A ERA DO CINISMO: IMPACTOS SOCIAIS E PSICOLÓGICOS



Em 15 de julho de 1979, Jimmy Carter, o 38º presidente dos Estados Unidos, vai à televisão. Naquela noite de julho, estava em rede nacional para falar ao seu povo sobre a crise de energia que os EUA viviam no momento. Na ocasião, o país sofria com a crise de energia desencadeada pelo segundo choque do petróleo, o qual escancarou a dependência que os EUA possuíam em relação à commodity. Porém, o que o presidente queria de fato, era chamar a atenção para a crise de confiança que pairava sobre os Estados Unidos. Argumenta que: "é uma crise que atinge o coração, a alma e o espírito de nossa vontade nacional. Podemos ver essa crise na crescente dúvida sobre o significado de nossas próprias vidas e na perda de uma unidade de propósito para nossa nação.". Os referenciais são óbvios, como ele mesmo aponta: os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, ainda frescos no imaginário coletivo estadunidense, mexeram com um país convicto em sua crença pela liberdade; o fracasso no Vietnã derrubou o mito da invencibilidade estadunidense nos campos de batalha; e o Watergate desmoralizou a instituição do governo, além de insuflar um estado de paranóia pela espionagem. Em suma, o presente começava a levantar dúvidas quanto à suposta superioridade dos Estados Unidos.


Em 2016, a eleição de Donald Trump expôs, novamente, uma descrença generalizada da população nos políticos, nos partidos e nas instituições. Esse movimento não se restringiu aos Estados Unidos: a década de 10 foi marcada por inúmeras manifestações de descontentamento popular com o Estado e o status quo vigente, passando desde o Occupy Wall Street em 2011 até as manifestações no Chile em 2019. No Brasil, essa descrença coletiva nas instituições atinge seu auge em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, adepto de uma retórica populista e autoritária, notório por seu desprezo aos signos da democracia brasileira, como a Constituição de 1988, e vendido como um outsider do sistema político, mesmo não o sendo.


A noção generalizada de desconfiança perante a política e o Estado tornam-se preocupantes quando deturpam o exercício legítimo do ceticismo e aterrissam no puro cinismo. O conceito de cinismo pode ser entendido de várias maneiras, mas tomando-o como "comportamento de quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor", topamos com outro elemento definidor dos últimos anos: as fake news. A criação e disseminação de notícias falsas são um grande marco dos processos eleitorais recentes pelo mundo, configurando uma expressão notória de cinismo à medida que visa borrar as linhas entre o que é verdadeiro e falso. Nesse cenário, as fake news atuam como ferramenta de descrédito às premissas básicas da democracia, como a liberdade de expressão e a discordância respeitosa. O cinismo também se relaciona com as fake news ao dificultar a visualização sincera do outro, promovendo ideias distorcidas acerca de oponentes e adversários políticos. Assim, o cinismo se manifesta na política atual como uma maneira de confundir o debate e deixar mais difícil a visualização da verdade dos fatos e configura uma real ameaça à democracia, pois esta não está mais só sendo questionada, e sim subvertida.


Essa dimensão distante e distorcida que a política vem tornando também se infiltra em outros campos da sociedade. Ora, vivendo em quase simbiose, é impossível dissociar as tendências culturais e sociais daquela época do cenário político, e vice-versa. Acontecimentos históricos sempre produzirão algum efeito na cultura daquela sociedade e, referente a esse século, eventos como o 11 de Setembro e a crise financeira de 2008, devido às suas essências que indicam ruptura de normas e convenções previamente estabelecidas, produziram dúvida, incerteza, medo - sentimentos que podem caracterizar uma ascensão do cinismo nas estruturas sócio-culturais.


Nas expressões culturais da modernidade, de modo geral, prevalece a ironia - um tipo de retórica em que é expressado o contrário do que se quer expressar. Essa ideia dialoga com o cinismo ao passo que também pressupõe uma inversão e superação do sentido original daquele objeto de estudo. Culturalmente, abordagens irônicas se manifestam principalmente por paródias, em que há o intuito de realizar uma releitura cômica de uma obra já existente. Obras como, por exemplo, as franquias cinematográficas Scream (Pânico, na versão brasileira) e Anjos da Lei são bons exemplos que tomam as estruturas já existentes e as subvertem, atacando roteiros, temas, gêneros dos filmes e até mesmo a indústria cinematográfica.


