria mais oposição legal contra os fascistas. Após consultar-se com Roma, e frustrar-se com a falta de apoio da Santa Sé, o padre renunciou ao seu posto de líder do partido e, alguns anos depois, fugiu para o exílio. Mas sua derrota foi temporária: A mobilização popular que havia construído, tanto no entre-guerras quanto com a resistência católica, fizeram surgir um movimento político que dominou a Itália durante a reconstrução da Europa e ajudou a fundar as bases na União Europeia nos anos seguintes. Se a democracia-cristã riu por último, assim não teria feito sem seu mentor, Sturzo.


Enquanto é fácil traçar uma linha moral, por mais que anacronicamente, entre a democracia-cristã e o fascismo, atualmente religião e política são duas coisas que não se misturam tal qual água e óleo. O desencantamento do mundo esteve a todo vapor durante o século XX, e os aspectos da sociedade que antes precisavam de uma âncora moral padrão, a religião, agora podiam ser resolvidos pela técnica humana. Os avanços na sociologia, na economia, na estatística e em outras ciências sociais ressuscitaram a ambição do Estado, especialmente na Europa, de se tornar um engenheiro. A regulação de costumes era agora uma questão de saúde pública, e moldar os hábitos diários dos indivíduos com identificações precisas, um banco de dados com seus endereços, problemas crônicos, e outras informações significava que os serviços públicos poderiam ser otimizados em prol da sustentabilidade da máquina pública. A abstração da “economia nacional” deixava de ser uma abstração e se tornava um método prático de medir o quanto milhões de pessoas, juntas, tinham — independentemente da sua renda pessoal. Em outras palavras, o Estado não precisava mais do que havia sido nos últimos anos, para falta de uma terminologia melhor, um centro de informações curadas moralmente pela fé, pois ele detinha os meios para conhecer a realidade “sem vieses”. Na Guerra Fria, o desenvolvimento de ideologia messiânicas e a polarização do mundo reforçaram a tendência de secularização da sociedade humana, com a promoção da ideia de que as civilizações em conflito tinham um dever consigo mesma, em nome de valores como a dignidade, a liberdade, e a justiça.


É claro, esse processo não foi uniforme, e muito menos significou o fim da religião ou da religiosidade na política. Nos Estados Unidos, o trampolim inicial para a secularização civilizacional na segunda metade do século XX, o cristianismo permaneceu como um determinante pesado em todos os aspectos da vida política do país. Quando o teólogo John Nelson Darby passou a interpretar a Ɓíblia com a ideia simples – e satisfatória em um período de incertezas – de que haveriam vários povos escolhidos e que as adversidades contra Israel seriam um sinal do fim dos tempos, uma base eleitoral gigantesca se formou em torno da ideia de que a política externa dos americanos, em conformidade com a identidade protestante do país, deveria ser defender a “única democracia do Oriente Médio” [2]. Há uma distância nada trivial entre como um estadista e um eleitor pensam. O primeiro precisa ser um homem de seu tempo e um estrategista, enquanto o cidadão comum ainda escolhe como líder quem ele vê como a opção mais ética.


Existe um paradoxo inerente em separar os dois planos da realidade social, o indivíduo e o Estado, em duas entidades respectivamente morais e amorais. O primeiro problema, mais óbvio, é o porquê de uma unidade, em conjunto com seus semelhantes, se comportar de uma maneira diferente. Esse dilema é antigo na sociologia e economia, mas esse não será o tópico de discussão por hora. A outra implicação resultante é de natureza mais prática, e também problemática. Se cabe a moral na política, o certo e o errado, e aquilo que transcende o material, também cabe Deus?


Para dar alguma tangibilidade à discussão, vamos lançar mão de um tema mais palpável: pena de morte.


