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A COP-30 E A FARSA DO CAPITALISMO SUSTENTÁVEL


A COP-30, Conferência das Partes, tem por objetivo pôr em pauta as mudanças ambientais e, por meio de discussões diplomáticas, estabelecer compromissos para mitigar os desafios climáticos. Em 2025, a Conferência toma lugar em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro. Sendo esta a primeira COP sediada no Brasil, é compreensível o sentimento de animosidade que perpassou a população ao ver o seu solo ser espaço para negociações tão significativas acerca da preservação ambiental. No entanto, faz-se necessário questionar se conferências como esta trazem impactos positivos para a resolução da problemática, ou se são apenas mais um espetáculo político que mascara a continuidade de um sistema que lucra com a devastação ambiental. 


Não me entenda mal: é impossível negar os desastres ambientais consequentes das práticas agrícolas, do desmatamento agressivo e da superlotação automobilística das rodovias. E é, de fato, necessária a implementação de práticas coletivas para a superação desse estado emergencial. Mas será mesmo que o capitalismo verde, fundamentado a partir de uma doutrina neoliberal focalizada na constante exploração natural, pode se conciliar com os objetivos de proteção da biodiversidade e acabar com a crise? 


O capitalismo verde, também conhecido como ecocapitalismo, é um conceito que, firmado no contexto de desequilíbrio ecológico extremo, busca atender às demandas dos consumidores e do ativismo socioambiental (MALAR, 2023). Esse modelo de exploração, de maneira ideológica, baseia-se na perspectiva do desenvolvimento sustentável, definido como: “aquele [desenvolvimento] que busca atender as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades.”, conforme relatório da Comissão Mundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento de 1987. Nesse sentido, a ótica neoliberal vê-se densamente infiltrada dentro da premissa de conservação, dado que, em seus pilares, a própria Comissão incorporou ao seu discurso uma lógica conciliatória que acreditava na autorregulação dos mercados, na centralidade da iniciativa privada e na ideia de que o crescimento econômico poderia coexistir com a preservação dos ecossistemas. 


Nessa linha, podemos ver a COP-30 como uma própria força propagadora do sistema, não muito diferente do cenário de 1987. Os líderes globais, tão imersos na lógica capitalista acumuladora e predatória, não encontram-se propensos a realizar negociações em prol de ações de proteção ambiental, se estas negociações significarem uma perda econômica significativa. Os únicos consensos capazes de serem formulados ocorrem, inevitavelmente, imersos dentro da própria lógica de mercado – às vezes, priorizada em prejuízo das formas de resolução do desequilíbrio ecológico. No ano passado, na COP-29, houve um consenso inédito sobre os mercados de carbono, mas esse só foi alcançado por meio do estabelecimento da possibilidade de “compensar” emissões de gases do efeito estufa por meio da compra de créditos. Assim, os reais poluidores climáticos poderiam se esconder por trás de uma cortina de fumaça e se esquivar das contribuições de financiamento climático. Este foi o único acordo que conseguiu findar um debate de anos. 


Essa lógica mercantil não apenas mantém, mas aprofunda, as desigualdades históricas entre os países. Por óbvio, tais Conferências reproduzem os mesmos padrões de dominação e dependência das relações entre o Norte e o Sul globais. É de se notar que o subdesenvolvimento é consequência direta da exploração colonial e que, por conta de séculos de abuso que ainda se refletem nos países mais pobres, estes últimos ainda baseiam suas economias, majoritariamente, em atividades ambientalmente nocivas. Demasiada fragilidade fez com que houvesse a necessidade de um financiamento climático para que os países em desenvolvimento tivessem o apoio recursal necessário para implementar as ações de mitigação e adaptação de suas tecnologias. No entanto, essa proposta revelou-se mais como uma retórica vazia do que um compromisso concreto, visto que os países historicamente responsáveis pela crise climática continuam a se esquivar de suas obrigações financeiras e a perpetuar, sob o disfarce da cooperação internacional, a mesma lógica de dependência econômica e ambiental que sustenta o sistema. 


Essa tese é reforçada no relatório final da edição de 2024, no qual foi firmada a cifra de US$300 bilhões anuais para ações de combate e adaptação à crise do clima em países em desenvolvimento. A meta exigida pelos países em desenvolvimento era de, pelo menos, US$1,3 trilhão anuais. A disparidade entre os valores apenas revela que as potências centrais, embasadas na lógica capitalista de acumulação, escolhem a dedo os limites da reparação de seus próprios atos. Em cada dia de negociações, não somente a manutenção da lógica econômica é posta em prática, mas também a lógica de dominação que propicia o status quo. Os desastres ambientais, que vêm se intensificando nos países em desenvolvimento, tornam as reparações o foco dos recursos financeiros, impossibilitando o progresso tecnológico das nações periféricas. Assim, a cadeia produtiva permanece inalterada e menos países concentram-se no pódio das grandes economias mundiais.


A cada nova edição, a COP reafirma seu papel como palco de reprodução da lógica capitalista sob o verniz da cooperação internacional – e neste ano, a situação não se diverge do esperado. A COP-30 é, substancialmente, a representação do oxímoro do capitalismo verde. As práticas coletivas necessárias para findar o cenário de desequilíbrio climático extremo não se encontram em Conferências que têm por propósito a manutenção de um sistema que é o causador do colapso ambiental. As suas agendas apenas legitimam a permanência de um modelo econômico predatório, que se reveste de um discurso sustentável enquanto mantêm as suas estruturas de exploração de recursos e povos. Aqui, temos a tentativa de conciliar o inconciliável: crescimento ilimitado e preservação ambiental. 


Autoria: Sarah Costa

Revisão: Ana Carolina Clauss 

Imagem da capa: Pinterest


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