PESQUISAS ELEITORAIS SÃO FRAUDADAS? COMO SÃO FEITAS E POR QUE ERRAM?



A cada 2 anos, elas aparecem deixando pessoas morrendo de raiva ou de alegria e gerando todo tipo de teoria da conspiração. Isso mesmo, as pesquisas eleitorais voltaram! Estamos em ano de eleição e mais uma vez os institutos de pesquisa mais conhecidos - como DataFolha, Ibope e tantos outros - começam a fazer as projeções de como as pessoas votam, quais os candidatos com maior força e quais serão os futuros representantes do povo. Mas afinal, por que as pesquisas eleitorais erram tanto? Será que esses institutos não pesquisam direito? Será que as pessoas respondem errado só para atrapalhar as pesquisas? Será que elas são financiadas por essa mídia corrupta e parcial comprada por apoiadores do (insira aqui o candidato que você detesta)?


Para entender isso, precisamos entender como as pesquisas eleitorais são feitas. Vamos começar pelo óbvio: suponha que você queira saber como serão os resultados das eleições para prefeito de São Paulo - uma cidade com uma população de 12,18 milhões de habitantes e com um número de eleitores de aproximadamente 8,2 milhões¹ - seria impossível entrevistar um por um. Portanto, o que se faz é pegar uma amostra, ou seja, um pequeno grupo de cerca de 1000 pessoas dessa população, e perguntar como elas votam. Simples assim? Nem tanto, existe um modo correto de escolher essa amostra.


Amostragem


Em primeiro lugar, a amostra deve ser feita de modo proporcional e ser representativa da população. Por exemplo, se a população votante de São Paulo for composta em 54% por mulheres e 46% por homens, então, considerando uma amostra de 1000 pessoas, 540 mulheres e 460 homens deverão participar da pesquisa. Isso se estende para outras categorias como idade, escolaridade, ocupação, filiação partidária, religião, cor da pele, renda familiar² e, no caso de pesquisas para cargos estaduais ou federais, são levados em conta também a região do país, a natureza do município (capital ou interior) e o porte do município (definido a partir do número de habitantes)³.


Sabendo qual a composição ideal da amostra, as pessoas dentro de cada conjunto de categorias são escolhidas aleatoriamente. Se eu precisar, por exemplo, que 5% da minha amostra seja composta por homens, sem religião, com ensino médio completo, autodeclarados pardos, sem filiação partidária e com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos – o que seriam 50 pessoas da nossa amostra de 1000 – então essas 50 pessoas seriam escolhidas aleatoriamente dentre o grupo de 5% da população total que teria essas características. Com isso, a pesquisa busca fazer com que a amostra seja o mais fiel possível à população, capturando cada aspecto demográfico que possa influenciar o voto.


Isso já responde a famosa pergunta: “como pode candidato X estar tão bem nas pesquisas se não conheço ninguém que vota nele?” Bom, em geral, é mais comum convivermos e fazermos amizade com pessoas mais parecidas conosco, já que desenvolvemos nossos relacionamentos na faculdade, no trabalho, no bairro ou em outros círculos de convivência frequentados por pessoas semelhantes a nós – muito provavelmente a maioria dos seus amigos e conhecidos têm a renda, idade, cor de pele e religião iguais ou parecidas com a sua. Segundo a última pesquisa do DataFolha para as eleições de São Paulo, na data em que esse texto foi escrito, o candidato Bruno Covas liderava as intenções de voto com 28%, e os candidatos Celso Russomano e Guilherme Boulos estavam empatados tecnicamente com 16% e 14%². Porém, dividindo o resultado por renda, as diferenças eram muito maiores: entre o eleitorado mais rico - aqueles que ganham mais de 10 salários mínimos - Boulos tinha 21% das intenções de voto e Covas tinha 37%, ao passo que Russomano tinha apenas 5%; já entre os eleitores mais pobres – com renda de até 2 salários mínimos – Russomano tinha 24%, enquanto Boulos tinha apenas 8%². Somando a isso o fato de Boulos ser o candidato mais popular entre os mais jovens (16 a 24 anos) com 29% das intenções de voto, e Covas o 2º mais popular com 19%, contra apenas 9% de Russomano, não fica difícil entender porque é tão fácil encontrarmos alunos da FGV que votarão em Boulos ou Covas, mas tão difícil achar aqueles que votarão no Russomano (eu mesmo não conheço nenhum). Portanto você “não conhecer ninguém que vote em candidato X”, além de não provar que as pesquisas estão erradas, é algo totalmente esperado.


