DURA DE ROER: A HISTÓRIA DE ÂNGELA DINIZ RETRATADA EM UM PODCAST


Nota: esta resenha é sobre o podcast Praia dos Ossos. Não se preocupe, não há grandes spoilers, ou melhor, revelações que talvez você não queira saber ao ler este texto.


Poderia ser um podcast assustador, mas, sabendo a verdade, não tem mistério. Não dá medo. Poderia ser um podcast de crime, se não fosse de política. Poderia ser sobre isso, mas não é, porque é sobre história. Poderia ser sobre gênero, se não fosse também sobre raça e classe. Poderia ser sobre coluna de fofoca, se não fosse minimamente assustador. E, aí, entro em uma espiral de não saber definir esse podcast, o que não me soa como um problema. Praia dos Ossos, novo podcast da Rádio Novelo, idealizado e narrado pela Branca Vianna, é, como já deu para perceber, sobre tudo. A única coisa que ele não faz é nos deixar calmos, tranquilos. Ou melhor: calmas e tranquilas. Não.


A Rádio Novelo é uma produtora de podcasts carioca, criada em 2019. Algumas de suas produções de destaque são em conjunto com a revista piauí, como Foro de Teresina, Maria Vai com as Outras e o recente Retrato Narrado - Bolsonaro. A Rádio também produz o famoso Boletos Pagos, em que Nath Finanças exibe sua didática brilhante sobre contabilidade e finanças pessoais. Em resumo, a Novelo está envolvida em produções boas, que buscam alcançar diversos públicos e que estão em destaque nos podcasts de hoje.


Branca Vianna, para alguns, seria apresentada como esposa de alguém com uma profissão específica na qual se destaca. Mas eu ouvi Praia dos Ossos; e, mesmo antes disso, nunca apresento mulher nenhuma a partir do homem com quem ela se relaciona. Branca já foi intérprete do inglês - língua que pronuncia de maneira invejável, em rápidas citações no podcast. Sobre o ofício da interpretação, já foi professora na PUC-Rio por mais de dez anos. Foi ela quem fundou e é ela quem preside a Rádio Novelo.


Em Praia dos Ossos, Branca trabalha com Flora Thompson-Deveaux, que é diretora de pesquisa não só desse programa, mas da produtora. A americana radicada do Brasil traduziu Memórias Póstumas de Brás Cubas para sua língua materna. No podcast, parece ter um papel bem importante na descoberta de documentos e pessoas para entrevistar. Aqui, já destaco as apresentações que Vianna faz nos créditos. Segundo ela, Flora decorou as centenas de páginas dos autos do processo e sabe dançar o tcha-tcha-tcha. Sinto esses créditos como um motivo para rir ao final de cada episódio. Na Novelo, também trabalham mixadores, criadores, roteiristas, produtores, compositores, editores, designers e montadores. É uma equipe grande, cheia de pessoas com currículos animadores e que, juntas, prometem mesmo podcasts excelentes, além de indicar um novo tipo de coletivo profissional que pode se disseminar rapidamente nos próximos anos.


Em Praia dos Ossos, essa equipe toda, na voz de Branca, idealizadora e narradora do podcast, conta com detalhes a história da morte de Ângela Diniz. Ela era uma socialite dos anos 70, mineira, conhecida como a “pantera de Minas”. Na noite de 30 de dezembro de 1976, foi morta pelo namorado Doca Street, em Búzios, na praia que dá nome ao programa. Se fosse só isso, o programa não existiria, e nem esta resenha.


O crime foi julgado por muito mais do que os cinco membros do júri popular. Raul Fernando Amaral Street, o assassino confesso, que hoje seria - ou ao menos deveria ser - chamado de feminicida, cometeu, segundo a repercussão da época, um crime “em legítima defesa da honra”.


