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FINANCIAMENTO CLIMÁTICO: QUEM PAGA A CONTA DO AQUECIMENTO GLOBAL?

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a COP 30 será a “COP da implementação”, tendo em vista que os cientistas já demonstraram que o planeta vai ultrapassar a meta de 1,5°C de aquecimento global estabelecida pelo Acordo de Paris. Ou seja, não há mais tempo a perder e é momento de definição dos planos de ação das políticas climáticas. Entretanto, todas as COPs esbarram no mesmo problema: quem financia essas políticas? A última, no Azerbaijão, foi considerada por especialistas como um fracasso, pois, apesar de cientistas estabelecerem uma meta de US$1,3 trilhão por ano para o combate do aquecimento global, a meta acordada em 2024 foi de apenas US$300 bilhões. Também não ficou claro como será feito esse financiamento. A questão orçamentária de políticas climáticas vai sempre de encontro com a justiça climática, visto que países do Norte Global já poluíram muito a atmosfera em comparação a países do Sul Global. 


Visto esse cenário, uma das grandes apostas do governo brasileiro para a COP é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF em inglês). O fundo é um sistema internacional que tem como objetivo gratificar países que mantêm suas florestas em pé, pagando pelos “serviços ecossistêmicos” das florestas úmidas, como absorção de gás carbônico, manutenção da biodiversidade, regulação das chuvas e do clima. O TFFF pretende arrecadar inicialmente 25 bilhões de dólares de países e entidades filantrópicas. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o fundo já tem 50% do previsto para 2026, com aportes de países como Brasil, Noruega, Indonésia, Portugal e Alemanha, que irão anunciar o valor que será investido no fundo. 


Essa primeira quantia de dinheiro será garantia para a emissão de 100 bilhões de dólares em títulos, assim reduzindo o risco de quem investe, além do dinheiro a ser aplicado em títulos e investimentos de baixo risco, os quais excluem setores poluentes, como a indústria de petróleo. O rendimento do fundo deve pagar os juros dos investidores privados, os juros dos patrocinadores e os países com florestas. Cada país receberá, por ano, 4 dólares por hectare de floresta em pé, o que será controlado por monitoramento de satélite. Além disso, o valor diminuirá caso o país tenha aumento de desmatamento. Os países selecionados também não estarão aptos a receber se tiverem um desmatamento acima de 0,5% ao ano. Há uma lista de 74 países que poderão receber o apoio financeiro, que somado seria a bonificação para 1 bilhão de hectares de florestas úmidas.  


O TFFF se diferencia da proposta do mercado de carbono e do REDD+, mecanismo criado pela ONU que recompensa os países por reduzir emissões causadas pelo desmatamento, já que o modelo de pagamento é direto pela floresta em pé e não pelo o que deixou-se de emitir. Também, um grande diferencial do fundo é o pagamento mínimo de 20% diretamente para comunidades indígenas e tradicionais, que podem gerir o dinheiro a partir de uma instituição ou por meio de uma agência internacional. Logo, é um grande avanço comparado a outros fundos, pois, como afirma Francisco Fillipo, assessor internacional do Ministério dos Povos Indígenas: “Não estamos falando de projetos com participação Indígena, mas de recursos destinados diretamente às organizações indígenas, de projetos que elas vão construir, elaborar e conduzir. Então, é um salto muito forte”. Uma estimativa do governo brasileiro é que o país ganhará 4,3 bilhões de reais por ano, sendo que 861 milhões seriam destinados diretamente aos povos originários. 


Há ainda diversas ressalvas e opiniões contrárias à medida, como a de Pablo Salón, um dos articuladores do Fórum Social Pan-Americano, que descreve o projeto como mercantilização da natureza e que este não questiona as estruturas capitalistas. Ademais, para o ativista deveria haver taxas impostas aos poluidores com impostos extraordinários às atividades que mais emitem. Organizações ativistas do clima alertam que o fundo pode reduzir os investimentos dos países do Norte Global, e atentam para o risco de que este se torne o único investimento em políticas de clima, ao invés de ser um adicional aos outros fundos já existentes. 


Apesar de o governo brasileiro trazer essa proposta robusta para a COP, a posição do país ainda se mostra extremamente contraditória, principalmente após a aprovação pelo IBAMA da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, que foi pressionada para acontecer pelo presidente Lula. Ao mesmo tempo, o presidente brasileiro abre a cúpula de líderes pedindo o “afastamento dos combustíveis fósseis”. Em viagem à Indonésia, ele defendeu a exploração do petróleo alegando que esta é necessária para a transição energética no mundo. 


A questão do financiamento ambiental ainda é um tema extremamente pertinente, porém de difícil definição dos líderes mundiais, afinal as mudanças climáticas são uma problemática global e os países tendem a não se responsabilizar pelo problema. A discussão do fundo é um avanço, principalmente pelo destaque aos povos originários, mas ainda depende da adesão de outros países para realmente funcionar. E, principalmente, para ser uma liderança climática, o governo brasileiro precisa definir melhor quais são suas prioridades.


Autoria: Julia Andrade, GAIA-FGV

Revisão: Pedro Anelli e Ana Carolina Clauss

Imagem da capa: Bruno Peres/Agência Brasil

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Referências


ANTUNES, Cláudia. Fundo Florestas Tropicais para Sempre: uma aposta de que o capitalismo pode salvar o planeta. Sumaúma, 18 set. 2025. Disponível em: https://sumauma.com/fundo-florestas-tropicais-para-sempre-uma-aposta-de-que-o-capitalismo-pode-salvar-o-planeta/. Acesso em: 08 nov. 2025.


BRASIL. Agência Brasil. Entenda como funciona o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. EBC, 06 nov. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-11/entenda-como-funciona-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre. Acesso em: 08 nov. 2025.


COELHO, Thomaz. Justiça climática – o que está em jogo entre países ricos e pobres na COP30? CNN Brasil, 06 nov. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/justica-climatica-o-que-esta-em-jogo-entre-paises-ricos-e-pobres-na-cop30/. Acesso em: 08 nov. 2025.


PINOTTI, Fernanda. Financiamento climático: o que é, quem paga e por que importa na COP30. CNN Brasil, 06 nov. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/financiamento-climatico-o-que-e-quem-paga-e-por-que-importa-na-cop30/. Acesso em: 08 nov. 2025.


JORNAL DO BRASIL. Chegar a US$ 1,3 trilhão de financiamento climático é possível e urgente. JB, 06 nov. 2025. Disponível em: https://www.jb.com.br/brasil/meio-ambiente/2025/11/1057512-chegar-a-uss-13-trilhao-de-financiamento-climatico-e-possivel-e-urgente.html. Acesso em: 08 nov. 2025.


ANTUNES, Cláudia. Foz do Amazonas: governo Lula autoriza a exploração de petróleo e enfraquece a COP30. Sumaúma, 6 nov. 2025. Disponível em: https://sumauma.com/foz-do-amazonas-governo-lula-autoriza-a-exploracao-de-petroleo-e-enfraquece-a-cop30/. Acesso em: 8 nov. 2025.


PEIXOTO, Roberto. TFFF: entenda em 5 pontos o que é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre — proposta liderada pelo Brasil. G1, 6 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/cop-30/noticia/2025/11/06/tfff-entenda-em-5-pontos-o-que-e-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre-proposta-liderada-pelo-brasil.ghtml. Acesso em: 8  nov. 2025.


1 comentário


talentoiinbox
12 de nov. de 2025

Parabéns à autora por nos atualizar sobre esse tema tão importante para a humanidade

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