NOVENTA E OITO POR CENTO



GABRIEL RODRIGUES SANTOS


A Gazeta Vargas me pediu para entrevistar um atleta paralímpico para a nossa revista de esportes. A primeira coisa que tive de decidir é se faria uma publicação daquelas simples, direta, com as perguntas em negrito e uma transcrição da resposta em seguida. Talvez essa seja mesmo a melhor forma de expor ao pé da letra os fatos e relatos do entrevistado, mas acredito que essa é uma história que merece ser contada.


Enviei algumas mensagens a ex-campeões paraolímpicos, como Daniel Dias, André Brasil e muitos outros e outras gigantes do esporte paralímpico, mas fiquei sem resposta, ou apenas com o finíssimo “infelizmente, por motivos contratuais, ele(a) não poderá participar”. Cerca de uma semana depois que o meu colega, Gabriel Linares, disse-me que havia encontrado um atleta que topou nos conceder a entrevista.


O esportista é outro Gabriel, Gabriel Scarpinelli, nadador que representou o Brasil na edição de 2011 das Special Olympics, e que pratica o esporte há cerca de 30 anos. Hoje, com 33 anos de idade, ele pedala aos fins de semana, frequenta a academia de natação “mais badalada da cidade”, é músico percussionista de bateria, compositor - publicando suas músicas autorais no seu canal do YouTube, “Gabriel Passos” - e também é auxiliar geral de escritório em uma construtora local. Gabriel nunca teve dificuldade de se apresentar em público, seja na música ou na água: “Dificilmente, vocês vão me ver tímido”, ele afirma. Nativo de Jundiaí, SP, começou a nadar muito cedo em sua vida. A piscina, que ele prefere chamar de “paraíso aquático”, há muito tempo é um dos seus locais preferidos para interagir com outras pessoas e descontar, na braçada, os problemas do dia a dia.


Gabriel nasceu com uma doença chamada agnosia, resultado de problemas nos lobos cerebrais que prejudicam os sentidos, no seu caso, a visão, e também gera uma deficiência intelectual. Apesar do infortúnio, o nadador compensa tudo com sua disciplina, determinação e sociabilidade, sem perder nenhuma chance de dar um sorriso ou contar uma piada.


Entre 2010 e 2011, época em que treinava na PEAMA - o Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas da Prefeitura de Jundiaí, que visa democratizar o acesso às atividades esportivas e incluir pessoas com deficiência -, teve a oportunidade de frequentar duas seletivas que ocorreriam na piscina interna da ESEF e na PUCCAMP. Os atletas que se classificassem entre os dois primeiros lugares em ambos os eventos seriam convocados para representar o Brasil nas Special Olympics. E esse foi o caso do Gabriel.


As Special Olympics são os jogos que dão nome à maior organização mundial de esportes para crianças e adultos com deficiência intelectual ou física. A sua realização com participação internacional aconteceu pela primeira vez em 1986, graças à visão de uma filantropa americana da família Kennedy chamada Eunice Shriver que, inclusive, realizou os jogos em seu próprio jardim. Desde então, as Special Olympics têm tido o papel de construir comunidades de aceitação e inclusão para pessoas com e sem deficiência intelectual, contribuindo também para o desenvolvimento de novas habilidades socioemocionais - como a coragem, por exemplo - e de aptidões físicas, utilizando sempre as modalidades olímpicas como ferramenta principal.¹


Já em 2011, quando Gabriel Scarpinelli participou da delegação brasileira convocada às Olimpíadas Especiais, a edição aconteceu na cidade de Atenas, e foi lá onde ele descobriu o gosto por viagens e a vontade de conhecer o mundo. Ele conta que o modelo de “cidade anfitriã” contribuiu muito para essa experiência, já que não exigia a reclusão dos atletas na vila olímpica, e também a oportunidade de conhecer outros atletas e membros de delegações de diversos países.