Notoriamente defendido pelos circulos mais conservadores da política brasileira, a pena de morte no Brasil tende a ser mais um exercício de pensamento do que uma proposta seriamente debatida na política. Enquanto você esperaria que Flávio Bolsonaro, o maior representante desses conservadores, tratasse com uma certa veemência essa questão, o senador afirmou publicamente que é contrário à punição capital [3]. Naturalmente, do outro lado, não existe uma singular manifestação sobre o tema se não a oposição generalizada de políticas penais mais punitivistas. O problema de defender a pena de morte geralmente esbarra em um entrave tanto prático quanto ético. Se, por um lado, a política não tem nenhuma comprovação prática de que seu uso reduza a criminalidade - e um eventual erro jurídico possa causar um desastre irreversivel - ser a favor da pena de morte tende a ser uma contradição interna das crenças pessoais do ethos cristão-conservador mais ortodoxo.


O mesmo eleitor que vota pelos bons costumes e, em partes, tenta justificar um voto normativamente, às vezes tem problemas em reconhecer a base moral das suas decisões. A Igreja Católica faz declarações repetidas sobre a sacralidade da vida, em última instância, argumentando que “nenhuma vida está além da redenção” [4]. O protestantismo, na sua forma tradicional, não condena explicitamente a pena de morte pela autoridade encarregada de justiça (ênfase no agente), mas a pena final não é recomendada para os cristãos, e isso tende a ser mal-visto teológicamente [5]. É importante ressaltar o aspecto religioso da decisão ética do eleitor por que isso é a heurística mais comum na decisão moral da maior parte da população do país, tanto que uma das instituições mais respeitadas no Brasil são as igrejas, de acordo com a pesquisa do Ipec de 2024 [6]. E isso não é nada surpreendente. Aliás, eu afirmo com confiança, apesar disso ser palpitaria, que a maioria dos brasileiros não se importam tanto com ética kantiana ou aristotelismo para justificar racionalmente suas crenças.


A aparente contradição se estende a uma boa quantidade de políticas. Anedoticamente, se você quiser mais exemplos, abra a coleção de charges do Latuff e verá trocentas críticas diferentes sobre religião e política. Isso não impede ninguém de tomar duas decisões aparentemente opostas ao mesmo tempo sem perder a suposta superioridade moral. Já comentei em textos passados que o cérebro humano utiliza atalhos cognitivos para decidir sobre coisas mais complexas, pois estamos ocupados demais estudando, trabalhando, cuidando de nossas casas e mantendo uma vida social para filosofar a cada passo do caminho.


E não somente é mais fácil colocar Deus como um conjunto de crenças padrões, religião também é uma identidade. Esse é o famoso “católico de IBGE”, que se diz católico porque vive em uma comunidade católica, adota princípios vagamente católicos, se dá bem com católicos, e não vê motivo para não se dizer superficialmente católico. Em 2022, mais da metade da população que respondeu se declarava como tal [6]. O problema, como qualquer cientista social vai saber te dizer, é que identidade é uma variável relativamente explorável para fins escusos.


A primeira coisa que vem à mente são as mega igrejas: Lagoinha, Bola de Neve, Deus é amor, entre outras instituições geralmente ou batistas, ou neopentecostais, ou não-denominacionais. Famosamente, em 2020, algumas dessas igrejas afirmaram que a fé, sozinha, podia curar a COVID-19 [7]. Enquanto, por outro lado, pastores estavam envolvidos em desvios de dinheiro no ministério da educação durante o governo Bolsonaro [8]. O crescimento desse tipo de igreja é um fenômeno à parte no Brasil, mas a correlação entre a direita brasileira e grupos evangélicos é extremamente comum. Se não bastasse isso, outra jabuticaba brasileira sobre religião é o fato de que o principal representante do conservadorismo religioso no país, o agro, é um grupo auto-representado: eles não são votados por um eleitorado alheio a si, eles são quem vota neles [9]. Grupos religiosos estão intimamente ligados a parlamentares da direita porque muitos deles são quem chega a se eleger ou fazem parte da mesma comunidade que estes.


