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05H52 DO DIA 20 DE AGOSTO DE 2025. AV. BRIGADEIRO FARIA LIMA, SÃO PAULO, BRASIL.

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Este texto não se trata de uma peça informativa. Busque outras fontes mais confiáveis para saber dos fatos do caso.


Acidentes tendem a ser incontroláveis. Conjuntos de ações determinam um resultado que pode ser fatal. Ações podem não ser erradas em si, mas fazem parte da cadeia que levou todos nós até aqui. O tempo geralmente não nos permite saber o que algo sendo feito no agora fará conosco depois. Portanto, um acidente é sem culpados – o mais próximo que pode receber a culpa é o tempo em si por geralmente não nos permitir saber as consequências de que é feito. Mas isso não é um acidente. Determinados encadeamentos sabemos o que fazem, o tempo é incapaz de esconder todas as consequências. Predições, mesmo que do quase imediato, fazemos a todo momento. Um passo tomado nos leva aonde queremos ir – isso é previsível.


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Um Porsche 911 fura um sinal às seis horas da manhã de uma quarta-feira. Rápido, sem sinais de que tentou parar, por pouco desvia de uma batida completa na lateral de um HB20. Este onde estava um pai levando o filho para a faculdade. Não houve feridos graves, mas o filho teve alguns machucados que demandaram uma ida ao pronto socorro, ao invés da faculdade, lugar onde ele esperava estar quando havia acordado de madrugada, novamente, numa quarta feira. Em poucas horas, milhares de trabalhadores, muitos que também devem ter acordado naquela madrugada de quarta, irão passar pelo local da batida – uma das avenidas onde mais se concentram prédios comerciais em São Paulo, se atrasarão para seus devidos compromissos, se estressarão pela rotina massante e, para espairecer, abrirão seus respectivos instagrams e verão stories das mesmas cenas que perturbaram suas manhãs.


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Na madrugada de quarta feira, alguém não estava acordando, mas sim já estava acordado. Sedado por um whisky Blue Label iluminado pelo flash do celular para que pudesse ser divulgado em seu instagram. Espaço em que mais de um milhão de pessoas olham e, possivelmente, veneram a sua existência. Afinal, você não faz nada além de existir e gastar – gastar muito, todos os dias. Uma verdadeira inspiração, uma meta, que todos podemos garantir se clicarmos no link que você oferece para investir na mais nova roleta virtual. O governo, óbvio, quer tirar isso de você, que foi investigado por supostamente estar fazendo propaganda falsa, prometendo altos lucros e o seu padrão de vida para cada miserável jogado no poço. Poço esse que talvez você receba um percentual do dinheiro que os miseráveis pagaram para terem a incrível oportunidade de se jogarem.


Você está sedado, e sabe disso, a droga se põe quase como uma barreira para a falência de espírito que te alcançou há muito tempo. Não obstante acelera entre os prédios da Faria Lima, sabendo muito bem o que isso pode gerar, ainda mais quando dopado. Mas será que para você isso ainda é um pensamento que te cruza? Quantas vezes isso já aconteceu? A síntese da batida não alcança a cabeça de ninguém envolvido. Você sabe que irá acontecer somente quando já aconteceu. No próximo momento já está no poste. Raiva. Seu carro miseravelmente financiado está destruído, do seu lado, o lixo, que você bateu. Grite, xingue, afinal quem tem o direito sobre ele é você. Se trata de uma análise consistente dos fatos, o dono daquela avenida é você, o pai e o filho que havia esquecido de se certificar disso – outros fatos não importam, ou pelo menos não deveriam importar. Novamente, o governo, insuportável pela sua semi-presença constante, irá implicar com a questão, com o álcool na sua garganta, com o THC no seu sangue. 


Fuja, covardemente.


Autoria: Daniel Rocha

Revisão: Ana Clara Jabur

Imagem de Capa: Estático de vídeo digital, Smart Sampa

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