“Não conheço ninguém que foi entrevistado”


Outra grande confusão é feita quando falamos da confiabilidade. Você já deve ter ouvido algo como “essa pesquisa tem uma margem de erro de 2 pontos percentuais e um nível de confiança de 95%”. Isso significa que há 95% de chance de que os resultados dessa pesquisa serão os resultados das eleições? Não, isso significa que, se a mesma pesquisa fosse feita infinitas vezes, na mesma data, com o mesmo método de seleção da amostra, 95% das vezes os resultados estariam dentro da margem de erro. Nesse caso, se o candidato hipotético Pedro tem 10% das intenções de voto na pesquisa, isso seria o mesmo que dizer que se a pesquisa fosse refeita 100 vezes, em 95 delas Pedro teria entre 8% e 12% das intenções e em 5 delas ele teria intenções de voto maiores que 12% ou menores que 8%.


Ressalto aqui que existe uma certa troca entre um maior nível de confiança e uma menor margem de erro: se, com o mesmo número de pessoas entrevistadas, eu quiser um nível de confiança maior, terei que me contentar com uma margem de erro maior também e vice-versa. A solução para aumentar o nível de confiança e diminuir a margem de erro ao mesmo tempo seria entrevistar mais pessoas - se eu conseguisse perguntar a intenção de voto para cada um dos 8,2 milhões de eleitores de São Paulo, eu saberia exatamente qual seria o resultado se as eleições fossem hoje e, portanto, a margem de erro da pesquisa seria de 0 pontos percentuais. e o nível de confiança 100%. Contudo, é sabido, por motivos estatísticos, que a partir de um certo número de eleitores, por volta de 1000, aumentar o tamanho da amostra não influenciará tanto essas duas métricas, fazendo com que amostras muito grandes e mais caras sejam desnecessárias.


Portanto, da mesma forma que não precisamos tirar 2 litros de sangue de uma pessoa para saber se ela tem algum problema, não precisamos entrevistar centenas de milhares de pessoas para chegarmos próximos da realidade das intenções de voto e, desse modo, não é esperado que você ou algum conhecido seu tenha sido entrevistado, já que, dado o tamanho da amostra, as chances disso acontecer são muito pequenas. Entretanto, existe uma série de fatores que podem atrapalhar e fazer com que as pesquisas eleitorais “errem” os resultados.


A data em que a pesquisa é feita importa e as pessoas mudam de opinião rapidamente


É muito importante ressaltar que a pesquisa é como uma “fotografia” do momento em que ela é feita e, mais importante ainda, dizer que as opiniões podem mudar muito e de modo rápido, principalmente nas vésperas das eleições, o que faz com que elas não sirvam como uma “previsão” exata do resultado final. Contudo, as pesquisas, em sua grande maioria, acertam as tendências, mesmo que “errem” na margem de erro. Para exemplificar, vou usar uma eleição que na época foi considerada um “exemplo de como as pesquisas erram” – as eleições presidenciais de 2014. Para resumir a história, após a morte trágica do candidato Eduardo Campos, a então candidata à vice-presidente Marina Silva despontou como um nome forte, aparecendo nas pesquisas como vencedora de qualquer cenário possível de segundo turno, inclusive contra a forte candidata à reeleição Dilma Rousseff. Porém, com o tempo, sua campanha foi se enfraquecendo e ela foi ultrapassada pelo candidato Aécio Neves, que chegou até o segundo turno. A eleição aconteceu no dia 5 de outubro e a evolução das pesquisas DataFolha foi a seguinte:


Pelas pesquisas é possível perceber uma clara tendência de virada de Aécio Neves, que já vinha sendo capturada 3 semanas antes do dia da eleição, e uma consequente queda de Marina Silva. Após a apuração das urnas o resultado foi:





Levando em conta a margem de erro e o fato de que, como dito, muitas pessoas decidem em quem vão votar de última hora, podemos dizer que as pesquisas tiveram resultados muito satisfatórios e “fotografaram” com bastante precisão cada período, prevendo não só a virada de Aécio Neves, como também a leve queda de votos da candidata Dilma Rousseff. E é claro, quanto mais distantes são feitas as pesquisas do dia das eleições, menos precisas elas serão. Em geral, pesquisas realizadas no 2º turno tendem a ser mais precisas por, entre outros fatores, contarem com níveis de indecisão menores, de modo que as intenções se mantêm mais constantes durante os dias que antecedem as eleições e que as pesquisas são feitas.


Efeito Turnout


Vimos que as amostras são feitas de modo representativo da população e que estatisticamente isso torna o resultado da pesquisa mais preciso. Porém, temos um problema: o que acontece se as pessoas que entrevistamos simplesmente decidirem não votar no dia da eleição? Essas pessoas estão, teoricamente, representando uma parcela da população e, com isso, podemos dizer que essa parcela não irá votar também. Bom, isso não causaria problemas para a acurácia e precisão da pesquisa se a abstenção fosse igualmente proporcional em cada segmento da sociedade, de forma que cada candidato perderia a mesma porcentagem de possíveis eleitores. Contudo, não é isso que acontece, visto que os candidatos têm bases eleitorais com diferentes engajamentos, o que contribui para o “efeito turnout”.


Na maioria dos países o voto é facultativo, o que significa que os candidatos não apenas têm que convencer o eleitorado de que são a melhor opção, mas, antes de tudo, precisam convencer o seu eleitorado a ir votar. O nome que é dado para a porcentagem de eleitores que votam é “turnout”. Além disso, é dito que o candidato que consegue levar mais eleitores às urnas tem o maior “turnout”. No Brasil, apesar do voto não ser obrigatório, é muito comum que haja grande porcentagem de abstenções - nas eleições de 2018, 20,32% e 21,29% dos eleitores não foram votar no 1º e no 2º turno, respectivamente – o que demonstra que o “efeito turnout” pode ocorrer aqui também.


O importante aqui é que esse efeito não é capturado pelas pesquisas eleitorais, já que, mesmo com porcentagens tão grandes de abstenções, poucas pessoas respondem que não irão votar, escolhendo quase sempre algum dos candidatos quando entrevistadas – nas pesquisas de intenção de voto para prefeitura de São Paulo já mencionada nesse texto, por exemplo, abstenções não atingem nem 1% das respostas². Além disso, a pesquisa não captura o engajamento – as métricas usadas pelos institutos que mais se aproximam disso são a pesquisa espontânea (que não mostra nenhum nome como alternativa para o eleitor), o grau de decisão do eleitor em relação ao voto e também o conhecimento do número que deve apertar na urna (6% respondem o número errado do próprio candidato) . Entretanto, nenhuma dessas métricas entram na divulgação dos resultados finais que acabam sendo conhecidos pelo público geral, apesar de estarem sempre disponíveis nos documentos oficiais da pesquisa².


O efeito turnout é considerado um dos principais motivos pelos quais as pesquisas eleitorais estadunidenses erraram tanto nas eleições presidenciais de 2016 entre Donald Trump e Hillary Clinton - algumas delas, como a Reuters/Ipsos, mostravam uma chance de 90% de vitória para a democrata nas vésperas das eleições¹⁰ . Com a vitória do republicano, a explicação mais plausível foi a de que o eleitorado de Trump era mais engajado, fazendo com que a maior parte dele de fato saísse de casa para votar, diferente do eleitorado de Clinton. Esse é, a propósito, um dos motivos pelos quais disputas mais competitivas tendem a obter menores erros de pesquisas, já que a porcentagem de abstenções tende a ser menor, diminuindo o efeito turnout.

