GADO



Eh, oô, vida de gado

Povo marcado eh

Povo feliz!

Zé Ramalho


I.


Num comício simples, com gente de camisa furada e rugas no rosto, parou seu carro e pôs-se a escutar. A mão do orador estava sempre a sacudir, às vezes fechada em punho, às vezes armada, em tom de acusação.


Quando o ouviu gritar, enérgica e descaradamente aquelas coisas erradas, seu coração começou a bater mais forte. O nariz inflamou, suas mãos tremeram, uma excitação percorreu seu corpo - pensou consigo mesmo: "eu gosto disso, eu confio nele". Começou a segui-lo - eis o primeiro dia em que este rapaz foi marcado.


Aquelas palavras o trouxeram de volta para um tempo cor sépia, de sabor fresco do leite, da voz rouca do avô e das surras de espada-de-são-jorge. Desce daí que aí não é lugar de subir, moleque! Hora de dormir, pra cama já! Para já com isso, ah-ha mas é hoje que você vai levar uma!


Dores e saudades, ah saudades…


Pois que, para um povo como o nosso, educado pelo grito e conduzido no cabresto, é o estalo do chicote que acalma suas incertezas, é o que seduz seus corações.



II.


Já depois de um tempo como seu seguidor, o rapaz percebeu que em cada rua, em cada esquina, não importava com quem fosse ou do que tratasse, o homem sempre se portava do mesmo jeito: rude, grosseiro, folgado - um parvo, definitivamente um parvo. Mas o homem, ao mesmo tempo em que provocava espanto quando dizia aquelas besteiras, produzia sempre aquela sensação de conforto, de se estar em casa, do sol na varanda num almoço de domingo. Ah, que sensação boa!


O jovem acompanhava ele em tudo. Jogaram bola juntos outro dia contra o time do bairro vizinho. O homem trapaceava, xingava, discutia com o juiz, ameaçava furar a bola - tudo para o deleite do jovem e de seus colegas, que também começaram a segui-lo. Um palhaço nunca faz escárnio sem platéia, lembremos disso.


Encerrado o jogo, todos iam à casa de alguém beber e comer churrasco. Faziam vaquinha para comprar a cerveja e o homem, ardilosamente, sempre se oferecia para sair e comprar o gole - mas é claro, nada nessa vida é de graça.


O picareta metia 30 dos 180 reais da galera no bolso, e explicava o déficit da breja xingando o dono do bar que aumentou o preço do nada. Vagabundo oras! Piadeiro como sempre, ele era o primeiro a pegar no pé do gordinho e chamar de viado quem não estava bebendo. E lógico, todo mundo ria, todo mundo ria.


O mais legal de tudo era o programa depois do culto que começaram a frequentar juntos. O pastor era um colega próximo, companheiro das peladas no campinho, e deixava ele falar no microfone de vez em quando. O homem xingava tudo: o prefeito, o crime, a secretária vagabunda, o viado do supermercado, o grevista, o preço do feijão, da gasolina e os buracos na calçada. Os fiéis gostavam, às vezes seus discursos substituíam os sermões. "Família é homem e mulher! Viado vai queimar no inferno! Esses vagabundos querem acabar com nossas famílias e crianças! É isso mesmo, tem que falar a verdade na cara, pô!".


Assim, quando saiam do culto, pegavam o carro e partiam para umas 5 quadras dali, para a zona mais barata da cidade. Bora meu amor, leva a garrafa pro quarto. Em nome de Jesus, não faça essa vagabunda ter que abortar de novo, senhor meu Deus tenha misericórdia, interceda nessa buceta. Fica de quatro! Amém.


Depois da noite honesta, o rapaz mal conseguia encontrar o caminho de casa. No primeiro dia em que fez isso, sua esposa, recém casada e nem um pouco besta, percebeu na hora, e ele ouviu - e como ouviu. Mas bêbado que só, irritado com a bronca e o choro do filho, meteu-lhe a mão na cara. Vai dormir vagabunda, caralho! Ela nunca mais disse nada.



III.


Os anos passaram. Depois de um tempo, os comícios e os discursos na igreja renderam ao seu amigo um mandato como vereador, depois como deputado e, finalmente, como presidente. Eles passaram a se ver menos, naturalmente, mas mesmo lá de cima, fosse do congresso ou do planalto, o homem sempre ligava para seus amigos da planície - a opinião deles era a que mais importava, a opinião da sua gente.