A influência das igrejas evangélicas é grande na política, ok, isso é provavelmente ponto pacífico. O enfoque na discussão, todavia, muda bastante dependendo de quem está falando no assunto. A direita fala de religião numa escala micro, no indivíduo e no pequeno grupo que preserva a identidade moral religiosa como pedra basilar de seu pensamento. A esquerda tem uma leitura consideravelmente mais negativa da religião e destaca as dinâmicas que eu comentei anteriormente, além de uma leitura pós-moderna da superestrutura. É a manifestação recauchutada de que a religião é o ópio do povo por motivos diferentes: associação com o conservadorismo, direitos das mulheres, reforço de padrões de desigualdade, caridade versus assistência social, e por aí vai.


É provável que você, pelo menos em partes, simpatize com a causa da esquerda nessa questão. Mas existe um limite comumente passado. Minha evidência? Quando Eduardo Bueno falou, ipsis litteris, que evangélico não devia votar - e devia ficar pastando junto com o pastor [10]. A ironia (e o mal-gosto) veio logo depois de um raio ter atingido a caminhada do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), deixando 89 feridos [11]. Bueno provavelmente foi a voz mais radical vindo da esquerda sobre o ocorrido, mas há um sentimento mórbido de satisfação entre quem associa as ações do deputado a seus eleitores entre os opositores do bolsonarismo e da direita de maneira geral. Isso não é surpreendente. Existe um movimento conservador ilustrativo, não necessariamente um representante exato de todos os conservadores do pais, que defende ativamente e sem pensamento crítico Bolsonaro, um movimento que não liga para declarações polêmicas, decisões ruins de política pública e a catástrofe pandêmica. Por falta de termos melhores, esse “bolsonarismo hipotético” é indefensavelmente do mal.


Talvez você já tenha percebido o problema aqui. O bolsonarista médio também tem uma esquerda hipotética que ele gosta de chamar de grande satã, e isso gera a necessidade de votar pela sua consciência em um representante que é eticamente oposto a isso, o que resulta nele votando em alguém que combata o ethos da esquerda, e consequentemente alguém que será, em 9 de cada 10 vezes, religioso. O religioso eleito precisa transmitir, em termos de logos e pathos, que sua missão é também estar contrário fervorosamente ao adversário moral absoluto, quase desumanizando o outro lado. Como o chumbo trocado não dói, o sentimento expressado por Bueno, que tende a ser mais pronunciado em jovens e eleitores mais mobilizados, se torna recíproco. Agora os dois lados têm uma justificativa pessoalmente plausível para expulsar os representantes e os eleitores do outro lado da vida pública.


Quando a superioridade moral não dá conta, o argumento adota outro atalho cognitivo: o de que o adversário está usando suas crenças pessoais (leia-se “ideologia”) para basear suas decisões de política pública, e não está pensando na maximização do bem-estar de toda a população. Aborto é provavelmente o exemplo mais palpável desse fenômeno: o argumento padrão pela legalização do aborto é o de que é uma questão de saúde pública, um direito reprodutivo necessário para que a mulher esteja totalmente segura quanto a sua própria vida. Por outro lado, pelo menos aqueles não fundamentalistas, vão entrar com dados complexos sobre risco moral (no sentido econômico do termo) e nos gastos estatais gerados. Uma combinação de argumentos tecnocráticos com morais e comuns também. Mas a tática central permanece: despolitizar e moralizar, jogando para o campo da burocracia, de modo a facilitar o fardo de defender um tema com uma carga emocional e moral muito grande.


Ora, se você não pode defender algo pelas vias morais, ou seja, vocês sabe bem que o seu representante não vai agir com base na razão de você ter votado nele, a moral, e ao mesmo tempo você não pode ter um outro lado moralmente oposto sendo representado na política, então a conclusão é estranha; um paradoxo e uma consequẽncia lógica ao mesmo tempo: a política não pode, nunca, representar sistema - e isso se traduz também, basicamente, em tirar a influência do teísmo e do ateísmo, como bases epistemológicas e metafísicas da moral, da equação também. Não é que Deus não cabe na política nesse caso, é que ele literalmente não pode nem ser citado para esse arranjo funcionar.


