POR QUE VOCÊ TEM MEDO DE SE DESPEDIR?



Amigo, a vida é a arte dos encontros embora haja tanto desencontro pela vida.

“Samba da Benção”, Vinícius de Moraes



Costumamos dar bola em excesso para os cumprimentos e as apresentações. Não à toa. Numa vida infeliz dessa, felicidade é um bem que rareia. Não há porque permitir que tirem nossas poucas oportunidades singelas de sorrir. Olá, hello, hallo, hola, مرحبا, cześć, Привет, saluton, こんにちは: em qualquer lugar do mundo, sempre os cantos laterais do rosto perfeitamente contraídos para receber — talvez até com acenos, movimentos e toques — um novo ser ou um novo momento que, repentinamente, se dá conta e está por iniciar. Não há sociedade sem encontros.


Mas parece que a mesma receptividade não é concedida ao seu oposto, o qual intitula-se “despedida”. A começar pelas frequências, duvido que há um ser sequer no mundo cujo montante de despedidas sobrepujou a quantidade de seu antônimo. Sobre os receios envolvidos, a vida parece sempre priorizar a soma à subtração, insatisfazendo-se quando o saldo se equilibra. Já no que diz respeito à natureza dos acontecimentos, as despedidas são comumente associadas ao desligamento de alguém ou, pior, à separação permanente de dois laços ou, pior(!), à morte. Então, você deve se perguntar: por que, cara voz que assume minha mente neste momento, que agora se encontra em seu recinto particular, que move suas mãos ágeis sobre o teclado... por que, então, deveríamos nos despedir mais? Por que não deveríamos deixar que o fim das despedidas se concretize? Não seria tarefa difícil, já que as coisas já parecem tomar esse rumo mesmo.


Certa vez alguém tinha morrido. Estritamente, tinha sido assassinado. Morreu – não era mais carne e nem metabolizava ou digeria coisa qualquer. Ou, talvez, ainda fosse carne, sem alma, ou alma sem carne, ou, simplesmente, nada. Destarte coisa despreocupada, haja vista os muitos problemas então plenamente vigentes e em curso através do mundo. Mas alguém era culpado, e certamente não era ele mesmo. Os familiares e amigos não sabiam: para eles, nada passava de uma ida demorada a algum lugar que supunham — até mesmo os desconhecidos —, mas ninguém imaginava. Em fato, tinha sido cavalheirescamente sequestrado, com direito à burocracia e tudo, pelos ditadores militares da República Federativa do Brasil em meados da década de 1970. Claro — apesar de obscuro —, ninguém nunca tomou esse conhecimento (exceto eu, dono dessa narrativa). Procuraram. E nunca cansaram de encontrar todos os sinônimos possíveis para essa palavra: buscaram, fuçaram, caçaram, pesquisaram, investigaram, averiguaram e escarafuncharam. Passaram cinquenta anos na insuportável incerteza até então. Bem, depois de meio século de desaparecimento, as coisas começam a ficar automaticamente mais óbvias. No entanto, era imprescindível ainda haver ritual de partida para significar o luto e dar descanso à alma. Só queriam se despedir.


Esse fenômeno aconteceu até que com relativa frequência no passado brasileiro, não tão “imperfeito” e nem “mais que perfeito”, mas “perfeito”. Na jaula viral que o mundo vive desde março de vinte-vinte, tal carência vem sendo demasiadamente frequente entre os lares. Muitas famílias foram impedidas — até que com certo comedimento — de se certificar que seus entes queridos estavam, então, passando a descobrir se havia mesmo algo do lado de lá — depois do escuro túnel. É como se a pessoa fosse — sabe-se que ela realmente foi, todos os médicos averiguaram, assinaturas foram feitas, documentos expedidos e, obviamente, a pessoa nunca mais voltou ao antigo lar —, mas ela ainda continua ali, de alguma forma, como se sua ausência ainda pudesse ser presença. Os pensamentos vão lhe dando presença, vão colocando seu rosto e suas peculiaridades nas paredes brancas. O aguardar silencioso ainda espera que alguém abra a porta e diga: “Olá, estava com saudades. Como você está?”, e isso seguido de um abraço gostoso que parece dar sentido à localização coração. Mas não ocorre. Não. Uma sensação de vai-não-vai. Foi, mas não se foi. Foram milhares os privados do sagrado ato de se despedirem de seus parentes e amigos falecidos de COVID-19.


Contemporaneamente, as coisas assumem, naturalmente, um caráter diferente, o qual seria felizmente menos trágico, dada sua escatologia dosada e seu movimento velado, se não fosse a abundante presença do caso em questão, praticamente transbordando e abusando dos limites da lucidez humana. A moça havia se apaixonado por homens. Não, não tinha sido por muitos ao mesmo tempo, ainda não havia chegado nesse ponto da evolução. Ou então, quem saberá?, apenas só não tinha delimitado os arredores entre a certeza da bagunçada chama interna e da reles apatia, assim como a maioria dos bípedes. Enfim, todos eles a haviam prometido o mundo — mesmo que indiretamente, isto é, que ela tinha projetado a realização da maioria dos seus ideais mediante à união com algum deles. Fizeram de tudo: exaltaram-na, alguns foram gentis, outros mais pareciam trogloditas, certos proporcionaram a transa que precisava fazia anos. E não falo por força e comicidade de expressão. Realmente tinham, assim como toda vida presa, deixado um saldo positivo dentro das experiências que compartilhariam enquanto aqueles afetos pudessem durar.


