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UM MÊS DE BARBENHEIMER E A VOLTA DO CINEMA



Ir ao shopping e se deparar com muita gente com pelo menos uma peça de roupa cor-de-rosa não foi nada surpreendente nos últimos 30 dias. Desde 20 de julho, quando ocorreu a estreia de “Barbie” nos cinemas, o público tomou conta dos shoppings, proporcionando um fenômeno visto antes apenas em grandes estreias de filmes de super-herói da Marvel quando, ao invés de rosa, as pessoas se vestiam de alguns de seus heróis favoritos. No mesmo dia, um dos diretores de maior renome no atual cenário cinematográfico hollywoodiano também estreou um filme. “Oppenheimer”, de Christopher Nolan, veio aos cinemas e se fortaleceu por ter uma estética diametralmente oposta à do filme estrelado por Margot Robbie. Na Internet, o fenômeno de “Barbie” e “Oppenheimer” foi apelidado de "Barbenheimer".


O desempenho notório de ambos os filmes no cinema é animador para qualquer entusiasta da sétima arte e também para os estúdios. A Mattel, empresa de brinquedos que detém os direitos autorais sobre a boneca “Barbie”, já analisa a possibilidade de lançar outros filmes baseados em seus brinquedos, como “Hot Wheels”, “Polly Pocket” e “Barney”. E não é à toa: o fim de semana de estreia de Barbenheimer foi o quarto maior na história dos cinemas nos Estados Unidos, ficando atrás apenas dos finais de semana de estreia de “Vingadores: Ultimato”, “Vingadores: Guerra Infinita” e “Star Wars: a ascensão da força” –“Barbie” fez US$ 155 milhões e “Oppenheimer” US$ 80 milhões.


O filme dirigido por Greta Gerwig é agora o detentor da maior estreia de um filme dirigido por uma mulher, ultrapassando por US$9 milhões a estreia de “Capitã Marvel”. E não para aí: o filme da boneca se juntou ao grupo de 50 filmes que ultrapassaram a marca de US$1 bilhão de dólares em bilheteria na história do cinema. Com US$1,3 bilhões, “Barbie” fica atrás apenas de “Super Mario Bros. O filme” para se consagrar como a maior bilheteria do ano. Além disso, o filme cor-de-rosa já é a maior bilheteria global da Warner Brothers Studio.


É inegável o sucesso que esses filmes fizeram no cinema, mas não se pode deixar de questionar: se se trata de um fenômeno isolado ou a tendência é a de que o cinema volte a ter a mesma força de antes da pandemia? Isso porque, segundo um estudo do jornal Estadão, comparado ao primeiro semestre de 2019, as bilheterias foram 37% menores este ano. A tendência que se demonstra com relação ao consumo de audiovisual é que se dê preferência aos serviços de streaming em detrimento ao cinema. Os seguintes gráficos demonstram tal tendência:

O que se observa é que a pandemia teve forte influência no deslocamento do público dos cinemas às TVs de casa. Mas o cenário futuro deve mudar após a catarse de Barbenheimer?

Adhemar Oliveira, diretor da rede Espaço Itaú de Cinema, e Mônica Portella, diretora de marketing da UCI Cinemas, concordaram, em entrevista para o jornal Estadão, que se trata de uma exceção. Completam que não foram os únicos filmes de sucesso nesse ano, motivo pelo qual não se deve acreditar que são eles o pivô da mudança do comportamento do público referente ao cinema. Antes da estreia de ambos os filmes, “Super Mario Bros. O filme”, já havia surpreendido as redes de cinema, se tornando a segunda maior bilheteria de filme de animação na história.


Para ambos, o sucesso do filme dos irmãos encanadores e da boneca se justificam pela nostalgia. Portella comenta que “[...] No caso da Barbie, parte do fenômeno vem da memória afetiva em relação à boneca”. Quanto a “Oppenheimer”, Oliveira comenta: “[...] A bomba atômica representa uma lembrança da infância do século 20, mas na chave da tragédia. Estamos vivendo um momento no mundo em que isso é preocupante. Essa junção nos mostra como podemos repensar essa história de maneiras diferentes”.


Outro fator que prova se tratar de um acontecimento isolado foi a baixa repercussão na bilheteria de outros filmes lançados no verão estadunidense. Títulos chamativos que já renderam grande entusiasmo por parte do público como “Indiana Jones”, “Transformers”, “Missão Impossível” e “Velozes e Furiosos” foram inexpressivos em termos de arrecadação este ano.


Para além do fator nostálgico, que começou com “Barbie” e que impulsionou o sucesso de “Oppenheimer”, o entusiasmo do público em ir nos primeiros dias para não “tomar nenhum spoiler” fez com que muitas pessoas corressem para o cinema, no lugar de esperar o lançamento no streaming. Se os filmes de Gerwig e Nolan se tratavam de novidades e o filme inspirado em um dos maiores videogames do mundo foi o resultado de anos de espera pelo público, os demais grandes títulos lançados neste ano se trataram de histórias recontadas que já não tem tanto apelo.


