LEMBRA?

Texto escrito por Raira Castilho, membra do Cursinho FGV, para a Coluna de Entidades da Gazeta Vargas.


Nunca gostei muito de números. Bastam alguns algarismos para que você seja rotulado e limitado. Alguns números a mais ou a menos vão querer ditar as regras. Vão querer dizer se você é um bom ou um mau aluno, seja pela nota que tirou em determinada prova, pelos acertos que obteve em um vestibular, ou pela classificação que consta em seu boletim. Ixi, e se essa nota for de matemática, então?


Fora da escola, esses números continuarão a te afligir. Vão querer dizer que, quanto mais seguidores, mais likes, mais comentários, mais retweets e mais reações em redes sociais você tiver, mais legal você é. Mais amada e mais querida. Você, erroneamente, vai achar que é uma boa ou uma má pessoa por esses mesmos algoritmos. E isso pode fazer com que você se ache a pior pessoa do mundo.


Em alguns momentos, você pode sentir que as pessoas e que a sociedade querem dizer que você precisa alcançar determinado peso, porque desejam impor um padrão estético.Vão querer dizer que, por seu salário ser x, você tem que frequentar somente alguns lugares, “porque lugar de pobre é na periferia”. Agora, se lhe forem dados alguns números a mais, é como se você estivesse apto a frequentar os lugares mais nobres, mais cultos e mais culturais. Sempre mais.


Doido pensar que o lugar onde você nasceu pode determinar suas condições de vida. Vão querer te colocar numa caixinha por todas essas questões mencionadas e por muitas outras. Mas, ainda bem que fitas métricas não são nada para você, que tem a expansão fazendo parte de quem você é (todos os dias). E isso vai interferir nas oportunidades que você terá durante sua vida. O que me permite fazer uma pontuação: você precisa dar um jeito de entrar naquele trem que já está fazendo o seu percurso há muito tempo. Nem que seja para se agarrar a uma corda amarrada a ele. Há pessoas que já estão lá dentro. Mas, lembre-se de que você precisa se segurar bem e se manter firme.


Eu sei. É um sentimento constante de que a busca por seus desejos demanda sempre um gasto extra de energia, porque não basta querer e não basta “só” alcançá-los, já que, quando alcançados, outros obstáculos surgirão e dificultarão sua permanência ali onde chegou. Há sempre obstáculos pelo caminho, e o medo de que a corda possa se romper a qualquer momento. É injusto pensar que você não pode piscar por um segundo, porque senão a corda (aquela mesma amarrada ao trem) vai sair das suas mãos e, caso ela queira se desfazer, espero que você tenha uma agulha e uma linha para remendá-la, por mais que ela possa estar por um triz. Não há garantias. Nessa estrada de ferro, as coisas irão sempre demandar mais de você, por uns números que te faltam.


Já quando olhamos para a ausência desses algarismos, vemos a presença de muitas exigências para um número limitado e restrito de possibilidades. As vagas, seja para um emprego, seja para uma oportunidade como bolsista, por exemplo, vão dizer se você está dentro ou se você está fora. É a famigerada e denominada classificação, né?! E o mais cruel é que essa colocação não vai enxergar tudo que acontece por trás de seus palcos da vida, por trás das suas cortinas. Porque só você e aqueles mais próximos viram como as coisas foram difíceis. Como as coisas são difíceis. Lembra daquele dia em que você me disse que não estava conseguindo estudar porque precisava trabalhar o dia todo e no tempo que “sobrava”, você dependia do wifi do vizinho para enfim fazê-lo?


E nada de computadores ou tablets: era uma tentativa por celular. Era o que tinha ali. E quando cortaram sua internet?! Meu Deus! Você teve que pedir para sua amiga ligar o roteador e é tão chato ter que depender dos outros, né?! Mas você tinha que escolher: garantir a alimentação da família, ou a internet. O seu bolso não permite os dois. Sua vida não oferece cardápio, você nem pode optar pelo leite condensado que, em contrapartida, alguns têm de sobra. Era você e seus livros, lembra?


E… lembra daquela vez que você me contou que teve que subir na árvore para pelo menos tentar assistir às suas aulas online?! E quando seus pais fizeram uma casa da árvore, porque o acesso ao wifi só chegava até lá?! E quando a felicidade não coube em você, porque a rádio da cidade estava anunciando que ia começar a dar aulas na rádio, já que nem todo mundo tem esse acesso a internet, né?! Por esses e tantos outros motivos, eu acho tão injusto uns números a mais ou a menos te reduzirem.


Ah… e lembra que você ainda teve que “competir de igual pra igual” com pessoas que tiveram suas aulas online durante a pandemia, que tiveram durante toda sua vida o bom acesso à educação. Igualdade para quem nesse jogo?


Todos reféns do vírus, mas aqueles que tinham uns números a menos tinham que contar com a sorte. Não há plano de saúde. Não existem algarismos ou possibilidade de arcar com custos de hospitais. Mas… isolamento para quem, quando se é necessário garantir o pão de cada dia?


É TÃO cruel e desumano tudo isso. Espero de coração que um dia você não sinta mais que está dentro de uma caixinha que te limita. Espero que um dia você não sinta que precisa mais correr atrás do trem, que não sinta que precisa mais segurar a corda mesmo estando por um triz, nem que você precise ter uma linha ou agulha em mãos. Espero que um dia você possa sentir que não precisa ser forte a todo momento. Por isso e por muito mais… esses números nunca vão conseguir compreender e definir tudo aquilo que você é.


Por fim, quando precisar de uma luz, vire-se para o espelho, que você vai enxergá-la com um simples olhar. Algo que os algarismos nunca vão conseguir mensurar. Não esqueça de lembrar.


Revisão: Letícia Fagundes

Imagem de capa: Outras Palavras

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