Inicialmente, talvez você não veja problema nisso. Justo, honestamente. O Brasil já passou da junção entre Estado e igreja antes, e somos uma nação cujo governo é laico e secular pelo menos em nível federal. Mas a religião ainda é um divisor de identidades muito forte na sociedade brasileira e influencia o posicionamento da população e da burocracia regional, estadual e, como muitos devem saber, dos representantes da população em Brasília. Piauí é o estado mais católico do Brasil, com 77% da população se declarando católica, e mesmo assim, Lula conquistou mais de 70% dos votos na região em 2022 [12][13]. Roraima é o estado menos religioso, mas Bolsonaro e candidatos conservadores levaram as eleições de lavada [14]. Isso acontece porque nosso cérebro prefere adequar nossas decisões a nossas crenças, e não o contrário. Já dizia Sócrates, nenhum homem é conscientemente mau ou incoerente; há um espaço enorme para que pessoas interessadas se façam parecer simpáticas a todos os lados que lhe convém.


Simplesmente tirar da equação o maior proxy de moralidade para fazer política, nesse caso, não vai funcionar. Parece muito fácil –até intuitivo e agradável – fazer política “com números”, “imparcialmente”, “sem ideologia”, mas isso não funciona. Devo lembrar que as decisões mais abomináveis já foram tomadas em nome da ciência e da técnica nos governos. Intelectuais no final do século XIX fizeram amplo uso da teoria da evolução para justificar racismo e eugenia, apesar de amplos argumentos contrários já existindo filosófica e politicamente. Em 1894, o médico, antropólogo e psicólogo Nina Rodrigues, famosamente defendeu a criação de um código penal diferente para raças diferentes [15]. Cesare Lombroso, criminalista italiano, concluiu que o crime é mais comum aos negros com base no tamanho de seus crânios [16] Trofim Lysenko passou a propor teorias científicas que rejeitavam a genética clássica e os conhecimentos prévios na biologia, resultando na fomes em massa nas periferias da União Soviética [17]. os japoneses mataram 14 mil pessoas com experimentos extremos, mas o diretor das pesquisa, Shiro Ishii, foi blindado pelos Estados Unidos em troca de suas descobertas em anatomia humana [18]. Finalmente, a Alemanha famosamente promoveu experimentos torturantes e política eugênicas deploráveis que marcaram um período de horror indescritível para milhões de pessoas dentro e fora do país: consumo de água de esgoto forçadamente, injeção de clorofórmio no coração de crianças gêmeas para realização de dissecações, experimentos de esterilização massa e remoção de partes do corpo para transplante sem anestesia são apenas alguns exemplos [19][20][21].


A política não foi feita para lidar com a ciência pura por que nós não somos máquinas de aço e carvão: somos máquinas que sentem, que amam, que têm dores físicas e emocionais. Nós acreditamos em coisas que não podem ser provadas nunca, e duvidamos de fatos incontestáveis, por que, com frequência, preferimos perder tudo a trair a única coisa que não conseguimos enganar: nossa consciência. E ela, inexplicável e complexa como é, dificilmente é descrita precisamente pela ciência ou segue regras lógicas e racionais, afinal, há o “problema difícil da consciência”: Experiências e processos físicos não podem gerar o tipo de subjetividade e entendimento do “Eu” que nós temos [22]. Em outras palavras, fazer política, algo intrinsecamente humano e, em certa medida, abstrato e transcendental.


Depois desse longo devaneio filosófico, você já deve ter percebido que eu não exatamente respondi a pergunta. A política não pode existir sem moral, certo. Mas e especificamente Deus? Qual o espaço da religião na política? Idealmente, um estado de tolerância mútua a visões de mundo distintas precisa existir, assim como John Locke, por exemplo, já propunha. Coincidentemente, o único tipo de indivíduo que não poderia ser tolerado era o ateu, que não acreditava em nada. Secularizando e adaptando a filosofia política, podemos dizer que cabe na política qualquer um que acredite mesmo em um projeto, em um ideal maior que sua própria vida, e que esteja disposto a trabalhar com tolerância e compreensão para chegar nesse ideal. No mundo das ideias, tudo ótimo. Na prática, não é tão simples.


