ENTRE A IGNORÂNCIA E A POSSIBILIDADE: POR QUE NOVEMBRO NOS EXIGE MAIS DO QUE NEUTRALIDADE
- Coletivo 20 de Novembro
- 17 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Pense: quais são os valores dos gvnianos? O que é preciso para agir com integridade, valores morais e éticos, tal como se espera de futuros administradores, advogados e economistas que seremos? Muitos alunos acreditam que a neutralidade é suficiente, que evitar o debate antirracista já nos preserva de errar. Mas basta “não ser racista” e “até ter amigos negros”?
Fanon dizia que a sociedade já definiu quais conhecimentos serão tomados como universais, naturalizando exclusões. E talvez seja por isso que tantos aqui caminham achando que seu repertório pessoal condiz ao mundo inteiro. Caso você nunca tenha percebido esse teto invisível limitando suas ideias, talvez você involuntariamente faça parte das maiorias que excluem.
É comum que, em espaços como o nosso, a neutralidade seja tentadora. O primeiro passo para sair da inércia é ter consciência da ignorância – cá entre nós, não parece tão difícil entender que não sabemos de tudo.
O problema é que muitos acreditam que não fazer nada já basta. A apatia virou posição confortável, quase um álibi moral para quem não deseja se comprometer. De um lado, alunos que não se percebem como agentes de desigualdade. De outro, os mesmos que não se percebem como agentes de transformação. A complacência branca de elite encontra seu disfarce mais elegante no desinteresse. E é esse desinteresse que permite que tantos passem anos na FGV sem nunca se perguntarem o que significa viver num país marcado por uma desigualdade racial tão profunda.
O que vemos na prática é ainda mais revelador: o Coletivo 20 de Novembro existe, está dentro da escola, promove debates, cria redes, oferece conhecimento. Mas, para muitos, é como se não existíssemos. A ausência não é neutra, é sintoma. Desinteresse também é privilégio. É escolher não ver o que está à sua frente porque o mundo sempre se organizou para que você não precisasse aprender.
Há quem só busque o Coletivo quando convém, quando desejam legitimar projetos, validar discursos ou cumprir a exigência simbólica de “mostrar diversidade”. Quase nunca para aprender e dialogar. O Coletivo existe para construir com vocês, e não apesar de vocês. Mas o maior obstáculo que enfrentamos não é a discordância, mas a indiferença.
Essa indiferença aparece inclusive quando expressões de pertencimento negro são distorcidas por olhares pouco dispostos a compreender o seu sentido político. Ainda há quem prefira interpretar mal símbolos de resistência, porque isso exige menos esforço do que reconhecer a si mesmo como parte de uma estrutura desigual. É mais fácil se incomodar com a frase do que com a realidade que ela expõe.
Carolina Maria de Jesus escreveu sobre um Brasil que a elite se recusava a enxergar. Décadas depois, seguimos diante da mesma cegueira voluntária. A injustiça epistêmica persiste quando o conhecimento produzido por corpos negros é ignorado, enquanto alunos brancos seguem acreditando que já entendem o suficiente. E, sem se educar, não há ética profissional capaz de se sustentar. Afinal, como esperar que futuros profissionais enfrentem desigualdades que sequer reconhecem?
Ninguém se torna líder evitando as questões que mais importam. Quem ocupa espaços de decisão hoje não pode se dar ao luxo de desconhecer debates raciais. O compromisso com equidade racial não nasce de boas intenções, mas de estudo, de revisão de privilégios, de reposicionamento. E esse movimento começa com algo simples: aparecer.
É justamente por isso que o Fórum da Negritude da FGV existe. Ele nasce como um espaço seguro e necessário, aberto a quem quiser começar. Reúne trajetórias negras na política, no direito, no mercado e na sociedade para discutir o que muitos evitam enxergar. É aberto a toda a comunidade, especialmente aos que ainda acreditam que “não é para eles”. Se existe um primeiro passo para romper esse ciclo, é este: se dispor a aprender.
Dia 18 de novembro, na FGV EAESP, estaremos reunidos para conversar sobre luta antirracista, pertencimento, poder e futuro. Das 18h às 21h30, de forma gratuita e aberta. Basta se inscrever. Basta aparecer. Basta querer compreender o mundo para além das certezas que a branquitude produz.
O futuro será antirracista ou será apenas a repetição do que sempre foi. Nós escolhemos transformá-lo. A porta está aberta. A escolha, agora, é sua.
Autoria: Ana Cristina Rodrigues e Carol Lívea Soares (Coletivo 20 de Novembro)
Revisão: Leonardo Maceiras e Pedro Anelli
Imagem da Capa: Coletivo 20 de Novembro







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