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Coluna de Entidades

EUA x Irã: Como a crise em Hormuz ameaça o comércio global

A crise envolvendo EUA, Irã e Israel recolocou o Estreito de Hormuz no centro das preocupações do comércio global.

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Expori Jr.

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Lara Celani

8 min de leitura

12 de maio de 2026

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A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada no fim de fevereiro de 2026, recolocou o Oriente Médio no centro das preocupações econômicas globais. Embora o conflito tenha dimensão geopolítica e militar evidente, seus efeitos ultrapassam o campo de batalha. Isso porque, desde março, a instabilidade no Golfo Pérsico passou a afetar diretamente o comércio internacional, os preços de energia e a segurança das rotas marítimas. Mesmo após a tentativa de cessar-fogo em abril, a situação permanece instável, com acusações de novas violações, impasses diplomáticos entre Washington e Teerã e restrições persistentes à navegação no Estreito de Hormuz. Até 9 de maio, a rota seguia como o principal foco econômico da crise, uma vez que qualquer bloqueio, atraso ou encarecimento da passagem ameaça parte relevante do fluxo de insumos estratégicos, como petróleo e gás.


O ponto central dessa crise é uma faixa de mar relativamente estreita entre o Irã e Omã, o Estreito de Hormuz, um dos principais gargalos do comércio global de energia. Por ali passam exportações de petróleo e gás de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Irã. A Agência Internacional de Energia estima que, em 2025, quase 20 milhões de barris de petróleo e derivados tenham sido exportados por Hormuz diariamente, enquanto as rotas alternativas disponíveis pelo Mar Vermelho e pelo porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, têm capacidade muito menor.


Essa concentração transforma Hormuz em um exemplo clássico de chokepoint, ou seja, um ponto de passagem obrigatório cujo bloqueio ou risco de interrupção pode gerar efeitos desproporcionais sobre a economia global. Em outras palavras, não é necessário que o mundo deixe de produzir petróleo para que haja uma crise, mas basta que o petróleo não consiga sair, ou que sua saída se torne mais cara, mais lenta e mais arriscada. A UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), órgão da ONU para comércio e desenvolvimento, apontou que a disrupção em Hormuz reduziu drasticamente o trânsito de navios e produziu efeitos em cadeia sobre mercados de energia, transporte marítimo e cadeias globais de suprimentos.


O primeiro impacto aparece nos preços de energia. Quando o risco de interrupção aumenta em uma rota responsável por parte significativa do comércio marítimo de petróleo e gás, o mercado antecipa a escassez, o que pressiona o preço do barril, encarece derivados e afeta setores que dependem intensamente de combustível, como transporte, indústria, aviação, agricultura e logística. A OPEC+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) anunciou em maio deste ano um aumento modesto de cotas de produção para junho. No entanto, a agência de notícias Reuters destacou que esse gesto é em grande parte simbólico enquanto Hormuz seguir fechado ou restrito, já que produtores do Golfo enfrentam limitações físicas para escoar petróleo.


O segundo impacto ocorre sobre o frete internacional e o seguro marítimo. Em um ambiente de guerra, navios podem evitar determinadas rotas, atrasar embarques, aguardar escolta ou pagar prêmios maiores de seguro. Isso eleva o custo de transportar mercadorias, especialmente em cadeias que dependem de pontualidade e baixo custo logístico. A crise em Hormuz, portanto, mostra que o comércio exterior não depende apenas de tarifas, acordos comerciais ou demanda internacional, mas que ele depende também da segurança física das rotas por onde bens e insumos circulam.


O terceiro impacto, menos visível, mas extremamente importante, envolve os fertilizantes. O preço de fertilizantes nitrogenados está ligado ao custo do gás natural e da energia. Além disso, parte relevante do comércio de insumos agrícolas depende de rotas marítimas sensíveis. Quando energia, frete e seguro sobem ao mesmo tempo, o custo de produção agrícola também aumenta. O Banco Mundial projetou, em abril de 2026, uma alta expressiva nos preços de energia e fertilizantes em razão da guerra no Oriente Médio, com efeitos potenciais sobre inflação e crescimento em economias em desenvolvimento.


