EI, VOCÊ, SEDENTÁRIO, COMO EU, QUANDO VAMOS SAIR DESSA VIDA?


Estamos juntos

De fato, um dos maiores questionamento que me fiz nos últimos dias foi: “por que estou participando de uma revista de esportes?”. Digo, hoje tenho andado um pouco de bicicleta uma vez por semana (às vezes até menos). Mas isso foi o máximo que consegui fazer nos últimos anos. Além disso, se querem saber, essa minha empreitada está durando bem mais do que eu esperava. Não raras foram as vezes em que me matriculei numa escola de futebol, natação, academia ou qualquer outro exercício em nome da minha “saúde”. Cá entre nós, não creio que “saúde” era o que um adolescente procurava, pois nem a compreendia muito bem. Longe disso, queria mais era me enquadrar em um ideal de beleza que carregava comigo, sempre. Essa vontade foi morrendo. Minha vida continha e ainda contém elementos possivelmente mais interessantes para mim.

Sou sedentário? É o que parece. Não me alimento bem: aquele docinho que sempre aparece para regular minhas formas de ansiedade. Não sinto aquele super prazer em praticar esporte algum. Confesso que julgo um pouco as pessoas que vivem divulgando e afirmando sua vida fitness nas redes sociais. Esse tipo de post é caricato: “seis horas da manhã, como é bom completar quinze quilômetros”. Até mesmo aquele arquétipo de que se diverte horrores com o esporte vira meu alvo. Quase ninguém escapa. E com aqueles que reinam na preguiça e que preferem fazer qualquer outra coisa a isso, me identifico. Eu aqui, confortável. Eles lá, felizes. Qual o problema?

Acontece que em meus anos de cursinho, o que mais me prejudicava era meus altos picos de ansiedade. Havia momentos, principalmente os próximos da prova, nos quais não conseguia fazer nada. Nadinha, nada. Não sei, era um inventar de fazer coisas que eu não precisava e que não eram cruciais naquele momento - ansiedade. Deixaria qualquer um maluco. Não produzia nada, não estudava nada. Hoje, entendo eu, um dos principais motivos para minha desaprovação daqueles tempos. Não havia momentos de concentração, não havia momentos de foco. Era um fazer tudo e um nada ao mesmo tempo.

Como se isso não bastasse, no ano retrasado, em meu terceiro semestre, fui presenteado com uma “crise de pânico”. É uma experiência, se não interessante, pelo menos divisória. Até hoje me procuro perguntando se então me enquadrava agora na posição de louco ou só de alguém que achava que estava prestes a morrer. Uma coisa creio que todos os que já passaram por isso haverão de concordar comigo: é horrível. Péssimo. Passa, mas, depois, as únicas coisas que você quer saber é: “por que isso ocorreu e como faço para evitar?”. Comicamente e, sorte minha, isso aconteceu horas antes de encontrar-me com minha terapeuta. E, então, depois do relato assustado do ocorrido, uma pergunta por ela feita e que já esperava o silêncio: “Você tem feito algum tipo de esporte?”

Insanidade a minha, possivelmente a nossa também, isso não foi suficiente para mudar meu estilo de vida. Claro, eu tentei. Mas é aquela coisa: uma mensalidade na Smart Fit não me torna atleta. Era preciso mais, eu sabia. Entretanto faltava vontade. Faltava gostar do que fazia. Incentivos, faltava exercer algo que fazia sentido comigo - minha trajetória. Talvez esse seja o grande “erro” da maioria de meus pares e amigos. A história é longa. Pois por mais que eu pareça um preguiçoso depois dessa narrativa, não sou. Penso que minhas vontades de acordar às 6h num domingo para destrinchar uma lista de cálculo por prazer bastam para convencer-lhes do contrário. Pois então, faltava motivo capaz de abarcar um querer.


Aqui estamos, nós, sedentários, quarentenados…

E então, cá estamos. Propus-me escrever um texto na tentativa de convencer e incentivar as pessoas a procurarem e tomar consciência da importância e do significado do esporte para a nossa vida. Mais que isso, penso que meu principal objetivo é tentar comunicar isso às pessoas que, assim como eu, já tentaram inúmeras vezes construir uma rotina menos sedentária e que até então só vem desistindo e desanimando no meio do caminho. Principalmente agora, na pandemia, tal questão passou a ser ainda mais relevante, visto que naturalmente estamos mais “caseiros”.

Conversei com Douglas. Ou melhor, Douglas Rodrigues Messias Mirando. Tem 22 anos e é recém graduado na Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP), na qual fez iniciação científica na área de Psicologia do Esporte, especificamente em “Fenomenologia das artes maricias”. Douglas trabalha como preparador físico numa escola de natação, tanto para atletas como para crianças e adultos amantes e interessados pela prática.