Até agora, cinco dos oito episódios já foram lançados -- provocando a abstinência de quem, como eu, ouviu os quatro primeiros em menos de 12 horas, encarando os próprios exagero e drama. As entrevistas de Praia dos Ossos são com testemunhas, amigos da vítima e do autor do crime, familiares, advogados, feministas da época e jornalistas. É formada uma visão completa e global do caso. Mesmo assim, há uma crítica sutil, que não conduz o ouvinte a uma conclusão - e não vou falar como, mas o episódio 5, lançado no último sábado, é a prova disso -, mas mostra o quanto a decisão de absolver Doca foi equivocada e baseada em privilégios. Além disso, o podcast sai da superficialidade ao investigar outros pontos da vida de Ângela, principalmente no quarto episódio, “Três Crimes”.


A ideia do programa, à primeira vista, me pareceu a de O caso Evandro, o único podcast de crime ou mistério que eu havia me desafiado a ouvir, e que parei no meio, para não pirar. Ele fala sobre o assassinato de um menino no litoral do Paraná, em Guaratuba, em 1992. O criador Ivan Mizanzuk, que mostra ser um impressionante investigador, entrevista diversos atores envolvidos e mostra que o caso tinha muitos mais detalhes do que o que foi motivo para a decisão final da justiça, um ritual satânico. A grande diferença, que foi o que me fez ter começado a ouvir Praia dos Ossos, é o elemento mistério. Ele não existe, pelo menos no caso principal. A morte de Ângela pode não estar resolvida até hoje para os fiéis de Doca, mas, para mim, foi feminicídio. Ela não era submissa e expunha o que pensava, ia a festas da “night carioca” e causava desconforto nos homens, era “dura de roer”. Nada que seja muito diferente de 2020: Jesus Cristo, o mesmo que estava atrás da cadeira do juiz no julgamento de Doca (ou de Ângela, postumamente) em 1979, passou por aqui há mais vinte séculos e ainda não conseguimos aceitar a liberdade de uma mulher.

Não me cabe, aqui, contar a história de Ângela. Em geral, todo mundo sabe. Ou tem uma mãe ou avó que sabe, a depender da sua idade. Minha avó tinha a idade de Ângela e minha mãe tinha mais ou menos a idade de seus filhos quando ela foi morta. Branca Vianna, com 13 anos, constou de um abaixo-assinado feminista sobre o caso, com sua mãe e sua irmã. Diz, no podcast, que não se lembra disso.


Entre aquela época e agora, vejo mudanças: a Fatos e Fotos, revista de fofoca da época, virou o feed do Instagram; os casais se divorciam, o desquite não existe mais; vivemos sob nova constituição, em um Estado Democrático de Direito; há cada vez mais mulheres juízas, mulheres advogadas, mulheres jornalistas, mulheres políticas; e, apesar de não ser para todo mundo, o ideal de família lentamente deixa de ser uma mulher do lar, seu marido que trabalha (no caso da classe média e da classe alta) e seus filhos.


Por outro lado, tem uma coisa que me parece ter sido difícil de mudar. A culpabilização da vítima, a glorificação do criminoso, no caso de crimes de gênero. Jogadores de futebol condenados por homicídio e estupro continuam jogando, heróis de seus clubes. As delegacias ainda demonstram a dificuldade em atender mulheres vítimas de violência doméstica ou sexual. Por mais absurdo que seja, estupros ainda são justificados porque “ela pediu”, pela roupa da vítima. Escolas e universidades, por vezes, não penalizam seus alunos que cometem assédio ou outros crimes. Os exemplos, infelizmente, são muitos. Por isso, se você não era nascido ou não lia notícias nos anos 70, ou, então, se ainda acha que é possível justificar um feminicídio por “legítima defesa da honra”, ou que mulheres vítimas de crimes de gênero têm culpa, pode ouvir Praia dos Ossos, que terá todos os oito episódios lançados até o final de outubro e está disponível nos tocadores ou no site da Rádio Novelo.(https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/o-crime-da-praia-dos-ossos).





Ângela em 1962. Acervo Estado de Minas. Disponível em: https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/angela




Ângela Diniz no apartamento de uma amiga carioca. Acervo Estado de Minas. Disponível em: https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/a-pantera



Ângela em foto do acervo de Kiki Garavaglia. Disponível em: https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/a-pantera

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