"SEX EDUCATION", UM MANIFESTO CONTRA A DESINFORMAÇÃO


Atenção: essa publicação contém algumas revelações sobre a trama de "Sex Education", recomendamos que você, caro leitor, assista à terceira temporada da série antes de realizar a leitura do texto para evitar "spoilers".



A terceira temporada de “Sex Education” saiu na Netflix na última quinta-feira (24) e, não sei se maravilhada ou com um pouco de medo, admito que vi todos os 8 episódios em menos de 4 dias. Pode ter algo a ver com o vício em TV e séries que nutro desde criança - passava literalmente a tarde inteira assistindo ao Cartoon Network -, mas o mérito também deve ser dado à série. Fazia tempo que não assistia a uma produção tão viciante na trama e que, ao mesmo tempo, abordasse temas tão atuais e complexos. “Sex Education” me fez refletir sobre desenvolvimento adolescente, sexualidade, educação e amor ao mesmo tempo em todas as suas 3 temporadas até agora, dominando a arte mais difícil para qualquer série: manter a curiosidade pelo drama sem perder a essência do “fazer pensar”.


Desde a primeira temporada, ficou claro que o mote base da série britânica seria a educação sexual para adolescentes. Toda a trama se desenvolve em torno da sex clinic criada pelas personagens Otis (Asa Butterfield) e Maeve (Emma Mackey) com o objetivo de vender dicas sobre sexo e sexualidade aos colegas do ensino médio. A criação desse "mercado” só foi possível devido à inexistência de orientação profissional sobre os temas percebida na escola aliada aos conhecimentos de Otis, cuja mãe Jean (Gillian Anderson) é uma terapeuta especializada em sexo.


Durante todas as temporadas a falta de uma orientação profissional no tema providenciada pela escola é explorada através de diversas perspectivas. Suas consequências são claras, abrangendo desde surtos de DST até crises de ansiedade e depressão dos alunos confusos. Aborda-se, inclusive, a temática do assédio sexual e suas repercussões de longo prazo sobre a vítima, desamparada na escola e na delegacia - ao mesmo tempo em que enfrenta um conflito interno de culpa e incerteza sobre o ocorrido. Todo o caos, problemas e dificuldades enfrentados pelas personagens se fundamentam em um só aspecto da sua educação: a falta de informação.


O que mais gostei foi exatamente a amplitude dos assuntos. É muito realista a forma como a série apresenta os conflitos internos e externos gerados pelo abandono dos adolescentes quando se trata de educação sexual. Na terceira temporada, ainda, exploram profundamente os motivos desse desamparo, focando no tabu social que existe sobre “ensinar sexo” na escola. Esse assunto não poderia ser mais atual. Os argumentos contra a educação sexual para crianças e adolescentes sempre tiveram uma base muito rasa, mas, sobretudo na era do acesso ilimitado à informação, como ainda se sustentam? A forma como “Sex Education” explora essa questão foi, na minha opinião, brilhante.


Nas duas primeiras temporadas, todas as complicações vividas pelos alunos da Moordale Secondary School, em especial um surto de clamídia e a produção de um musical com temática erótica, convergem para a propagação de uma imagem pública negativa da escola como “a escola do sexo”. Na terceira temporada, uma nova diretora entra com o objetivo de mudar essa imagem. Exatamente como percebemos esse debate na atual sociedade, duas linhas de pensamento divergem sobre como atingir tal objetivo. Por um lado, tem-se a linha da necessidade de melhorar o acesso à informação, defendida, por exemplo, pela personagem Jean, que escreve um livro sobre o posicionamento. Por outro, algumas personagens defendem a ideia da pregação de abstinência, personificada exatamente na nova diretora. As medidas de “melhora de imagem”, então, são todas na linha de desencorajar, ou melhor, amedrontar os estudantes em tudo o que diz respeito a sexo.


O desincentivo à educação sexual como arma de publicidade de uma ideia de escola “limpa” não é a única medida tomada pela nova diretora. Toda forma de expressão da orientação sexual ou identidade de gênero são barradas. A série retrata de forma excepcional a exclusão e o empecilho ao desenvolvimento da individualidade que esse projeto provoca, em especial para a comunidade queer da escola. Daí, se inicia, o clímax tão bem pensado pelos roteiristas e produtores, motivo de eu ter ficado até 3 da manhã passando um episódio atrás do outro: quem se revoltam são os alunos. Percebendo a própria falta de conhecimento, na condição de desamparados, são os adolescentes que gritam por informação, ou melhor, por educação. Em uma revolução, vão contra todo o plano de reestruturação escolar e reivindicam seu direito à instrução sexual.