Para o Brasil, a crise é especialmente relevante por três razões. A primeira é o diesel. Mesmo sendo produtor de petróleo, o país ainda importa parte significativa do diesel que consome. Segundo a Reuters, o Brasil importa cerca de 30% de suas necessidades de diesel, o que torna setores, como o agronegócio e o transporte rodoviário, vulneráveis a choques internacionais de energia. Em um país onde grãos percorrem longas distâncias por caminhões até portos, o aumento do diesel afeta diretamente o custo de exportação.


A segunda razão é a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Brasil é uma potência agrícola, mas depende fortemente do exterior para obter os insumos que sustentam sua produtividade. Segundo o documento Brazil Macroeconomic Monitor, o Ministério da Fazenda aponta que, em 2025, o país importou US$15,6 bilhões em fertilizantes, com forte dependência externa em nutrientes como nitrogênio, potássio, enxofre e fosfato. Essa vulnerabilidade transforma conflitos distantes em risco direto para o custo do agro nacional.


A terceira razão é o próprio reposicionamento dos fluxos comerciais. Crises desse tipo não geram apenas perdas, uma vez que elas também redirecionam mercados. Países compradores buscam fornecedores alternativos, empresas mudam rotas e exportadores de energia podem ganhar relevância. Para o Brasil, isso cria uma situação ambígua. Por um lado, o petróleo caro pode beneficiar receitas de exportadores e aumentar a atratividade do óleo brasileiro. Por outro, o diesel, frete e fertilizantes mais caros pressionam custos internos, especialmente no agronegócio e na logística.


Assim, a crise entre EUA e Irã no Estreito de Hormuz revela que a globalização depende de passagens físicas vulneráveis. Durante décadas, empresas e países buscaram eficiência, estoques menores e cadeias produtivas mais baratas. Agora, guerras, sanções e bloqueios marítimos tornam a segurança logística tão importante quanto o preço. O caso de Hormuz mostra que uma guerra regional pode rapidamente se transformar em um choque global de energia, alimentos e inflação.


Imagem de capa: Pinterest


Referências


BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Assuntos Internacionais. Brazil Macroeconomic Monitor. Brasília: Ministério da Fazenda, 27 abr. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/sain/brazil-macro-monitor/arquivos/brazil-macro-monitor-7.pdf. Acesso em: 9 maio 2026.


INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Strait of Hormuz. Paris: IEA, fev. 2026. Disponível em: https://www.iea.org/about/oil-security-and-emergency-response/strait-of-hormuz. Acesso em: 3 maio 2026.


U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. Amid regional conflict, the Strait of Hormuz remains critical oil chokepoint. Today in Energy, Washington, 16 jun. 2025. Disponível em: https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=65504. Acesso em: 3 maio 2026.


UNITED NATIONS TRADE AND DEVELOPMENT. Strait of Hormuz disruptions: implications for global trade and development. Genebra: UNCTAD, 10 mar. 2026. Disponível em: https://unctad.org/publication/strait-hormuz-disruptions-implications-global-trade-and-development. Acesso em: 3 maio 2026.


UNITED NATIONS TRADE AND DEVELOPMENT. Hormuz disruption deepens global economic strain across trade, prices and finance. Genebra: UNCTAD, 1 abr. 2026. Disponível em: https://unctad.org/news/hormuz-disruption-deepens-global-economic-strain-across-trade-prices-and-finance. Acesso em: 3 maio 2026.


REUTERS. US seeks international help to reopen Strait of Hormuz as crude prices surge. Reuters, 30 abr. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/trump-urges-iran-sign-deal-after-report-suggests-us-may-extend-blockade-2026-04-29/. Acesso em: 3 maio 2026.


REUTERS. OPEC+ agrees third oil output quota hike since Hormuz closure. Reuters, 3 maio 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/opec-set-agree-third-oil-output-quota-hike-since-hormuz-closure-sources-say-2026-05-03/. Acesso em: 3 maio 2026.


WORLD BANK. Middle East War to Spark Biggest Energy Price Surge in Four Years. Washington: World Bank, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2026/04/28/commodity-markets-outlook-april-2026-press-release. Acesso em: 3 maio 2026.


BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Assuntos Internacionais. Brazil: Macroeconomic Monitor. Brasília: Ministério da Fazenda, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/sain/brazil-macro-monitor/arquivos/brazil-macro-monitor-7.pdf. Acesso em: 3 maio 2026.


Revisado por Ana Carolina Narios Clauss e Equipe de Revisão

Escrito por

Expori Jr.

Há menos de 1 mês na Gazeta

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Escrito por

Lara Celani

Há 6 meses na Gazeta

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