UMA HISTÓRIA DE PERTENCIMENTO DE QUEM NUNCA FEZ PARTE


Por Maria Antonia Gouveia


Na semana passada, trouxe aqui para a Gazeta um texto sobre lazer. Aquela definição de lazer que eu dei lá, de tempo para escolher o que fazer, eu ouvi um dia na vida e nunca mais esqueci. Muita coisa da vida eu faço, ouço e nunca mais esqueço. Quis transformar em texto, então, que é uma das coisas que se encaixa na categoria das que eu sei fazer — escrever texto e lembrar. Vou lembrar de algumas coisas da minha jornada de pertencimento com o esporte aqui.


Comecei a praticar esporte muito novinha, em uma tentativa da minha mãe leonina de contradizer meu pai virginiano, que achava que Gouveia não sabia muito praticar esporte. Tive mil e uma experiências esportivas na minha vida escolar, boa parte delas minimamente degradantes: saía suada, machucada, chateada, meio torta e sem disposição nenhuma para continuar o dia. Tentei dançar balé, mas o collant me apertava nos lugares errados. Tentei fazer natação, mas eu me cansava rápido demais. Tentei judô, mas troquei pelo krav magá que era mais a minha cara, só para descobrir que, na verdade, a luta como um todo nunca foi para mim.


Aí eu aprendi a simplesmente não entrar. O que é que eu, menina que nem eu era, Gouveia que nem eu era, estava fazendo na quadra de vôlei? Melhor ficar virada para a parede sozinha para não atrapalhar o desempenho das outras meninas, coitadas, que elas são menos meninas e sabem jogar. Passei uma série longa de terças e quintas-feiras encarando o verde e branco da parede da quadra da Rua Alvarenga, 519, onde eu estudava. Para não atrapalhar as meninas, sabe como é.


Fui tentar fazer o que eu não atrapalhava fazendo — escrever texto e lembrar, que nem estou fazendo aqui agora. Nessa aí, aprendi que muitas coisas em um país se definem constitucionalmente — não fiquei uma simulação das Nações Unidas sem ouvir que tem acusações que ferem cláusulas pétreas das constituições dos países que as pessoas representam e sempre achei a coisa mais legal de todas usar esses termos para fazer descrições. E fui olhar na Constituição, então, o que era esse tal de esporte que em todo lugar tinha escrito e em nenhum desses lugares era para mim. Como eu disse semana passada, na Constituição que a gente segue, esporte é lazer: um direito pessoal inalienável e etéreo, ou seja, que deve ser garantido e protegido pelo poder público, mas que diz respeito à vontade individual de cada cidadão, não podendo ser caracterizado de forma limitante.


Só que, na minha experiência, definir as coisas como a gente queria não tinha dado tão certo assim. Descobri que, nesse mundo nosso, existem uns mundos um pouco diferentes dos registrados nos livros que a gente gosta de ler e quer respeitar. Aprendi que a galera não vive que nem a gente, muito menos do jeito que a gente escuta falar por aí. E aprendi, sim, que tem como aprender as coisas por conta própria e quebrar uns conceitos que a gente acha que são regra constitucional. Só que o “por conta própria”, no meu caso de aluna de bons professores, sempre quis dizer “muito bem acompanhada”.


Uma vez, ouvi de uma dessas boas professoras que eu tinha que experimentar as coisas de esporte e, no fim das contas, acharia alguma que eu gostasse. Eu tinha que pegar o texto da lei — esse que dizia tanto sobre escolha, sobre coisas que não pareciam existir — e fazer virar verdade e ponto final. Fiz, então. Dancei forró, empinei pipa, fiz ginástica, um monte de luta, todos os esportes possíveis terminados em “ball” eu joguei também. Só não fiz trilha e nem subi morro nenhum, porque a gente não se transforma tão fácil assim e eu tinha que me manter fiel às minhas raízes de alguma forma, é claro.


Do forró e de outras experiências na educação física eu descobri que, para mim, o lazer tem uma conexão muito íntima com a dinâmica e o relacionamento com as pessoas. Quase nada na vida que me mudou completamente eu fiz sozinha. Sempre foi no meio de gente, sentindo as pessoas e conhecendo gente nova. Vou contar um outro caso de uma experiência minha aqui, já que eu já estou engajada nessa de escrever.


Em 2018 e 2019, eu tive o imenso privilégio de servir no CSA no Vale, um projeto voluntário em parceria com a Ordem dos Frades Menores. Foi no Vale que esse negócio de lazer e de gente passou a fazer mais sentido. Desde as primeiras reuniões, escutamos sobre como o projeto não é assistencialista e sobre como a gente está lá simplesmente para oferecer carinho e atenção para as pessoas. Planejamos muita coisa antes de ir. Adaptamos muitos jogos e outras coisas que aprendemos nas aulas da vida para passar para o pessoal que a gente conhecesse por lá, buscando levar lazer para essas pessoas, ou ensinar-lhes como é que se fazia divertimento.


Brincando com as crianças e ouvindo-as foi que eu percebi que a gente não era assistencialista, mas sim levava para aquela galera a doação mais importante de todas: o direito de se sentir gente. Ninguém nunca quis jogar o jogo de rouba bandeira que eu tinha preparado. E o “Corre Cutia” era importante sim, mas nunca da forma que achei que seria. Ninguém ligava para o esporte que a gente praticava por causa do esporte em si. Nem para a bola, nem para a peteca, nem para o melhor bambolê. A melhor parte do jogo era o interesse, o diálogo, a disponibilidade de estar, a negação ou a abnegação de um momento individualista para viver o conjunto, a coletividade. O time.


E o negócio sempre foi esse, sabe? O segredo das coisas, o porquê de algumas coisas nessas aulas de prática esportiva que fiz ao longo dos anos fazerem tanto sentido para mim e outras não. Eu só me sentia bem quando me sentia gente. Quando me olhavam no olho, me permitiam me sentir e ter contato comigo mesma, com as coisas que eu gosto agora, com o que eu quero gostar e com o que eu quero ser. E de volta à palavra de lá de cima — humanizante — de repente, o direito ao lazer se tornou o mais importante de vários para mim. Eu, que sempre gostei de política e nunca gostei de futebol, estava lendo tese de gente formada em Educação Física e procurando o que eu nunca pensei que fosse fazer tanto sentido para mim.


É que eu percebi que a educação na qual eu acreditava e colocava na redação do Enem falando que era “o principal fator de transformação social” (e ainda citava uns Paulo Freires para ganhar alguns pontos a mais) estava intimamente relacionada com essa disciplina e com o que ela se prestava, teoricamente, a fazer. Quase deixando de ser aluna, descobri mais um privilégio que tive enquanto exercia essa função de aluna — ter aula com uma equipe de profissionais incríveis, as quais já tinham descoberto todas essas coisas antes de mim e estavam dispostas a me direcionar para que eu pudesse descobrir também.


Não sei se fez sentido, eu não costumo saber enquanto falo ou escrevo. Descobri do que gosto, Silvinha, minha querida professora, assim como você falou que eu iria. Gosto de Educação Física. Dessa da que você dá. Queria que as coisas funcionassem que nem na lei para que mais gente pudesse gostar também. Acho que na vida vou trabalhar por isso.

Muito obrigada pela companhia.



Revisão: Bruna Ballestero e Glendha Visani

Imagem de capa: Carolina Eguchi


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