O Brasil está em uma encruzilhada complexa. Em termos econômicos, há uma certa estabilidade frágil: forças conflitantes dentro do governo que não conseguem entrar em consenso quanto à política fiscal e monetária a serem seguidas, resultando em desconfiança da classe política, do mercado. Por outro lado, o gabinete de Lula não existe sem oposição, que, por mais anêmica e incompetente que possa ser, ainda é a oposição e caminha para um crescimento nesse ano. As dinâmicas em ação vão além do eleitoral: o poder de compra do brasileiro está diminuindo, e a consciência política quanto aos problemas sociais aparenta estar crescendo. Internacionalmente, são tempos turbulentos, com os Estados Unidos forçando a Ordem Internacional Liberal, praticamente já esfacelada por completo, a seus limites, sinalizando uma nova era de competição e tensões. A geração Z está se tornando um jovem-adulto, com energia e discernimento para começar a atuar na sociedade, e pela primeira vez em peso, mas isso é uma faca de dois gumes: O fluxo de informações nunca antes visto na história e a radicalização estão gerando ideias conflituosas, novas, pouco desenvolvidas e instáveis. Finalmente, as instituições políticas do passado estão com dificuldade para se adaptar aos novos tempos, pois o sonho liberal da cooperação sob a anarquia está entrando em conflito com as condições reais da população. Quando ideia e realidade material começam a entrar em conflito, ocorre o que o historiador Hillaire Belloc considera uma das condições essenciais para ruptura de uma sociedade. Para citar um autor um pouco mais popular, Gramsci, “o velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer. É o tempo dos monstros” [23].


Nesse momento de incertezas e resistência a mudanças, é difícil argumentar pela cooperação simultaneamente a ideias fortes. Apesar disso, é preciso agir desse modo. Não se pode deixar a política como uma mera execução de processos industriais. Por outro lado, o sequestro da religião para usos estratégicos precisa ser combatido. Em uma geração que está se tornando mais religiosa, talvez isso não seja difícil. Mas não precisamos nos limitar ao cristianismo: até as religiões cívicas, a devoção a uma causa, seja importante para que nos re-orientemos nessa maré difícil de navegar.


Encerro voltando à série. Sturzo foi obstinado, sim, mas o socialista Matteotti, também lutou bravamente. Quando foi sequestrado pelos Camisas Negras, o parlamentar se debateu em plena luz do dia, feriu um dos capangas de Mussolini e somente parou quando uma faca perfurou seu peito, dando origem ao maior escândalo político do mandato do Duce.


Como resultado, a liderança do ditador entrou em xeque. A população urbana se revoltou, a rural sempre temeu o fascista e agora ganhou mais um motivo. O rei, os políticos tradicionais e os industrialistas não acreditavam mais em sua capacidade, e até seus aliados do partido estavam o ameaçando. Os parlamentares ameaçaram com palavras e jargões políticos, enquanto os paramilitares, com uma faca entre os dentes e  uma arma em sua nuca. Mussolini estava encurralado, paranoico, como um animal acuado.


