#ONELASTDANCE: O TEATRO E O ESPORTE

O último jogo de Dwyane Wade foi realmente emocionante, nosso redator Gabriel Freitas explica o porquê de sua despedida representar uma grande perda para a NBA.

Para fechar este semestre dos esportes, utilizarei este espaço para a agradecer a um dos grandes ícones do basquete mundial, Dwyane Wade, que anunciou sua aposentadoria nesta temporada da NBA. Para isso, o texto se prestará a comparar o teatro em Brecht e o esporte de Wade.


Para iniciar, cabe mencionar brevemente a paixão de Brecht pelo esporte. Bertolt Brecht certamente tem seu nome no hall da fama dos dramaturgos, sendo conhecido e respeitado mundialmente pelo seu estilo próprio de fazer teatro. De forma breve, Brecht se popularizou no mundo do teatro com o seu gênero épico. Este consiste em um teatro do social, ou seja, a função do teatro é apresentar uma crítica social que não mais mimetize a realidade, mas sim seja de fato um reflexo dela.


Dessa forma, devemos sempre ter em mente que a principal marca da dramaturgia brechtiniana é o distanciamento entre o ator e o personagem: a todo instante o espectador sabe que está assistindo a uma peça e não à realidade. É a partir dessa clara noção do espectador de que aquilo é uma representação, que Brecht instigava seu público a refletir sobre sua própria realidade. E, se devo dizer, tal modelo funcionou bem a ponto de elevar Brecht à categoria de gênio da dramaturgia.


Agora, Brecht nunca deixou de lado sua paixão pelo esporte, incorporando à algumas de suas peças dinâmicas bem interessantes atreladas ao mundo esportivo. Mas, antes de analisa-las, precisa-se definir o que seria esporte para que se possa entender como ele foi incorporado ao teatro.


Sem apresentar as grandes discussões, podemos dizer que esporte é a materialização da dicotomia sujeito-objeto, uma vez que se não houvesse tal coisa, não haveria um esporte, mas sim um jogo. Logo, temos de ter em mente que a ideia de esporte, ao menos na acepção de Brecht, está necessariamente ligada ao espetáculo. Por isso a genialidade deste autor: ele foi capaz de perceber que as pessoas estavam se tornando obcecadas pelo esporte e não mais pelo teatro. E, nesse sentido, a grande sacada do autor foi entender que algo precisava ser feito para recolocar o teatro no campo da atração, transformando-o novamente em um espetáculo.


Para atingir este objetivo Brecht se valerá de um “sujeito-espetáculo” ativo aliado a um “objeto-público” igualmente ativo. Nota-se, pois, que, por princípio, a filosofia teatral de Brecht é a mesma da lógica do esporte, em que nós temos um sujeito-partida e um objeto-torcedor. E deve-se sempre ter em mente que o torcedor exerce um certo protagonismo no esporte, uma vez que empurra o time para frente, estimula os jogadores a darem o seu máximo. E é para com essa lógica que Dwyane Wade contribui ao longo de sua carreira de 16 anos.


Como em uma peça brechtiniana, Wade agia ativamente, defendendo (é o guard com maior número de tocos da história da NBA), atacando, trazendo o público para a partida. Wade cativou os torcedores do Miami Heat com suas jogadas, suas cestas nos últimos segundos, suas enterradas. Tive o prazer de presenciar uma partida do Miami Heat de Lebron James e Dwyane Wade, na oportunidade Wade marcou 32 pontos e terminou com um triplo-duplo. E a cada jogada ele trazia mais e mais o público para o espetáculo.


Os torcedores não assistiam ao show de Wade, eles vibravam, incentivavam, chamavam a defesa. Tentavam distrair os adversários nos lances livres. Vaiavam jogadas ruins, ironizavam erros. Tornavam-se parte do espetáculo de Wade. Ficava claro que ele não jogava para si, ou para a vitória. A construção do espetáculo de Wade dependia de uma conexão com a torcida, pois, ainda que inconscientemente, o jogador sabia que o espetáculo não é o jogo de basquete e sim o esporte basquete. Sem o torcedor, sem a participação ativa de sujeito e objeto não há espetáculo, mas sim jogo.


Wade é, portanto, uma das engrenagens que fizeram o esporte ser alvo de admiração de Brecht. A genialidade de ambos reside no fato de compreenderem a vitalidade de uma conexão entre sujeito e objeto, os quais devem ser ativos por igual. Sem a atividade do sujeito ou do objeto não existe espetáculo e toda atuação se torna incompleta, imperfeita. Perde-se um significado.


Com isso, resta apenas agradecer a Dwyane Wade por contribuir para o jogo de basquete se tornar um verdadeiro esporte na acepção de Brecht. Por entender o papel da torcida e da partida. Por jogar plasticamente e celebrar com os torcedores. Por saudar os quatro cantos da arena antes da partida se iniciar. Por fazer enterradas e olhar para os torcedores como se dissesse: “eu estou aqui, mas preciso do seu apoio”. Por celebrar com os torcedores uma vitória importante. E por tudo isso só me resta dizer: obrigado por tudo Dwyane Wade.


Bibliografia Sugerida:

BORNHEIM, Gerd Alberto. A Linguagem do Esporte. In: BORNHEIM, Gerd Alberto. Brecht: A estética do Teatro. Rio de Janeiro: Graal, 1992. Cap. 6. p. 71-97

Trilha Sonora Sugerida para a leitura

Fluorescent Adolescent – Arctic Monkeys

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