Apesar disso, a ideia de que filmes devem ser vistos no cinema ainda é um fator que repercute. Nolan sempre defendeu que filmes são feitos para serem vistos nas gigantescas telas de salas de cinema e com “Oppenheimer” não foi diferente. O público não só correu para ver o filme como foi seletivo quanto à sala na qual queria vê-lo. A ideia de que a experiência de ver um filme no cinema é mais proveitosa do que a de vê-lo na TV de casa vende, e muito. Algo similar aconteceu com “Avatar: O caminho da água”, que se consagrou como a maior bilheteria pós-pandemia e a terceira maior da história do cinema. O diretor, James Cameron, também divulgou o filme praticamente exigindo que o público atendesse ao cinema.


Na mesma toada, Denis Villeneuve, diretor de “Duna”, criticou o lançamento de seu filme no streaming: “Os serviços de streaming são uma adição positiva e poderosa aos ecossistemas do cinema e da TV, mas eu quero que o público entenda que ele por si só não pode sustentar a indústria cinematográfica como a conhecíamos antes do Covid-19. O streaming pode produzir um ótimo conteúdo, mas não filmes do alcance e da escala de Duna”. Ainda assim, o filme não se destacou muito nas bilheterias, fechando com US$405 milhões, algo abaixo do esperado para um filme orçado em US$165 milhões.


Assim, a ideia de que filmes devem ser vistos nos cinemas, apesar de vender, traz consigo uma grande preocupação. Para que os filmes atendam às expectativas do público quanto à grandiosidade da produção e à qualidade cinematográfica, o custo e o tempo de produção têm subido drasticamente, fazendo com que a bilheteria dos filmes tenha, necessariamente, que superar um orçamento de centenas de milhões de dólares.


Segundo Marcos Barros, presidente da Abraplex em entrevista à CNN Brasil, “Você não produz um filme do dia para a noite […] Hoje nós temos 30% de filmes a menos do que o normal porque eles estão em processo de produção, isso faz com que a receita fique baixa”. No entanto, Barros permanece esperançoso e diz que pensa ser impossível que o fim do cinema se torne realidade.


Logo, “Barbie” e “Oppenheimer” dão muitos motivos para ficar esperançoso com a ideia de que o cinema volte à mesma força que tinha antes da pandemia. Mas não foram os únicos filmes pós-pandêmicos que trouxeram essa esperança: “Avatar: O caminho da água” e “Super Mario Bros. O filme” já haviam se consagrado como grandes bilheterias.

O que todos os quatro tiveram em comum foi o sentimento nostálgico de espera e criação de expectativas, além de orçamentos maiores que US$100 milhões de dólares. Ao que parece, terá que ser esse o movimento dos estúdios: grandes produções capazes de vender a ideia de que ir ao cinema é melhor do que ver nas TVs de casa.



Autoria: Gustavo Dias

Revisão: Anna Cecília Serrano, Luiza Parisi e Enrico Romariz

Imagem de capa: Reprodução/Twitter

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Bibliografia:


O público voltará ao cinema de vez após Barbie e Oppenheimer? Quais podem ser os novos fenômenos? Disponível em: <https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/o-publico-voltara-ao-cinema-de-vez-apos-barbie-e-oppehneimer-quais-podem-ser-os-novos-fenomenos/>. Acesso em: 31 ago. 2023.


Sem recuperar metade do público perdido na pandemia, cinemas criam assinatura mensal de ingressos com desconto. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2022/08/cinemas-criam-planos-de-assinatura-com-descontos-para-trazer-publico-de-volta-ao-escurinho-das-salas.ghtml>. Acesso em: 31 ago. 2023.


COLETTI, C. É hit! Todos os recordes da bilheteria de Barbie. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/filmes/barbie-todos-os-recordes-de-bilheteria#24>. Acesso em: 31 ago. 2023.


Denis Villeneuve volta a criticar lançamento de “Duna” no streaming. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/cultura/denis-villeneuve-volta-a-criticar-lancamento-de-duna-no-streaming>. Acesso em: 31 ago. 2023.


SAMPAIO, A. O cinema está de volta: público deve chegar a 60 milhões no Brasil até dezembro, diz Abraplex. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/economia/o-cinema-esta-de-volta-publico-deve-chegar-a-60-milhoes-no-brasil-ate-dezembro-diz-abraplex/>. Acesso em: 31 ago. 2023.


PORTAL, E. DO. As plataformas de streamings estão acabando com o cinema? Disponível em: <https://jornalismorio.espm.br/destaque/as-plataformas-de-streamings-estao-acabando-com-o-cinema/>. Acesso em: 31 ago. 2023.




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