Como são feitas as perguntas da pesquisa


Para que uma pesquisa seja confiável, é preciso que as perguntas sejam feitas da forma mais imparcial possível. Por exemplo, poderíamos obter resultados diferentes se quiséssemos saber quem ganhará uma eleição em que os candidatos são Pedro e José e, em vez de perguntarmos em qual dos candidatos o entrevistado irá votar, perguntássemos “você pretende votar no Pedro? Sim ou Não?” Nesse caso, teríamos, evidentemente, uma pesquisa enviesada, mesmo se tivéssemos uma amostra representativa e grande o suficiente. A forma como as perguntas são feitas, portanto, importa, e, por isso, encorajo o leitor a conferir as pesquisas nos sites dos institutos sempre que possível, dado que é bem possível que a simples divulgação dos resultados acabe por esconder métodos bastante questionáveis – seja de amostragem ou de coleta. A conclusão que cheguei é que, por mais que continuem sendo alvo da desconfiança de alguns eleitores, os institutos brasileiros mais confiáveis continuam sendo DataFolha e Ibope, e suas pesquisas completas são sempre divulgadas no site oficial de cada um deles, respectivamente, contendo dados detalhados sobre a amostra e o método de pesquisa.


Faço ainda um último apelo para que o leitor que chegou até aqui no texto vote a partir das propostas dos candidatos e não das pesquisas eleitorais. Um aspecto negativo que não mencionei sobre as pesquisas eleitorais é o fato de que a simples divulgação delas pode influenciar fortemente o eleitorado e, assim, provocar mudanças nas intenções de voto, o que é, mais uma vez, acentuado na véspera das eleições.


Uma das vantagens das eleições municipais, ao meu ver, é que elas fogem daquele debate simplificado e ideológico, muitas vezes pautado no medo da vitória do adversário, que domina o cenário nas eleições estaduais e federais – ao invés disso, tendem a ser centradas nos problemas reais da cidade e do cotidiano da população. Peço, então, que você guarde o voto útil para o segundo turno e, agora, considere aquele que tem o melhor plano de governo para resolver os problemas do seu município e não quem está na frente ou atrás nas pesquisas que, mesmo feitas da melhor forma, como visto, podem abrir margem para possíveis erros.

*Esse texto foi escrito no dia 10/11 - a pesquisa mais recente para a prefeitura de São Paulo, com resultados divulgados pela mídia, era Ibope - realizada do 07 ao dia 09/11 - contudo, essa pesquisa não foi utilizada pois seu documento completo com informações mais detalhadas ainda não havia sido liberada ao público pelo contratante. Sendo assim, foi utilizada a pesquisa DataFolha, realizada nos dias 03 e 04/11, e com documento completo já disponível para download na data de escrita desse texto.



REFERÊNCIAS:

¹TER-SP: maior e menor eleitorado estão em São Paulo: https://tse.jusbrasil.com.br/noticias/68479/tre-sp-maior-e-o-menor-eleitorado-estao-em-sao-paulo

²Pesquisa Datafolha para prefeitura de São Paulo 03 e 04/11: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/11/06/794b1689c2b62eb81fcc22f7653c7094ivsp.pdf

³Pesquisa Datafolha para presidente da República 11 a 13/04: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2018/04/16/3416374d208f7def05d1476d05ede73e.pdf

UOL, Como uma pesquisa eleitoral com 2 mil pessoas indica o voto de 146 milhões https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/bbc/2018/04/23/como-pesquisa-eleitoral-com-2-mil-pessoas-indica-o-voto-de-146-milhoes.htm

Dá pra confiar em pesquisas eleitorais? (Amostra e Representatividade): https://www.youtube.com/watch?v=Hjs7LpFLH88&ab_channel=EquacionaComPauloPereira

G1 - eleições 2014: http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/infograficos.html

GRAMACHO, Á margem das margens? A precisão das pesquisas pré-eleitorais brasileiras em 2010: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762013000100004

Wikipedia, Voter Turnout: https://en.wikipedia.org/wiki/Voter_turnout

Conjur, Gabriela Coelho, 30% dos eleitores votaram em branco ou nulo ou se abstiveram no segundo turno: https://www.conjur.com.br/2018-out-29/31-milhoes-eleitores-nao-votaram-segundo-turno

¹⁰G1, Vitória de Trump contraria pesquisas e projeções nos EUA: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/pesquisas_.html Foto da capa: Lucas de Almeida Pereira e Lençol Lençol

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