BANALIZAÇÃO DA COLA: O MODELO EAD



Hieronymus Bosch, "A Nau dos Loucos", 1500-1510.

Prima-prova-parcial-pandêmica


Foi, foi numa manhã de sexta-fria.

Depois, depois do passar de tarde anterior,

pouca alegria, cheio de dor,

desconfortável, eu, fizera involuntária feitoria.


Não houvera sentido, mas motivo.

“Colinhas” fora a instaurada democracia,

achada por pessoas de maestria,

para que o severo estudar se tornasse digestivo.


Entretanto, com o agora pandêmico desconsolar

– absurdo e revelador –, claro,

algo ganhava sua vontade, seu espaço.

Pássaro! Passava a voar sem hesitar.


O que nasceu dali foi para o sempre:

precisava haver prova na incerteza.

Faculdade imperou sua “justeza”.

Fria. Cega. Rápida. -Mente.


Professor resolveu: poderíamos viver um de dois exames.

N’um: agora, pra “saudável”;

n’outro: quando e onde, “vulnerável”.

E, mal sabia o que viria; mentiras aos enxames...


“Tio do meu pai está suspeito de covid”

“Prima-prima-prima de vó minha tosse grave suspeita”

“Suspeita anônima distante sujeita”

Coro de risadas e silêncios - pura-bajulice.


Ousar leva junto muita coisa... Rumo-cima-baixo

Ora pomba, o desencadear das maldades.

Ora corvo, nutre-se da ausência de inconformidades.

Oro: “Acordem, o mundo-fora-dos-eixos...”



Movimentação


Alguém dissipou o ilusório mérito

- tão pequeno, tão banal, tão inexistente.

Era caminho de gente que queria ser gente,

Mérito, cracia: mecratocia - rito.


Agora, para alívio, se esvaiu,

pois afrouxou-se todas as presilhas, é terra de ninguém.

Narciso vai junto, o sonhar também:

os valores mudaram – todo esforço é vil.


Na parede, um quadro.

Ele mede a honra - só gente bonita:

gente que rouba, gente desapercebida,

gente exibida, gente de teatro.


Gente. Mas, que fácil apontar o dedo!?

Do cálice da inocência, ninguém bebeu.

Nem eu, às minhas maneiras – só véu!

Nem ativistas: muito sofá - medo.


Isso porque tudo se tornou tabu.

Sentindo na carne o gosto e o desejo,

reprimindo a autoimagem pavorosa do sujeito,

colocamos os silêncios num grande museu.


Dos isentos, teve luta, mas de interno.

Teve, também, receio de cumplicidade suspeita.

Tolos, santos e bestas:

“Nunca colei, a mim não darão o Inferno”


Outros, fé ingênua na tecnologia:

cegos, falavam de bondade coletiva,

por meio de microfones e câmeras mantida.

Mas não aconteceu. Delineou-se a história – sem magia.


Hoje, tudo já é normal.

Quer dizer, estranheza passou – incorporação.

Mas, fica: injustiças já são frequentes nesta nação

- um jeitinho travestido de inocente-formal.


Nessa moçoroca, índio quer saber:

“O que é que se passa nesta terra anticivilizada?”

- Na banalização e naturalização da cola, a Máquina Desajeitada;

o impossível se cria, se identifica, se entreolha. Faz-se ser.



Eu, de-olho


Continuo certo-seguro em desespero nessa vida.

Descubro: feliz é saber o que tem;

não, não é saber-frequente da falta de algo ou alguém.

Quero ter mais-sem-mais dívidas.


Quitar? E eu mais sou o que, depois de tudo?

Sou nada. Se sou, sou o não-agir.

Não, não sou. Sou o quis: queria devir.

Mas, agora, olhos-perdidos falam e descansam. Mudo, fui mundo.


Dirão que a terra condiciona o homem,

que éramos reféns. Mas não,

a luta delineia-se de pé e mão.

Coragem... Coragem? Coragem!


Careceu-se de vontade.

Morreu-se em vontadezinhas e pensamentos.

Sem vontade – com pequenos ganhos -, padece movimento;

“Sem movimento, não há luta.” Ambiguidades...


Mirando em dores, se-diz-se: se-canta-se apenas a realidade...

Mas, que se-seria se-minha vida

se-se não se-tivesse-se em mim massa colorida

para se-se se-cartar-se sonhos de uma subjetividade?



Gabriel Linares, 2021




Autoria: Gabriel Linares Fernandes; Revisão: Julia Maciel de Rodrigues & João Vitor Garcia Vedrano; Imagem de capa: Hieronymus Bosch, "A Nau dos Loucos", pintura sobre madeira, 1500-1510.


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