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Coluna de Entidades

Sobre a violência que estamos permitindo nas Economíadas

Os Coletivos Esperança Garcia, 20 de Novembro e Delta vem a público, manifestar-se acerca dos recentes casos de violência extrema ocorridos durante o Economíadas.

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Coletivo 20 de Novembro

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Coletivo Delta

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Coletivo Esperança Garcia

8 min de leitura

8 de maio de 2026

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Os Coletivos Esperança Garcia, 20 de Novembro e Delta, em sua função de representação e defesa dos interesses do alunato FGV-SP, vem a público, manifestar-se acerca dos recentes casos de violência extrema ocorridos durante o Economíadas. Além disso, informamos nosso desejo de usar este espaço para abordar, de forma mais ampla, sobre os ambientes que vêm sendo construídos nos mais diversos eventos universitários ligados à comunidade GVniana.


Até o presente momento, não houve notícia de envolvimento direto de alunos bolsistas nos episódios relatados. Também ressalta-se que não houve envolvimento dos Coletivos na organização do Economíadas, visto não ser um evento sob nossa responsabilidade. Contudo, a gravidade dos ocorridos no Evento – incluindo ofensas de cunho social e racial, práticas que colocam em risco a integridade física de participantes e episódios graves de violência com possível motivação homofóbica – não dizem respeito somente a um nicho específico de pessoas, mas sim a valores fundamentais que estruturam a convivência universitária. Logo, entendemos que nosso silêncio seria um ato de covardia, não sendo, portanto, uma opção viável.


Além disso, ser uma pessoa negra no Brasil – país fartamente alimentado por racismo estrutural – já é uma vivência suficientemente desafiadora. Ser um estudante negro em uma instituição de elite é um intensificador desse triste sistema. Enquanto Coletivo 20 de Novembro, reconhecemos a dor de uma violência que mata, fere, fecha portas e é capaz de arruinar uma experiência simples, como um campeonato estudantil – o qual existe com a premissa de divertimento e leveza.


Os episódios de violência presenciados não são eventos isolados, mas sim o sintoma de uma cultura de permissividade que nos atinge de forma desproporcional. Quando o ambiente universitário se torna palco para a reafirmação de preconceitos, alunos socialmente minoritários são os primeiros a sentir o peso da exclusão. Logo, falar de segurança não é apenas falar de eventos pontuais, mas sim falar da garantia de que todo e qualquer estudante possa ocupar todos os espaços universitários que desejar, sem medo de ser ameaçado ou mesmo amanhecer o dia deitado sobre a  cama de um hospital. 


Enquanto Coletivo Delta, ressaltamos que a possível motivação LGBTQIAPN+fóbica em parte dos episódios relatados agrava ainda mais a urgência desta manifestação. Mesmo quando os fatos permanecem dependendo de apuração formal, não é possível ignorar o medo gerado por relatos de agressões, intimidações e hostilidades dirigidas a pessoas que não cumprem as normas esperadas de gênero e sexualidade. A vida universitária não pode ser atravessada pela necessidade constante de se proteger de riscos, esconder afetos ou limitar a própria presença em espaços que deveriam ser de convivência, celebração e pertencimento.


Para estudantes LGBTQIAPN+, a insegurança não se manifesta apenas no momento em que ocorre uma agressão física. Ela aparece também nas “piadinhas”, nos comentários de canto, no constrangimento público, na violência verbal e na sensação de que determinados corpos e afetos são menos protegidos quando ocupam determinados espaços. Quando essas práticas não encontram uma resposta forte o suficiente, o resultado é a construção de um ambiente em que a permanência de alunos LGBTQIAPN+ passa a depender da sua capacidade de suportar violências que jamais deveriam ser normalizadas.


