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AFTERSUN: FRAGMENTOS DE UM VERÃO



                  I thought that I heard you laughing                                                                                                

 I thought that I heard you sing

  I think I thought I saw you try

 But that was just a dream

Pelas lentes da novata diretora Charlotte Wells, Aftersun conta a história do relacionamento de Calum, um pai solteiro, com sua filha Sophie, de 11 anos, nos anos 90. Durante um verão em que a melancolia corre tão naturalmente quanto as águas turcas que embelezam o cenário, o pai e a filha constroem uma relação de proximidade e de cuidado, mas também de dor. O filme é retratado pelas lembranças da menina que, agora adulta, revisita os vídeos daquelas férias em busca de razões que expliquem o destino final de seu pai.


Sophie se encontra estagnada e encara repetidamente as mesmas recordações de momentos felizes que compartilhou com seu pai. A partir disso, o filme começa a costurar a relação entre o que ela experienciou daqueles dias como uma criança e o seu entendimento atual do que de fato viveram. Deparamo-nos com um esforço brutal de Sophie de tentar se recordar de um tempo específico, agarrando-se a tudo que lhe pudesse dar uma pista, mesmo sendo incapaz de mudar o que já aconteceu. Tempo. Se você me perguntasse, diria que o filme retrata uma batalha intensa contra o tempo.


Apesar de qualquer esforço que façamos, recordações digitais só podem nos dar capturas de momentos específicos, e todo o vão existente entre um frame e outro nos força a preencher as lacunas com detalhes nem sempre reais, e assim a linha entre a memória e o desejo se torna cada vez mais tênue. 


O fato sobre a memória é que não podemos abrir mão apenas das ruins ou das boas, então estamos condenados a este eterno purgatório, no qual memórias de todos os tipos residem simultaneamente e ficamos à mercê de tentar entender o que antes era tão nítido, mas que agora o tempo, sempre violento, transformou em borrões. Com os fatos comprometidos, o escape é preencher as lacunas temporais não com memórias, mas com desejos. Esse jogo que fazemos com o tempo não nos explica nada, mas nos conforta. 


No caso de Sophie, a percepção da ausência de algumas peças para montar o quebra-cabeça da sua memória daqueles dias a atormentava, especialmente ao procurar desvendar os acontecimentos que fizeram daquela viagem a última vez que viu seu pai. A cada lembrança, buscava razões para acreditar que aquele verão refletia a conexão existente entre os dois, mas se aceitasse isso como verdade, teria também de encarar o fato de ela não ter sido suficiente para que ele escolhesse ficar. 


Abraçar o desafio de acessar o passado é compreender as variáveis ocultas de todo esse caminho, que agora aparecem para serem confrontadas. A revelação de que o amor, mesmo aquele intenso, não é suficiente para resgatar alguém, talvez seja a mais brutal. A trilha em direção à essa compreensão conduz o observador a revisitar momentos em que Sophie e Calum aproveitavam a companhia um do outro naquele último verão, com uma abordagem delicada que nos faz captar que existia ali entre eles um vazio que escapava às gravações de vídeos e desafiava a narrativa dos fragmentos de memória. 


Cada longo intervalo de silêncio do filme se torna um testemunho das palavras não ditas, dos olhares desviados, das frustrações escondidas, dos abraços angustiados. A direção de Charlotte é irretocável em equilibrar esse sentimento tumultuoso que muito parece distante da quietude do roteiro. Assim, a história não-linear é acompanhada por uma turbulência emotiva, consequência da brilhante performance de Paul Mescal ao lado da talentosa Frankie Cório, que adicionam pesada carga emocional à obra. 


Com o desenrolar da narrativa, as cores vivas do litoral turco se tornam cada vez mais incapazes de esconder a sombra que paira entre o pai e a filha. Com essa premissa, a fotografia se torna o principal recurso para a diretora explorar paradoxos mesmo em cenários limitados. A prova dessa estratégia acontece em um simbólico momento, no qual Calum tenta abafar seu choro intenso no banheiro para que Sophie, que está lendo no quarto ao lado, não perceba. A fina parede que divide a angústia do pai envolto a cores frias e a ternura da filha, em luzes quentes é, pragmaticamente, o poder de direção de Charlotte em Aftersun.


Entretanto, é na fragilidade, e não na invulnerabilidade, que Sophie anseia por uma presença paterna real. Enquanto Calum intensifica seu sofrimento para esconder da filha suas inseguranças, Sophie revela na emblemática frase “eu acho legal que dividimos o mesmo céu” seu contentamento apenas em estar ali, deitada ao lado do pai, reconhecendo o privilégio de estarem juntos encarando o horizonte que os envolve.


Essa jornada nos recorda que, mesmo nos laços mais profundos, frequentemente não somos capazes de conhecer verdadeiramente aqueles que mais amamos. Dessa forma, o filme nos convida a explorar o encontro da condição humana em suas diferentes fases. Sophie representa a juventude, navegando pela introdução a adolescência, confrontada por novas questões, como sua sexualidade, que ganha destaque nesse verão. Calum, por sua vez, emerge como um adulto já carregado de marcas e frustrações acumuladas ao longo da vida.


Nenhuma das duas experiências, contudo, parece ser evitável. São ambos pontos fatais da trajetória individual em busca do pertencimento: a luta da jovem para descobrir onde se encaixa no mundo, e posteriormente, a realização do adulto, de que talvez essa procura nunca tenha um destino definitivo. 


Por fim, em meio a flashes de uma noite de dança ao som de Under Pressure de David Bowie, Aftersun prepara uma das sequências mais devastadoras para se despedir. Agora é o fim. Sophie está imersa no último fragmento de memória, frente a frente com a imagem de seu pai, que desvanece enquanto o astro britânico repete “Can’t we give ourselves one more chance? Why can’t we give love that one more chance?”. A cada flash a recordação parece se distanciar. O cenário escapa das mãos de Sophie, que já não tenta impedir. Os traços firmes se transformam em esboços. Resta apenas uma forma imutável: a da jovem, agora mulher, aprisionada sozinha na última dança, abraçada pela nostalgia e cada vez mais próxima de reconhecer sua incapacidade de obter respostas do que aconteceu no verão de seus onze anos. 



Autoria: Ana Lívia Lima (analivialpf)

Revisão: Laura Freitas (lau_freitas) e Luiza Parisi (luizalafresa)

Imagem de capa: Cena do filme Aftersun (2023)


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