A pressão construída levou à última sessão do parlamento no mesmo ano do assassinato. Em meio a vaias, tanto as reais quanto as vozes na cabeça do primeiro ministro, ele sobe à tribuna, mantendo uma postura ereta enganosa: o que sobra nas fibras desgastadas de suas costas faltam em moral. Ele se senta, devagar, e observa a gritaria que emanava do plenário que parecia não o afetar - mas somente superficialmente. Quando ele se levanta, o silêncio se instaura. Todos ali presentes esperavam uma renúncia, não havia dúvidas de que ele havia mandado matar Matteotti. Mas, ao invés de capitular, Mussolini admite a barbárie. Ele circula pela casa, discursando cinicamente sobre as ações do governo sem moral nenhuma, descrevendo quase que de maneira jocosa como ele e seus milicianos eram responsáveis, sim, pelo crime. Admitindo a incompetência do aluguel de um carro para sequestrá-lo, da gritaria, e da decisão dos assassinos de realizar uma grande orgia no maior hotel de Roma logo após matarem o parlamentar, ele conclui que existe um desejo geral de que seu gabinete caia. Afinal, aqueles políticos ali presentes, envolvidos na maior sordidez possível e perpetradores de um sistema ineficiente por anos, provavelmente querem ver a calmaria voltar, enquanto alguns socialistas estão esperando, metafórica e literalmente, uma mudança que não viria com Mussolini. Logicamente, o Duce poderia cair.


Ele relembra que o parlamento detém o poder de investigar criminalmente o gabinete, basta alguém pedir, levantar a voz e abrir uma ação parlamentar. Mussolini pergunta se alguém tem alguma acusação a fazer contra o fraco e isolado fascista.


Ele espera. E espera. E espera mais um pouco.


O vazio toma conta da câmara. 


Silêncio”, reforça o Duce


O velho mundo, moribundo, deixou-se morrer. O novo, não teve a força e a coragem para nascer. O monstro ascendeu.


Nosso papel geracional como agentes políticos não será lutar contra o fascismo, pois ele ficou no século passado. Nem o tal comunismo ou qualquer outro rótulo político que serve de xingamento. O que está por vir são problemas muito únicos para a nossa geração. Estamos vendo a apatia frente a problemas reais e a conformidade com o mesquinho e medíocre. A busca da excelência, de valores transcendentais, do desejo de cuidar do próximo estão se acabando. O pensamento crítico e a produção de conhecimento que antes os grandes historiadores, economistas, filósofos, antropólogos e sociólogos criaram sobre a sociedade é cada vez menor. Resumidamente, é o pior dos dois mundos: falta prática e falta teoria.


Posso estar, e muito provavelmente estou, errado em muitos pontos. Afinal, quem sou eu para discorrer sobre algo tão complexo. Mas vejo a necessidade de ressaltar esse fato óbvio de que não existe progresso sem visão, e visão sem propósito.


Em resposta à pergunta inicial, precisa caber. Sem Deus, tudo é permitido. O Deus em questão pode ser o Deus de Abraão, sim. Também pode ser alguma outra divindade ou guia moral que vá nos conduzir no futuro. Fatalmente, se não cabe Deus na política, precisamos fazer caber.  

Imagem da capa: Pablo Valadarez/Câmara dos Deputados _______ Referências


[1]BRITANNICA EDITORS. Luigi Sturzo, [S.d.]. (Nota técnica).

[2] COMSTOCK, Frannie; BRITANNICA EDITORS. Christian Zionism, 23 jan. 2026. (Nota técnica).

[3] NEGRISOLI, Lucas. Flávio Bolsonaro reafirma que candidatura é irreversível e diz agora ser contra pena de morte. Disponível em: <https://www.itatiaia.com.br/politica/eleicoes/flavio-bolsonaro-reafirma-que-candidatura-e-irreversivel-e-diz-agora-ser-contra-pena-de-morte>. Acesso em: 20 fev. 2026.

[4]Por que a Igreja Católica decidiu condenar a pena de morte – e por que não havia feito isso antes. BBC News Brasil, [S.d.].

[5] Facts About the Death Penalty – Do All Religions Support the Death Penalty? Disponível em: <https://deathpenaltyinfo.org/facts-about-the-death-penalty-do-all-religions-support-the-death-penalty>. Acesso em: 20 fev. 2026.

[6] REUTERS. Bombeiros, PF e igrejas são entidades com maior confiança da população, diz pesquisa. CNN Brasil, 18 jul. 2023.