Mas não duraram, por mais que o prazer do primeiro flerte tenha ficado em sua mente para todo o sempre. Quer dizer, se “durar” vem de “ser duro”, de fato, os amores que ali aconteceram foram uma pedra mastigada e jamais digerida, com uma dor latejando sem demora e sem nenhuma paciência. Apesar de mascararem uma suposta virilidade e um potente falo, esses homens temiam bastante. Mas não a temiam, haja vista que ela era uma mulher de apenas um metro e cinquenta e, provavelmente, andava desarmada. Temiam a si mesmos, temiam o que todo aquele gestual que anuncia a separação poderia significar, temiam ficarem nús perante a si mesmos. O que seria do narcisismo então? Havia tantos meandros e incertezas da parte deles, tanto no que diz respeito à bondade que pensavam ter quanto à violência afetiva da rejeição que estavam por revelar, que se calaram. “Todos” por força de expressão, mas tinha sido realmente a esmagadora maioria. “Todos”, então, sumiram. Ou melhor, só deixaram de ver seus stories, de visualizar suas mensagens no WhatsApp, de mandar um “bom dia” desinteressado e intencionado, de perguntar como estava, de traçar possíveis futuros encontros e conhecidas. Estavam no limbo, sei lá onde estavam. Talvez já tivessem partido para braços e beijos femininos que pareciam mais atraentes e simpáticos a eles, os quais poderiam lembrar melhor do amor de suas mães, mostrando que, apesar de declaradamente desconstruídos, ainda era o passado que os governava. Mas certo é que carregavam uma culpa que parecia os “satisfazer” melhor: a de negligenciar o cerimonial de uma despedida — que nesse subtema é denominada “fora” pelos novos.


Os estudiosos das interações humanas diriam que o fenômeno acima descrito se chama ghosting, mas estou em solo paulista, e creio que “fastasmagorizar-se-lhe” seria um termo mais adaptado à língua aqui corrente, embora, com certeza, seria aceito com maior rejeição pelos gramáticos — essa mania de anglicismo! Pois então, fantasma devido a sua qualidade translúcida, que faz paralelo direto com o desaparecimento concreto ao passo que acontece a definitiva firmação do aparecimento simbólico na mente de quem demanda a despedida, sentindo tais mecanismos no corpo através da angústia duradoura. Fantasma, porque, de fato, passou a ser um incomunicável, um alguém cujas recebidas mensagens parecem não ser codificadas ou nem sequer chegar a qualquer destino ou destinatário. Fantasma, pois ainda habita minha residência, pois ainda ouço sua voz, sussurrando, dentro da minha mente. É uma angústia que anseia por partir, mas, para que se despeça do corpo, seria preciso antes se despedir do fantasma desaparecido. E essas formalidades nunca irão acontecer. É provável que os “manos” não se importem ou até mesmo obtenham algum benefício em ter uma “mana” interessada em massagear o ego deles. Ou então, pior: pode ser que nunca tenham se dado conta de quão grande é o papel de uma despedida para reduzir o sofrimento alheio, entendendo que, até certo ponto, se é responsável pelas emoções dos outros, uma vez que se está incluído dentro desse jogo. Ou sei lá: talvez tudo junto. Portanto, é preciso estar preparado. É preciso aprender a se despedir de alguém sozinho — ou, pelo menos, reduzir o papel do outro nessa operação, além de dosar as expectativas com relação a ele.


Se há veredas para esses rumos que o futuro tem tomado? É muito provável que sim. Talvez o mundo não mude para melhor, porque talvez ele nunca mude realmente. Talvez ele até se volte contra a gente, tal como ocorreu na anistia dos militares, nunca incriminados por privar famílias brasileiras do sacro “adeus”, um crime por demais doloroso, sequer considerado com o devido peso pelos “filósofos do Direito”. Em instâncias pandêmicas, parece que não há muito o que fazer também, haja vista que o fim da pandemia é, agora, uma prioridade, tanto para quem a desfrutou abertamente (literalmente), quanto para quem se aprisionou em dormitórios, uma vez que não houve filtros para esse processo, o qual vulnerabilizou todos à possível privação de profanar um tchau, bye, tschüss, adiós, وداعا, do widzenia, До свидания, adiaŭ, さよなら para seus entes queridos. No mundo dos desencontros afetivos, os aplicativos de relacionamento e o virtual facilitaram ainda mais a não obrigatoriedade da despedida, naturalizando o fim dos vínculos por meio do sumiço, o qual some no físico, mas não no simbólico, provocando um luto desnecessariamente e espalhafatosamente retardado.


Pois se o destino parece configurar uma guerra de todos contra todos, talvez mesmo fosse melhor nunca mais se despedir de ninguém, assim como fazem comigo, não? Não. Ainda há o que fazer, mesmo que seja pouco — uma orientação de si mesmo. É preciso ressaltar cada vez mais a importância de uma despedida na mente de uma pessoa. É preciso colocar a despedida no estatuto que ela antes possuía, realizada por nossos antepassados com grande clareza e reverência. É preciso que a despedida aconteça, que tenhamos consciência do impacto que a sua exclusão pode causar na vida de alguém. É preciso que a responsabilidade emocional para com as outras pessoas vença o narcisismo de não querer pagar de “vilão” ao magoá-las com a despedida, explicitando um fim que precisa acontecer. É preciso que o adeus se equipare ao olá. É preciso que a palavra vença o silêncio.



Autoria: Gabriel Linares;

Revisores: Beatriz Nassar, Glendha Visani e Guilherme Caruso;

Imagem de Capa: Blog Primaveras.