"Vai pra cima desses caras, presidente. São uns ladrões, não tem que ficar dando bola pra eles. O viado daquele governador ta acabando com o pessoal lá de Mogi? Esses caras tão querendo me derrubar, assim não dá, vou ter que fazer alguma coisa. Isso, presidente! E essa merda de vírus agora? É sério isso aí, presidente? Que porra de vírus o que, esses canalhas da mídia só mentem, tem que mandar se fuderem! Né não, porra? Vírus é o cacete! Sim, meu presidente! É claro, meu presidente!”



IV.


Já velho e barrigudo, um dia, ele acabou brigando com um antigo parceiro depois do jogo de bola. "Ué, mas e o filho daquele vagabundo que comprou 20 fazendas, você não vai falar dele? Você é um analfabeto de merda que fica acreditando nesses lixos, o filho do presidente comprou tudo com dinheiro suado, ele é empresário. Só porque o pai dele é o único que faz aqueles políticos vagabundos tremerem na base a galera parte pra cima da família toda. Não perdoam ninguém, são uns canalhas! Você é um merdinha que acredita nessas babaquices, vai se fuder viado comunista, tomar no seu cú!".


Mas é claro! O presidente é igual a mim, eu sou igual ao presidente. Só por causa disso todos vêm pra cima de nós? Por que esses vagabundos não gostam de nós, os brasileiros de verdade, honestos, trabalhadores e tementes à Deus. Por que? É canalhice de esquerdista, só pode!



V.


Depois de um tempo negando a "merda do vírus", a realidade se impôs. Sua mãe acabou morrendo pelo covid, seu frágil corpo não suportou a intubação. Desconfiado, ele meteu o celular na cara do médico. "Tá vendo o que esses babacas fazem, a coitada tinha câncer e eles vão lá e colocam covid, canalhas! Circulem até chegar no presidente, pelo amor de Deus, isso não pode ficar assim!".


Dias depois o resultado do teste chegou, mas mesmo isso não o convenceu. Apesar da velha ter sufocado até a morte, ele descobriu que os testes eram fabricados na China. "Comunistas de merda, vão mentir na casa do caralho!".


Ele quis um velório mesmo assim. Afinal, em momentos de luto, tanto da pobre mãe quanto da civilização ocidental, é preciso conservar a família, último bastião contra a esquerda e os globalistas.


Os irmãos e sobrinhos começaram a chegar, relutantes, pois todos sabiam da gravidade da pandemia. Mal havia começado o velório e ele iniciou uma discussão. Numa conversa sobre o vírus, sua sobrinha, que fazia medicina, explicou que os remédios que ele comprara para a mãe não serviam, que ela nunca esteve protegida. Ao contrário, a pobre avó poderia ter morrido inclusive em função dos remédios inúteis!


Revoltado, ele perguntou para a sobrinha que merda de professores ela tinha nessa faculdade. Indagou à irmã: "Ô Valéria, que faculdade é essa que você paga pra essa menina? Os caras são todos comunistas, tão doutrinando sua filha. Tira ela de lá porra!". Ele gritou tanto que acabou arruinando o já problemático velório. Os familiares se retiraram, ninguém quis esperar pelo sepultamento do caixão. Entrando no carro, a sobrinha disse à mãe: "o tio virou um animal!". "Um corno desgraçado", ela respondeu.


Chegando em casa depois do enterro, ele sentou no sofá para checar o celular e ver o que circulava de novidade nos grupos. Encontrou um vídeo de seu amigo, o presidente. Na gravação, ele gritava: "esses canalhas tão querendo roubar nossa liberdade, eu nunca desdenhei desse vírus, mas os caras ficam espalhando mentiras impedindo nosso povo de tomar remédio e se salvar! Onde já se viu isso? Acabou porra!"


A voz estridente e os xingamentos do presidente, como sempre, aceleraram seu coração. Ele abanou o rabo entusiasticamente e encaminhou o vídeo para mais umas 20 pessoas, "é isso porra, tomar no cú desses vagabundos, chega, tem que acabar com esses caras!". Foi à cozinha ver o que tinha para comer, o estômago já havia parado de ruminar o almoço. Pegou uma cerveja na geladeira e foi à sacada acompanhar o movimento da rua. Viu um rapaz de máscara - “tira essa focinheira do nariz seu viado!” - gritou, com uma satisfação diabólica, apontando seus cascos para ele, esperneando, berrando, mugindo…




Revisão: João Vítor Vedrano e Glendha Visani Imagem de capa: Claudio Mor/Reprodução Folha de S. Paulo


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