A HISTÓRIA DOS JINGLES POLÍTICOS BRASILEIROS



A chegada de 2022 traz consigo a expectativa da realização de diversos eventos de importância internacional, como a Copa do Mundo do Catar, as Olimpíadas de Inverno em Pequim e, também, aquele de maior relevância para a política brasileira: a eleição presidencial de 2022. Com o processo eleitoral, nascem campanhas, alianças políticas, promessas, planos de governo e, talvez, o elemento mais importante do marketing político: os jingles eleitorais, que servem como retratos sonoros da eleição.


Os jingles eleitorais são pequenas canções que servem, ao mesmo tempo, um propósito político e um publicitário. O objetivo primário de um jingle político é a consolidação de conceitos-chave a respeito do candidato na mente do eleitor, isto é, seu nome, número e sigla eleitoral. Eles também pretendem atuar na desconstrução de possíveis pré-concepções da mídia, enquanto a arrecadação de votos e de apoio popular ficam como objetivos secundários. Resumindo em poucas palavras: o objetivo de um jingle é grudar, na cabeça do eleitor, as informações mais importantes sobre o candidato com o qual o publicitário que o compôs trabalha.


O surgimento dos jingles políticos, em solo brasileiro, ocorreu em paralelo à popularização do rádio no país, durante a década de 1930. Os primeiros jingles eleitorais surgiram justamente na eleição de 1930, com “Eu Ouço Falar”, da campanha para presidente de Júlio Prestes, e com “Seu Getúlio”, da campanha para presidente de Getúlio Vargas. Nas décadas subsequentes, os jingles foram se tornando cada vez mais caricatos e memoráveis, entre eles temos a marchinha “Bota o Retrato do Velho Outra Vez”, que marcou a candidatura de Getúlio Vargas à presidência em 1950, “Eu vou Jangar”, do candidato à vice-presidência João Goulart, “Varre, Varre Vassourinha”, de Jânio Quadros para a presidência, ambos compostos para a eleição de 1960, e “Lula Lá”, que marcou o processo da redemocratização brasileira durante a eleição presidencial de 1989.


O “Varre, Varre Vassourinha” de Jânio Quadros utiliza da melodia para consolidar os conceitos-chave do candidato na cabeça do eleitor. Por meio de trechos como “Varre, varre vassourinha, varre, varre a bandalheira, o povo já está cansado de sofrer dessa maneira, Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado, Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado”, o candidato do Partido Trabalhista Nacional (PTN) começa a exteriorizar aquilo que se tornaria sua principal plataforma política: o combate à corrupção, sua imagem caricata, a “vassoura de palha” e seu “compasso moral”, imortalizado na proibição dos jogos de azar do Brasil em 1960, que vigora até os dias de hoje.


O jingle “Lula Lá” de Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, tem como principal objetivo desconstruir um conceito que foi pré-consolidado pela mídia na década de 1980: o medo do radicalismo que poderia acompanhar uma possível eleição do candidato petista. Através de trechos como “Passa o tempo e tanta gente a trabalhar, de repente essa clareza pra notar, quem sempre foi sincero e confiar, sem medo de ser feliz, quero ver chegar! Lula lá, brilha uma estrela, Lula lá, cresce a esperança, Lula lá, o Brasil criança. Na alegria de se abraçar, Lula lá, com sinceridade, Lula lá, com toda certeza, pra você meu primeiro voto, pra fazer brilhar nossa estrela”, o ex-presidente Lula, ao recorrer a passagens como “sem medo” e “crescer a esperança”, procurou desconstruir a ideia de que, caso eleito, promoveria políticas radicais para os eleitores mais moderados e para os mercados. Similarmente, o ex-presidente buscou consolidar e vincular sua imagem ao principal símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT): a estrela.


Os jingles, assim como outras manifestações políticas, não são imutáveis e sua abordagem tende a variar de acordo com o público-alvo da campanha e com o avanço da tecnologia. O jingle da campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014, “Coração Valente”, conta com trechos como: “Você nunca desviou o olhar do sofrimento do povo. Por isso eu te quero outra vez, por isso eu te quero de novo. Você nunca vacilou em lutar em favor da gente”, buscando apelar aos eleitores de classes mais baixas em meio ao início de uma crise econômica.


De modo semelhante, os primeiros jingles, que começaram a ser distribuídos pelo rádio na década de 1930, hoje, contam com diversas opções de divulgação, tais como a televisão, plataformas digitais, carros de som, além de geralmente serem acompanhados por um clipe elaborado e por uma equipe ampla de publicitários. As eleições de 2022 vêm aí e agora é esperar para ver, ou melhor, ouvir.




Autoria: Gustavo Emmanuel

Imagem de capa: Gazeta Vargas


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Referências/Fontes:


PORTAL PRESS. Jingle: o retrato sonoro de uma eleição - Portal Press. Portal Press. Disponível em: <http://revistapress.com.br/advertising/jingle-o-retrato-sonoro-de-uma-eleicao/>.

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LOURENÇO, Luiz. Jingles Políticos: estratégia, cultura e memória nas eleições brasileiras. [s.l.: s.n., s.d.]. Disponível em: <http://www4.pucsp.br/revistaaurora/dez_2008/lourenco.pdf>.


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‌WERMELINGER, Gabriel. Varre varre vassourinha! Jânio Quadros. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=m0QfM_IJsBw>.


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