Os relatos de discriminações raciais e LGBTfóbicas, ocorridas no Economíadas, que vieram a público, são de extrema gravidade. Tanto que não mantiveram-se entre os burburinhos de corredor, alcançando veículos de comunicação relevantes em nossa sociedade. Contudo, é, no mínimo, um ingênuo engano acreditar que se trataram de casos pontuais que ocorreram da noite para o dia. Estas violências são, na realidade, apenas parte dos sintomas de um ambiente que, progressivamente, tem naturalizado práticas de violência, discriminação e negligência com a segurança coletiva. 


Não cabe aos Coletivos substituir os processos formais de apuração, que, na FGV, são regidos pelo Código de  Ética e Conduta, o qual veda qualquer tipo de ato discriminatório em seu tópico “II. 3”, intitulado “Respeito”. É recomendado pela Fundação, em caso de descumprimento do dispositivo citado, o registro de denúncia formal, a qual acarretará a tomada de medidas cabíveis pela Instituição que correspondam à gravidade das informações recebidas. Além disso, o Comitê de Diversidade da FGV Direito SP também atua como um agente que, além de proporcionar acolhimento e escuta, realiza o encaminhamento dessas denúncias para agentes competentes. 


Apesar disso, também não podemos tratar a ausência de confirmação pública como justificativa para a omissão. Quando há relatos graves envolvendo violência e possível motivação discriminatória, a resposta mínima da comunidade deve ser o acolhimento das pessoas afetadas, a escuta responsável dos envolvidos e a exigência de medidas concretas para que episódios semelhantes não se repitam.


Diante destes fatos, reafirmamos nosso completo repúdio para a relativização de injúrias raciais como somente “casos pontuais de pessoas ruins”. Reafirmamos nosso completo repúdio ao tratamento de riscos graves à integridade física como “excessos” próprios de eventos festivos. E reafirmamos nosso completo repúdio ao silêncio perante o preconceito diário e estrutural que não se satisfaz em machucar enquanto não matar.


Apesar disso, os presentes Coletivos reconhecem também que não basta o repúdio; é essencial que se construa, conjuntamente, o ambiente seguro e inclusivo pelo qual pregamos. Dentre as ações possíveis de serem tomadas, podem ser citadas como exemplo o posicionamento público, a transparência nas apurações, a responsabilização adequada dos envolvidos e, sobretudo, a adoção de medidas concretas para prevenção de novas ocorrências. 


Nesse contexto, também aproveitamos para declarar, mais uma vez e quantas mais forem necessárias, que nos colocamos à disposição de todas as entidades da FGV, sejam elas representativas ou não, para discutir e procurar soluções para que o ambiente ideal para todos seja atingido. Além do mais, não nos limitamos somente à FGV, estando também à disposição de entidades de faculdades externas que se interessarem por um ambiente seguro e sem violências.


Reforçamos, ainda, que o Delta permanece atento aos impactos que esse cenário produz sobre alunos LGBTQIAPN+ da FGV-SP. Nosso compromisso não se limita ao repúdio público, mas envolve também a construção de canais de acolhimento, diálogo e pressão por respostas institucionais proporcionais à gravidade dos fatos. Nenhum estudante deve sentir que sua orientação sexual, identidade de gênero, expressão de gênero ou simples existência em espaços coletivos o torna mais vulnerável à violência ou menos digno de proteção.


Ratificamos nosso compromisso e dever para com a representação e defesa intransigente do alunato FGV-SP. E, no âmbito deste pronunciamento, isto significa defender o direito básico à segurança, ao respeito e à plena participação na vida universitária também.


Por fim, informamos que esta manifestação não tem como objetivo atribuir responsabilidade exclusiva a qualquer entidade específica, mas sim contribuir para um debate que é comunitário e urgente. A universidade deve ser um espaço de formação crítica, convivência plural e desenvolvimento humano, logo, completamente antagônico a qualquer forma de violência. 


Seguiremos atentos, atuantes e disponíveis para acolher e representar todos os alunos que se sintam, de alguma forma, afetados por esse cenário.


Imagem da capa: AAAGV

Revisado por Equipe de Revisão e Pedro Anelli Bastos

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