Sem mais enrolação, uma das coisas que mais me chamaram atenção e que, no entender dele, é um dos maiores mitos que observados nas pessoas, refere-se a uma noção de separação entre saúde física e psicológica. Primeiro de tudo, ele advertiu-nos que essa é uma visão equivocada que normalmente se tem de saúde. Corpo e mente encontram-se intimamente conectados e, com isso, zelar por ambos é um movimento que se retroalimenta. Se um deles está em déficit, é provável que, mais cedo ou mais tarde, o outro também estará. Sendo assim, dificilmente o “remédio” para questões psicológicas envolverá apenas a ida a um analista, bem como é improvável que a busca por um corpo saudável, equilibrado e disposto envolverá apenas uma prática esportiva regular.

Assim, faz-se necessário haver um equilíbrio entre esses dois fatores: o mental e o físico. No entanto, cá entre nós, a ida ao analista possibilita ganhos muitas vezes mais claros, diretos e de curto prazo. Não obstante, o saber de que há alguém numa salinha com um divã e que este reservou uma hora da semana apenas para nos ouvir já é suficiente para minimizar a força procrastinadora que habita em todos nós. Já no caso da prática esportiva, esse vínculo criado pelo compromisso e responsabilidade normalmente não existe. Se não for por advertência médica, nosso cérebro é mestre em se sabotar, convencendo-nos de que dormir mais uma horazinha nos fará muito melhor do que sair e voltar com o corpo todo dolorido, tendo ainda que enfrentar um dia longo e estressante. Mas esse pensamento está equivocado!


Uni-vos!

Ao entrevistar o Douglas, conversamos bastante sobre a dificuldade de se encontrar uma motivação que realmente nos move, superando esses obstáculos cerebrais. Para isso, ele nos beneficiou com algumas ferramentas que podem nos ajudar nesse processo. A primeira delas seria treinar em grupo. Mas calma, essa é uma decisão muito importante. Uma boa companhia e alguém para conversar pode ser ótimo, mas se você escolher alguém muito experiente na área ou que não esteja no seu nível de “habilidades esportivas”, o resultado pode ser o contrário, e você irá desistir. Portanto, é extremamente importante que esse outro alguém esteja nessa pelos mesmos motivos que você, ou pelo menos por motivos parecidos. O que são amigos de famosos irão me entender: seria extremamente decepcionante chamar o Nadal para treinar.


Planilha em mãos!

A próxima dica envolve uma elaboração de metas factíveis para o seu nível. Para isso, é importante ter em mente que isso pode ser feito de diversas formas distintas. A primeira delas, a meta de resultado, não é tão controlável, o que pode a tornar perigosa em alguns momentos. Isso porque ela envolve fatores que não dependem de você ou que, se não atingidos, não necessariamente significam que você não está indo bem, mas que podem causar essa impressão. É o caso de delimitar que você irá desempenhar uma determinada tarefa melhor do que alguém, como terminar uma corrida em primeiro lugar, por exemplo. Tal meta pode ser muito motivadora para veteranos e atletas, mas, para quem está começando, como nós, pode desincentivar.

O segundo tipo de meta seria a meta de desempenho. Ela é mais controlável, pois envolve a delimitação de uma tarefa específica em um determinado período de tempo, além de ser algo que depende mais de você - das suas capacidades e vontades. Tomo aqui como exemplo o caso de completar um número x de quilômetros de bicicleta em tantos minutos, ou então acertar um número y de vezes uma cesta de basquete. O bacana desse tipo de meta é que ela te coloca fora do campo da comparação, o qual pode ser desmotivador para algumas pessoas. Além disso, é necessário tomar cuidado para que elas sejam factíveis e se enquadrem dentro do seu potencial atual. Caso contrário, certamente irão fazer você pensar que não serve para a coisa ou que o caminho a ser trilhado é demasiadamente longo.

Por fim, o terceiro tipo de meta trata-se da meta de processo. Seu foco é no que você vai fazer, fugindo um pouco do “enquanto tempo” ou do “até quando”. A ideia é tentar descrever exatamente o que você pretende fazer e concentrar seus esforços e objetivos na realização disso. Por exemplo, “pretendo vencer aquela subida sem descer da bike”, ou então “meu foco agora é passar de séries de 10 para de 15 flexões”. Esse tipo de meta costuma ser a mais motivadora, uma vez que colocamos nossas energias diretamente na tarefa. Entretanto, ainda assim é necessário tomar cuidado caso não escrevermos e nem delimitarmos um tempo objetivo para isso.

E não estou falando da boca para fora. Realmente: as coisas precisam estar escritas. Isso parece um pouco coisa de “ad-emer” neurótico, mas é algo que pode ajudar muito. Ter um cronograma próprio (de preferência físico) e bem estabelecido, com metas, exercícios, objetivos, datas e prazos - tudo isso feito de modo realista - pode ser um excelente norteador para essa trajetória.


Felicidade motiva

Por último, mas não menos importante, trago, à luz de nosso entrevistado, Douglas, a importância de fazer o que você mais gosta. Essa parece ser uma questão óbvia, simples e banal, mas, no Brasil contemporâneo, pode envolver um cansativo percurso. Isso porque somos expostos a poucas opções. São elas, principalmente: futebol, vôlei, natação, academia e bicicleta. Tudo bem, citei algumas. Mas, se considerarmos a vastíssima gama de outras atividades físicas que existem, é constata-se sem dificuldades que exploramos muito pouco tudo o que poderia ser.