[7] RIBEIRO, Alice Maciel, Andrea DiP, Raphaela. Megaigrejas continuam abertas e dizem que fé cura coronavírus. Agência Pública, 19 mar. 2020. Disponível em: <https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/>. Acesso em: 20 fev. 2026

[8] RESENDE, Leandro. Pastores envolvidos em escândalo do MEC foram 28 vezes ao Planalto. CNN Brasil, 24 fev. 2023.

[9] MILMANDA, Belén Fernández. Harvesting Influence: Agrarian Elites and Democracy in Brazil. Politics & Society, v. 51, n. 1, p. 135–161, 1 mar. 2023.

Hard Problem of Consciousness | Internet Encyclopedia of Philosophy. , [S.d.]. Disponível em: <https://iep.utm.edu/hard-problem-of-conciousness/>. Acesso em: 20 fev. 2026

[9] MILMANDA, Belén Fernández. Harvesting Influence: Agrarian Elites and Democracy in Brazil. Politics & Society, v. 51, n. 1, p. 135–161, 1 mar. 2023.

[10] PUPULIM, Pedro. Deputado do Novo aciona Peninha na Justiça por discurso de ódio contra evangélicos. VEJA, [S.d.].

[11] Atingido por raio durante ato que encerrou caminhada de Nikolas Ferreira é transferido para UTI. O Globo, 26 jan. 2026.

[12] Quais são os estados com mais católicos no Brasil? Veja lista do Censo 2022. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/06/06/quais-sao-os-estados-com-mais-catolicos-no-brasil-veja-lista-do-censo-2022.ghtml>. Acesso em: 20 fev. 2026.

[13] No Piauí, Lula vence com 76,84% dos votos válidos; melhor desempenho do país | G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/pi/piaui/eleicoes/2022/noticia/2022/10/30/no-piaui-lula-vence-com-7685percent-dos-votos-validos.ghtml>. Acesso em: 20 fev. 2026.

[14] Roraima garante a Bolsonaro maior votação em percentual do Brasil | G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2022/10/03/roraima-garante-a-bolsonaro-maior-votacao-em-percentual-do-brasil.ghtml>. Acesso em: 20 fev. 2026.

[15] RODRIGUES, Marcela Franzen. Raça e criminalidade na obra de Nina Rodrigues: Uma história psicossocial dos estudos raciais no Brasil do final do século XIX. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 15, n. 3, p. 1118–1135, 5 nov. 2015.


[16] Cesare Lombroso e a teoria do criminoso nato | Jusbrasil. Disponível em: <https://www.jusbrasil.com.br/artigos/cesare-lombroso-e-a-teoria-do-criminoso-nato/625021486>. Acesso em: 20 fev. 2026.


[17] Trofim Lysenko, the Soviet Era’s Deadliest Scientist, Is Regaining Popularity in Russia - The Atlantic. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/science/archive/2017/12/trofim-lysenko-soviet-union-russia/548786/>. Acesso em: 20 fev. 2026.


[18] BRODY, Howard et al. United States Responses to Japanese Wartime Inhuman Experimentation after World War II: National Security and Wartime Exigency. Cambridge quarterly of healthcare ethics : CQ : the international journal of healthcare ethics committees, v. 23, n. 2, p. 220–230, abr. 2014.

[19] HARVARD UNIVERSITY. Nuremberg Trials Project. Nuremberg.law.harvard.edu, 2026. Disponível em: https://nuremberg.law.harvard.edu/. Acesso em: 20 fev. 2026


[20] AUSCHWITZ-BIRKENAU MEMORIAL AND MUSEUM. Selections and lethal injections – camp hospitals. Auschwitz.org, 2026. Disponível em: https://www.auschwitz.org/en/history/camp-hospitals/selections-and-lethal-injections/. Acesso em: 20 fev. 2026.


[21] Ibid


[22] MINTZ, Steven. Gramsci’s Warning. Disponível em: <https://www.insidehighered.com/opinion/columns/higher-ed-gamma/2025/03/17/old-world-dying-and-new-one-struggling-be-born>. Acesso em: 20 fev. 2026.

Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Guilherme Neto

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