Em Atenas, as três principais modalidades nas quais competiu foram os 25 metros de crawl e costas e um revezamento de 25m x 4 atletas. A escolha pelas provas mais curtas e, consequentemente, mais rápidas, deu-se por uma dificuldade de realizar a respiração lateral. Assim, era necessário que Gabriel nadasse em apneia, isto é, sem colocar a cabeça para fora da água para respirar durante a prova. Scarpinelli conseguiu o pódio e a medalha de bronze nas duas primeiras, e sua equipe se classificou em quinto na prova de revezamento.



G. Linares: Gabriel, do ponto de vista da aprendizagem, quais você acha que foram as lições que levou da competição? O que você evoluiu depois de voltar de lá? Sua cabeça mudou muito?


Gabriel Scarpinelli: “Eu acho que uns 98%... Por exemplo, eu nunca, na minha vida, achava que um dia fosse decidir fazer inglês. E lá foi um incentivo pra fazer. Porque, hoje, o meu propósito é fazer uma segunda viagem para fora do Brasil. E já tem mais de dez anos que eu faço inglês.”



Tivemos, também, a oportunidade de conversar com Leandro Trevisi, que realiza o acompanhamento do Gabriel há cerca de 16 anos. Leandro é profissional de educação física e realizou o treinamento junto ao pessoal do PEAMA. Por não ser funcionário público, ele acompanhou Scarpinelli a pedido dos próprios pais de Gabriel e esteve ao seu lado durante todo o processo da viagem e dos jogos na Grécia.


Leandro conta que a evolução física e motora advinda da prática da natação e dos instrumentos musicais é muito perceptível e foi fundamental à medida que Gabriel crescia e as dificuldades apareciam. Segundo Leandro, o grande objetivo é a criação e o desenvolvimento da independência. Sobre a Special Olympics, afirma que “ela tem um conceito diferente, busca desenvolver para o mundo, para o resto da vida. Então, o foco não é totalmente na performance. Como ele é uma pessoa muito social, ele sentiu a necessidade de aprender inglês para conversar com as pessoas. Então ele começa a perceber essas necessidades. E, quando ele voltou, eu perguntei ‘você tem a vontade de aprender?’ E aí começamos a procurar e ele começou a fazer e gostar também. Depois, apareceu o trabalho, que foi uma responsabilidade que ele mesmo criou sozinho. Então ele sempre procura buscar alternativas para as coisas que ele faz e quer fazer no momento. A gente não busca obrigar, mas tenta abrir os caminhos pra ele entender e decidir o que é importante e melhor para ele. A partir do momento em que ele foi para as Olimpíadas, houve um salto muito grande nessa independência porque ele foi traçando mais e mais o que ele quer para a vida dele.”


A história de Gabriel Scarpinelli é uma de constante superação pessoal, com o apoio sempre presente da família e amigos, e também de sucesso dos programas que visam oferecer mais oportunidades para pessoas com necessidades especiais, sejam eles de órgãos públicos, como o PEAMA da prefeitura de Jundiaí, de ONGs, como as Special Olympics, ou de empresas privadas, como a construtora onde ele trabalha. Infelizmente, o caso de Gabriel é exceção para a realidade brasileira. No mercado de trabalho, apenas 0,9% das carteiras assinadas são de pessoas com necessidades especiais e, em 2018, apenas 38 mil alunos do ensino superior tinham esse perfil. O número total de pessoas com alguma necessidade especial no Brasil soma mais de 40 milhões.²


Durante a pandemia, os treinos de natação foram interrompidos por acontecerem em uma piscina fechada. Gabriel já está vacinado e continua pedalando nos fins de semana, aprendeu a fazer edições de vídeo para seu canal no YouTube, e o que ele mais sente falta é do seu trabalho.


Revisão: Glendha Visani e Cedric Antunes

Capa: Gustavo Ces

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Referências:

¹ Informações retiradas da seção “Quem somos” do blog da Special Olympics: https://specialolympics.org.br/

² Deficientes encontram entraves para trabalho e estudo no Brasil

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