Nesse caso, temos a ironia sendo usada para o bem - afinal, nos oferece novas possibilidades narrativas e comentários sobre temas complexos. Porém, esse excesso de distanciamento e auto-análise que a cultura tomou nas últimas décadas pode gerar consequências negativas à medida que nos distanciamos da nossa verdade pessoal, de quem somos. A autoconsciência de si mesmo, descrita nas obras acima, demonstra que o emissor da mensagem está sempre um passo além de quem irá analisar sua produção. Ou seja, ao prever no seu próprio conteúdo original a forma pela qual será avaliado, o autor desta acaba por se distanciar de suas intenções sinceras, do que ele realmente sente, e se preocupa excessivamente em como será visto, analisado e criticado.


Um exemplo sintomático desse fenômeno na cultura atual é o conceito de "guilty pleasure". Em português, "guilty pleasure" traduz-se como "prazer culposo", e denomina os gostos pessoais que temos vergonha de revelar aos outros porque esse gosto específico (pode ser uma banda, uma música, um filme, um livro) será imediatamente qualificado como pouco usual, estranho ou simplesmente de má qualidade. Muitas vezes, algo é qualificado como um "guilty pleasure" também por fugir tematicamente dos interesses usuais daquela pessoa. O conceito dá voz a pré-concepções de determinados grupos sociais que limitam a transparência da individualidade. Assim, uma cultura que se manifesta sempre a partir de uma abordagem irônica e distanciada está fadada a viver numa eterna crise de confiança. O olhar cínico sobre as obras contraria o princípio da arte por si só - essa entidade quase mística, cujo encanto reside na imprevisibilidade.


Aqui, foi pintado um quadro que opõe sinceridade versus ironia, empatia versus cinismo. É evidente que somos uma sociedade tomada, de certa maneira, pelo cinismo, que também manifesta-se pelo sarcasmo e o deboche. Todos esses são sintomas de uma sociedade dividida, com dificuldade de confiar nos outros e em si mesma. Porém, já existem tendências que visam ir além desse cenário.


Um desses movimentos é a "New Sincerity", um movimento cultural que engloba música, cinema, poesia e teoria crítica, que surgiu nos anos 80 com o intuito de ir além das premissas da ironia moderna e do cinismo, buscando honestas manifestações de empatia e sinceridade. Um bom exemplo de uma obra que entra nesse movimento é a sitcom estadunidense Community, que, apesar de muitas vezes funcionar em um registro paródico, fazendo referências a outras obras importantes da cultura pop, o objetivo nunca é satirizar ou desprezar, mas sim fazer homenagens às criações que marcaram aqueles personagens. Além disso, a série possui um núcleo emocional muito forte, ao qual praticamente todos os episódios remetem de alguma maneira, enfatizando a necessidade dos personagens de procurar conexões humanas sinceras e reais.


É importante observar também que a ironia e o cinismo não nasceram ontem. O recorte temporal feito aqui visa examinar como acontecimentos políticos e históricos das últimas décadas ajudaram a produzir um sentimento generalizado de desesperança e dúvida. Tomamos a mudança climática como exemplo: A constatação é perturbadora, mas o elefante na sala que é o aquecimento global deixou de ser uma ameaça futura distante e tornou-se eminente, um estado de não-retorno em que, se nada for feito, o colapso é inevitável. Existem sim motivos para o otimismo, mas também existem muitos motivos para desesperança em relação ao que vem pela frente. Assim, manter-se cínico é válido dentro desse contexto, não?


É justamente nesse questionamento que reside o principal erro do cinismo como posição: uma postura cínica não oferece futuro, novidade ou reforma. É a negação pela negação - se rejeita e debocha do objeto ali debatido, seja este a política institucional ou determinada atitude de uma pessoa, mas não se apresenta nenhuma alternativa para isso, sendo incapaz de olhar para frente. A única forma de transformar a política, as instituições e o próprio indivíduo é pensar alternativas, traçar planos de reformas, exigir mudanças. É pelo engajamento ativo num processo de transformação que as pessoas e o mundo em que perdemos a esperança poderão ser melhorados.


Um olhar cético e desconfiado em relação ao mundo não necessariamente se configura como algo ruim. Mas à medida que essa desconfiança se transforma em cinismo e começa a contaminar não só as nossas relações pessoais, como também a sociedade e o sistema político, temos um problema que ultrapassa a "crise de confiança" citada por Jimmy Carter, e ameaça tudo aquilo que nos qualifica como humanos, como a nossa própria existência.


Autoria: João Pedro Fernandes

Revisão: Letícia Fagundes e Glendha Visani

Imagem de capa: Bill Watterson/ Reprodução: Psicóloga Ariane Budeanu

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Fontes:

https://www.americanrhetoric.com/speeches/jimmycartercrisisofconfidence.ht m

https://en.wikipedia.org/wiki/New_Sincerity

https://www.theatlantic.com/culture/archive/2021/02/tucker-carlson-cancel-culture-cynicism-winning/618138/


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