São cenas divertidas - como toda a série preza por - mas também muito fortes. Mais que isso, retratam uma realidade que infelizmente ainda existe na nossa sociedade. Ouvimos o tempo todo debates sobre o que se pode ou não ensinar na escola afogados em confusões entre os conceitos de educação e instigação. É realmente uma pena, mas existem grupos que entendem a educação sexual como uma forma de estimular o sexo na infância e adolescência. Apesar da desigualdade no acesso à informação - de acordo com dados levantados pela Agência Brasil, um em cada quatro brasileiros não têm acesso à internet - é impossível negar que os avanços da tecnologia e das redes sociais, imagens, vídeos, filmes, jogos e mais um monte de referências estão a um clique de distância de parcela significativa da população. O conteúdo está lá, sem contexto ou explicação, de forma que quem o acessa é exposto a um enorme risco de propagar desinformação.


Em “Sex Education”, há várias cenas nas quais os alunos, mal informados, acessam conteúdos na internet e os reproduzem na vida real. Chamou minha atenção como a pornografia é tratada, as personagens repetidamente se confundem acreditando que o sexo é bem representado por esse tipo de conteúdo. Na terceira temporada, com a política de “abstinência” da nova diretoria, ainda, a falta de informação provocada pelo tabu é levada ao extremo, pois os professores são proibidos de “falar sobre sexo” com os alunos, instruídos a não responderem questões do tema. O currículo de educação sexual é retrógrado, machista e homofóbico e cria desespero dentre os alunos, além de desinformação. É brilhante porque é real. Fingir que crianças e, especialmente, adolescentes não podem ter contato com sexo é fechar os olhos para o fato de que eles o terão inevitavelmente. Envolvê-los em bolhas fictícias, negando sua educação, é não só ignorante, mas também perigoso para sua saúde física e mental.


Algo que me entristeceu lendo críticas sobre a série foi a existência de alguns (por mais que poucos) comentários desprestigiando a série não só por tratar desse tabu da educação infantil, mas também por trazer uma diversidade grande nas personagens. Muitos episódios trazem conflitos vividos pela comunidade LGBTQIA+, em especial na escola. Foi uma das minhas sacadas favoritas no roteiro, até porque o tabu sobre a sexualidade é vivido de formas muito diferentes conforme a orientação sexual e identidade de gênero. A opressão ainda vivida por essa comunidade torna todo o processo de descoberta da própria sexualidade e vivência das relações (amorosas ou não) muito mais complexo. Se educação sexual é tão importante para um desenvolvimento infanto-juvenil saudável, é mais ainda para os jovens LBGTQIA+. Críticas a esse aspecto tão bem trabalhado na série são claras expressões da persistente falta de noção de certos grupos sobre a realidade diversa na qual vivemos. Assim, explorar as nuances do relacionamento juvenil com temas sexuais para a comunidade LGBTQIA+ não é meramente importante por si só, como também é fundamental para contrapor o delírio conservador que alguns ainda tentam sustentar.


A série é fantástica precisamente por jogar na cara da forma mais explícita possível a verdade sobre sexo e sexualidade. As cenas e os diálogos estampam esse objetivo e, na minha opinião, são uma expressão perfeita da forma como se deve lidar com o assunto, falando a verdade. O tabu sobre sexo já está mais que ultrapassado e é hora de se desprender da fantasia retrógrada de que crianças e adolescentes não têm contato com o tema. Não adianta mais evitar ou desviar do debate, porque uma boa parte deles só precisa de um .com para acessar qualquer tipo de conteúdo, além de criar redes de comunicação entre si que podem muito bem espalhar desinformação. A única coisa necessária a se fazer é instruí-los bem, respondendo a todas as dúvidas, aumentando a igualdade de acesso à informação orientada e disponibilizando a todos as ferramentas necessárias para que tenham experiências seguras. Mais que isso, para que se desenvolvam orgulhosos da própria individualidade.


“Sex Education” não é só uma série divertida, para adicionar na lista de favoritos da Netflix. É um apelo à informatização e à educação que deveria ser ouvido com atenção, dos jovens aos interessados no seu desenvolvimento.



Autoria: Loreta De Rossi Guerra

Revisão: Cedric Antunes e Letícia Fagundes

Imagem de capa: Reprodução Estado de Minas



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