Ao conversar com o Douglas, ele trouxe a questão de que, atualmente, no Brasil, pouquíssimas políticas públicas são destinadas ao incentivo ao esporte, principalmente no que toca aos adultos. Somos, na vida adulta, e fomos, durante a escola, expostos e incentivados a um baixo conjunto de modalidades esportivas, o que acaba por refletir, por exemplo, num menor número de brasileiros com destaque nos jogos olímpicos. Se nos compararmos com países como os Estados Unidos, o qual consegue mesclar essa área tanto com desempenho universitário e carreira, quanto com uma forte presença de público e patrocinadores, o Brasil está muito atrás. Existem programas, como o que ocorre em Bauru, no interior de São Paulo, na ABDA (Associação Bauruense de Desportos Aquáticos), que conseguem democratizar o acesso de modalidades mais inacessíveis, como o atletismo e o polo aquático, mas, mesmo assim, infelizmente, eles não refletem a realidade majoritária da população brasileira.

Não obstante, isso acaba contribuindo fortemente para uma forte presença de sedentários no país. Segundo dados da FIESP de maio de 2019, lideramos o ranking de sedentarismo na América do Sul, com 46% de nossa população sedentária, e, no mundo, ocupamos a quinta posição1. Claro, existem outros fatores culturais que influenciam essa variável, visto que os americanos lideram o índice há um bom tempo. Entretanto, certo é que um baixo incentivo aos esportes por parte do governo agrava essa situação. O esporte é uma questão de saúde preventiva.

Mas voltando a felicidade e o esporte, creio que aqui tenha ficado um pouco claro do quão difícil é, nesse Brasil, conciliar nossos gostos e demandas pessoais tão múltiplos em relação ao esporte dentro desse ambiente limitado e inacessível para muitos. Sendo assim, a busca por algo que você realmente gosta e que vai te motivar a levantar da cama deve ser tanto um trabalho ativo de tentativa e erro, quanto uma leitura e análise posterior de sua condição social-econômica. Superando essa difícil etapa, será bem mais fácil sentir-se motivado ao tornar o esporte um caminho para a obtenção de prazer, e não apenas uma “obrigação” em nome da saúde. Vá no seu ritmo. Na calma ou na pressa, o importante é fazer algo que você realmente goste.

A saúde é consequência! E que consequência! No ambiente universitário durante a quarentena, muitos de nós (inclusive eu) fomos submetidos a um estresse fora do comum, junto com cargas de ansiedade e dificuldade de concentração, bem como complicações em relação ao sono. Nesse sentido, praticar algum tipo de exercício físico pode ser um excelente caminho para combater esses sintomas. De acordo com um artigo publicado pela Adidas, o qual entrevistou a dra. Erica Jackason. que em seu artigo “Alívio do Estresse: o Papel dos Exercícios no Gerenciamento do Estresse”, “um estilo de vida ativo aprimora a forma como o corpo lida com o estresse devido a alterações nas respostas hormonais. Os exercícios afetam neurotransmissores cerebrais como a dopamina e serotonina, responsáveis por regular o humor e fatores comportamentais”. Essas duas substâncias, além da endorfina e oxitocina. afetam diretamente nossa felicidade. Quando há um desequilíbrio muito grande, os resultados para a saúde mental podem ser bem preocupantes2. Assim, a prática esportiva caminha no sentido de combate desse quadro.


Bora?

Por fim, gostaria de agradecer imensamente o Douglas, em nome da Gazeta Vargas, por se dispor a fazer essa entrevista comigo. As questões levantadas por ele foram extremamente importantes para a construção, pesquisa e consolidação desse texto. Já fui muito sedentário. Hoje, com a bike, com a qual me encontrei, com esse direcionamento, com esse espírito e com os amigos certos, penso estar em vias de sair dessa situação. Por experiência própria, isso tem me ajudado muito a lidar com esse gigantesco montante de adversidades ocorridas durante a pandemia. Espero ter ajudado também, de alguma forma, o leitor que aqui teve minha companhia e me deu sua atenção por alguns minutos.


Autoria: Gabriel Linares Fernandes

Revisão: Letícia Fagundes



Referências

  1. SOARES, Mariana. Brasil é o 5º mais sedentário do mundo e lidera o ranking na América do Sul. Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). São Paulo, 8 de maio de 2019. Disponível em: <https://www.fiesp.com.br/noticias/brasil-e-o-5o-mais-sedentario-do-mundo-e-lidera-o-ranking-na-america-do-sul-oms-quer-mudar-este-quadro/ >;

  2. 5 benefícios que a prática de esportes traz para a saúde mental. Adidas, 23 de novembro de 2020. Disponível em: <https://www.runtastic.com/blog/pt/esportes-saude-mental/ >.




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